Mouschi tinha razão – José Jorge Letria

(Adão Cruz)
Quando Anne Frank ouviu, nos céus de Amesterdão, no Verão de 1944, o intenso ruído nocturno dos motores dos bombardeiros aliados, acreditou que estaria para breve a sua saída e a dos seus familiares e amigos do anexo onde viviam há dois anos. Tinha Mouschi ao colo e estava apaixonada por Peter van Pels, que levara o gato para o interior do abrigo.

Tinham sido anos de grande tensão e austeridade. As palavras e os alimentos eram racionados com um rigor difícil de imaginar. O importante era conseguirem sobre­viver até ao dia em que a liberdade, por fim, chegasse. Mas que dia seria esse? Em que calendário se encontrava registado?

Anne ouviu de novo o ruído dos aviões nos céus do país ocupado e quis beijar Peter. Mouschi tinha ciúmes desse amor adolescente que, por vezes, o privava das ca­rícias da menina amada.

—  Quando saíres daqui levas-me contigo, não levas, Anne? — perguntou Mouschi.

—  Claro que te levo, vá eu para onde for, podes ficar descansado — respondeu Anne ao gato de que se tornara dona, fazendo já planos para as horas luminosas em que voltaria a passear pelas ruas junto do canal e a sonhar com o jornalismo e com a literatura. Mouschi, entre­tanto, lia avidamente as páginas do diário, na esperança de que Anne falasse dele. E Anne falou. Anne escreveu sobre ele.

Mas Mouschi, que também ouvia as notícias dadas pela BBC e que eram escutadas num silêncio religioso pelos adultos do anexo, tinha muitas dúvidas e muitos medos.

—  Não te fies no que os teus ouvidos ouvem, Anne, porque as feras andam à solta por estas ruas. É preciso ser astucioso e matreiro como eu sou com as ratazanas que nos vêm roubar a comida durante a noite. Finjo que não as vejo e que não as ouço, depois atiro-me a elas e só descanso quando vejo que estão mortas. São também assim os nazis. Só serão inofensivos quando estiverem todos mortos — sentenciou Mouschi.

—  Tudo menos o ódio, Mouschi, porque o ódio mata mais do que as balas — respondeu Anne, de coração limpo e apaixonado, tentando ver o mundo, no meio da tragédia, com as límpidas cores da esperança.

No dia seguinte, os homens da Gestapo entraram no anexo e prenderam todos quantos nele estavam acanto­nados há mais de dois anos. Anne, a mãe e a irmã foram deportadas para o campo de Bergen-Belsen, onde viriam a morrer. De todos os habitantes do anexo, só o pai so­breviveu no inferno de Auschwitz.

Mouschi conseguiu fugir para a rua e nunca mais ninguém teve notícias dele. Talvez tenha morrido de tris­teza uns meses mais tarde. Talvez tenha passado ainda alguns anos a caçar ratazanas, convicto de que estava a matar nazis e a vingar a morte da sua amada. Vá-se lá saber o que faz um gato apaixonado em horas tão terríveis como aquelas!

(in José Jorge Letria, Amados Gatos, Oficina do Livro)

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