EM VIAGEM PELA TURQUIA – 29 – por António Gomes Marques

(Continuação)

Em 30 de Outubro o estado Otomano assina o armistício com os Aliados em Mudros, regressando Mustafá Kemal a Istambul (Constantinopla) em 13 de Novembro de 1918. Tinha então 37 anos de idade. Em 30 de Abril do ano seguinte é designado Inspector do 9.º (depois 3.º) Exército na Anatólia, ficando assim responsabilizado por supervisionar a desmobilização das unidades militares otomanas, assim como das organizações nacionalistas, mas, em 15 de Maio, os Gregos ocupam Izmir (Esmirna), o que faz com que se dirija, em 19 de Maio, a Samsun, encontrando-se, a 22 de Junho, com comandantes nacionalistas, nascendo assim a ideia de um movimento organizado de resistência, levando-o a declarar, na companhia de amigos próximos, que a independência do país estava em perigo, o que é considerada a primeira proclamação de resistência. Mustafá Kemal deixa o exército otomano em 8 de Julho, levando o governo a emitir para ele um mandado de prisão, condenando-o posteriormente à morte. Entre 23 de Julho e 7 de Agosto realiza-se o Congresso Nacionalista em Erzurum, sendo Mustafá Kemal eleito Presidente, seguindo-se novo Congresso Nacionalista em Sivas, entre 4 e 11 de Setembro, tornando-se Mustafá Kemal líder do executivo permanente da organização nacional de resistência, chegando, nessa qualidade, a Ancara em 27 de Dezembro, onde estabelece o seu quartel-general.

Em 12 de Janeiro de 1920 abre em Constantinopla (Istambul) o que viria a ser o último Parlamento Otomano, suspenso pelas forças britânicas em 18 de Março, dois dias depois de completarem a ocupação da cidade. Seguindo o estabelecido no armistício, as forças aliadas –britânicos, italianos, franceses e gregos- começaram a ocupar a Anatólia, dando oportunidade a Mustafá Kemal para mobilizar o Movimento Nacional Turco e para inaugurar, em Ancara, a Grande Assembleia Nacional (GAN), inaugurada em 23 de Abril, sendo naturalmente eleito seu Presidente. As tropas gregas atravessam a linha Milne, cercam Izmir e movimentam-se para ocupar a Anatólia Ocidental e a Trácia Oriental. Em 10 de Agosto, o Grão-Vizir Damat Ferid Paşa assinou o Tratado de Sèvres, que permitia a partilha do Império Otomano. «Neste contexto de ocupação militar, o movimento nacionalista otomano/turco reclamava como fronteiras para o novo Estado, que pretendia fazer emergir do Império Otomano em ruínas, a linha do Armistício, onde os beligerantes tinham cessado hostilidades. Na prática, esta pretensão representava a perda de todas as «províncias Árabes», da Síria à Península Arábica, passando pela Mesopotâmia (Iraque) – as quais, essencialmente sob acção britânica, se tinham revoltado contra os otomanos -, mas permitia a manutenção do resto do(s) território(s) e população(ões).

Todavia, a pretensão do movimento nacionalista otomano/turco não coincidia com os planos das potências vencedoras, as quais, tendo deixado em aberto a questão do Império Otomano no Tratado de Versalhes (1919), procuraram regulá-la através do Tratado de Sèvres (1920). Mas, o dispositivo deste tratado foi bastante pesado para o Império Otomano (na prática significava o seu progressivo desmantelamento), prevendo-se, nomeadamente, que a região de Esmirna (Izmir) na costa do mar Egeu, iria votar a sua incorporação na Grécia num prazo de cinco anos; que o Presidente norte-americano, Woodrow Wilson, determinaria as fronteiras da Arménia; que a Liga das Nações decidiria quando os curdos poderiam ter a sua independência, se essa fosse a vontade da população; e que o sultão otomano mantinha Istambul (a qual ficava, no entanto, sob controlo aliado) e o resto da Anatólia, exceptuadas importantes zonas de influência concedidas em documento separado à França, no Sudeste, e à Itália, no Sul (Andrew Mango, 2000, p. 285).» (in José Pedro Teixeira Fernandes, «Turquia: Metamorfoses de Identidade», ICS-Imprensa de Ciências Sociais, Maio de 2005, pgs. 41/2).

Voltemos ao livro de Norman Stone: “Em 1920, o sultão, cativo dos britânicos e franceses que ocupavam Istambul, foi obrigado, em Sèvres, a assinar um tratado que além de mutilar enormemente o seu reino o sujeitou ainda a um processo de recivilização forçada. Com a benção de Britânicos e Franceses, os Gregos e os Arménios invadiram a Anatólia. Os Turcos, tornando-se a excepção entre as potências derrotadas, recuperaram e, em 1922, com um líder de génio, reconquistaram o seu país, que foi reconhecido em Lausanne, em 1923. Paradoxalmente, é a única criação do pós-guerra que tem prosperado desde então.” É evidente que o «líder de génio» de que fala Stone não é outro senão Mustafá Kemal.

 Os Aliados mostram ter respeito por Kemal, reconhecendo o seu cavalheirismo na vitória, embora só se tenham apercebido da sua importância quando era ele já o Presidente da República da Turquia. Informa-nos Andrew Mango que, em 1919, o Embaixador Britânico em Istambul nada sabia sobre Mustafá Kemal, ele que era suposto estar bem informado sobre as personalidades realmente importantes naquela época na Turquia.

 Mas não nos adiantemos, pormenorizemos um pouco.

 Os Turcos não poderiam aceitar o Tratado de Sèvres por o considerarem humilhante para a Turquia, dado que as suas cláusulas determinavam a perda, pela Turquia, da Palestina, da Síria, do Líbano, da Mesopotâmia e, para serem entregues à Grécia, de todos os territórios turcos europeus, com excepção de Constantinopla, agora Istambul, e ainda da região de Esmirna, o que provocaria o desmembramento da Anatólia, assim como também não aceitam que os estreitos de Bósforo e dos Dardanelos e ainda o Mar da Mármara fossem transformados em zonas neutras desmilitarizadas, o que permitiria o livre-trânsito a todos os navios estrangeiros, não só de mercadorias mas também de guerra.

 Devemos também referir que a Entente –aliança militar criada no início do século XX pela Inglaterra e pela França, a que se juntaria a Rússia em 1907 e, dez anos depois, os EUA e o Japão e outros países de regime capitalista, num conjunto total de 25 países, que, na I Guerra Mundial, formaram o bloco assim chamado, Entente, que viria a opor-se à Tríplice Aliança, composta pela Alemanha, a Itália e a Áustria-Hungria, a que se juntaria a Turquia- havia feito promessas à Grécia, promessas mais franco-britânicas do que de toda a Entente, para que este país pudesse estender o seu território pela Ásia Menor, promessas essas que levariam a Grécia a entrar na guerra ao lado dos países da Entente. Com o Tratado de Sèvres, humilhante para a Turquia, como acima se refere, sente-se à vontade para ocupar não só Esmirna mas também a costa da Anatólia Ocidental, penetrando «mais de 300 km no interior, ocupando cidades com forte simbolismo para a população otomana/turca como Bursa, a primeira capital do Estado Otomano e Edirne (Adrianópolis), na Trácia oriental, a segunda capital da história otomana, antes da sua transferência definitiva para Constantinopla/Istambul, após a sua conquista no século XV.» (V. obra citada de José Pedro Teixeira Fernandes, pág. 42).

 A ocupação grega, naturalmente pelas razões que atrás referimos, espicaça o sentimento nacionalista turco, o que leva Mustafá Kemal a pegar de novo em armas, estabelecendo um governo provisório em Ancara, liderando o Movimento Nacional Turco na que viria a ser conhecida como a Guerra da Independência Turca, expulsando da Anatólia os Gregos, os Franceses, os Italianos, conquistando, com os seus feitos, o título de Ghazi, que significa o «Vitorioso».

 A completa libertação da Turquia acontece em 1922, tendo a decisiva vitória contra as tropas gregas acontecido em 30 de Agosto; em 9 de Setembro, as tropas turcas ocupam Izmir, chegando Mustafá Kemal à cidade no dia seguinte. Durante o mês de Outubro, acontece a Conferência de Mudanya, terminando com a assinatura do Armistício, que ficou com o nome da cidade, entre a Turquia, a Itália, a França e o Reino Unido em 11 de Outubro deste ano de 1922, terminando assim com a chamada Guerra de Independência Turca, armistício este que só viria a ser assinado pela Grécia em 14 de Outubro do mesmo ano, ou seja, três dias mais tarde do que os seus aliados.

Edifício onde foi assinado a Armistício (v. Wikipédia)

 De acordo com o Armistício de Mudanya, a Turquia via reconhecida a sua soberania sobre Istambul e os Dardanelos, mas perdia os territórios da Trácia até ao Rio Marítsa e Edirne (Adrianópolis).

 (Continua)

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