SEDE ANTIGA – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 

    Vampirismo, a alma doeu-me toda:

 – Estrangeiro que fui no meu país, saltei fronteiras a tentar a sorte.. Estrangeiro que sou, perdi o norte, corri o mundo, não deitei raiz.

 – Que é isso, Chico? (pergunta-me o Artur na máquina ao lado) Deu-te a catrineta ou agora fazes versos?      

 Só então reparo que, por mim, falava a minha boca sem que eu tenha ordenado o discurso. Que fale! pois já não posso suster a lava:

 – É meu rasgado e velho passaporte a sede antiga, esta cicatriz, queimadura que diz e contradiz a pátria calcinada até à morte,

 Bem vejo que o Artur desliga a máquina dele. Hesitante, aproxima-se e vem desligar também a minha. Segura-me pelos ombros. Sacode-me.  Passa-me o braço por cima. Ampara-me, quer levar-me a casa. Por mim, falava a minha boca:

 – Mas torno sempre ao lar: fornalha, frágua, cinzas e pedras sob cada ponte. Orvalho, quando o há, é só de mágoa. E quando exijo ao verde que desponte e vem Abril abrir-se em olhos d’água, vou eu morrer de sede ao pé da fonte.

 Começo a retornar a mim. Isto são movimentos tectónicos que, de leste a oeste, vêm por vezes enrugar a minha alma.. Silêncio à minha volta. Abraço o Artur. Com força.

In MATA-CÃES

Leave a Reply