SALAZAR E A I REPÚBLICA – 4- por José Brandão

Do Vimieiro a Viseu

Não havia escola no Vimieiro, mas, quando o pequeno António atingiu a idade, o pai confiou-o às explicações de José Duarte, funcionário do Município Santa Comba Dão,

passando a fazer companhia às suas quatro irmãs no percurso dois quilómetros do Vimieiro para Santa Comba. Custavam estas explicações seis vinténs por mês.

As dificuldades de deslocação não demovem os pais, principalmente a mãe, de darem ao seu filho o saber das primeiras letras, tal como já sucedia com as quatro irmãs.

Apesar de existir a obrigatoriedade do ensino elementar dos seis aos doze anos para as crianças de ambos os sexos, estas podiam ser dispensadas desde que residissem a mais de dois quilómetros de distância da escola, ou aquelas cujos pais não pudessem mandá-las «por motivo de extrema pobreza», ou que fossem «declaradas incapazes de receber ensino em três exames sucessivos. A porta estava assim aberta para que a obrigatoriedade do ensino não se cumprisse; aliás as crianças de mais de nove anos, que estivessem empregadas em trabalhos agrícolas ou industriais, podiam mesmo ser excepcionalmente dispensadas da frequência de uma das aulas. Não sentindo necessidade de recorrer a estas «facilidades», os pais de Salazar conseguem dar educação oficial a todos os seus cinco filhos dispensando-os da dureza dos trabalhos do campo.

Em 11 de Agosto de 1899 Salazar é levado até Viseu para efectuar o exame de

Instrução Primária completando o seu primeiro curso, o de 2º grau, com 10 anos de idade e com 14 valores de aproveitamento.

A mãe incitava-o a prosseguir nos estudos. O pai apoiava a ideia. A vida corria-lhes de boa feição. Tinham agora mais posses. Abundavam os hóspedes e comensais à casa na estrada, enquanto António Oliveira Feitor conseguia ganhar bom dinheiro como intermediário na venda de terrenos onde foi construído o bairro perto da estação de Santa Comba. Os negócios de iam caminhando bem. António Feitor anunciava nas folhas locais: «Venda de terrenos em boas condições. Vendem-se terrenos para edificações próximo da Estação da linha férrea em Santa Comba Dão. Para tratar, em casa de António de Oliveira Feitor, no Vimieiro».

Era o Bairro Novo que progredia, as ligações ferroviárias com Viseu e Coimbra atraíam comércio e moradores, os terrenos valorizavam-se e António Feitor, como intermediário, ganhava nas transacções. Ia aumentando o seu pecúlio e com menos sacrifício podia pagar as mesadas de António em Viseu.

Em 3 de Outubro de 1900, com 11 anos de idade, Salazar dá entrada no Seminário de Viseu, situado no antigo Convento dos Néris, onde com facilidade se destaca na atenção do director, José Frutuoso da Costa, monárquico e tradicionalista, que a ele se afeiçoa particularmente.

No ano lectivo de 1900-1901, concluiu a 1ª fase de Português e Latim com Distinção ao mesmo tempo que recebia aulas de Religião Católica e de Moral.

Em princípios de 1901 a vida religiosa é abalada com o chamado «Caso Calmon». Tudo acontecera quando pelas onze horas da manhã, de 17 de Fevereiro, à saída da missa na igreja da Trindade, no Porto, José Calmon, cônsul do Brasil, grita que lhe querem raptar a filha Rosa, de 32 anos, que queria entrar para um convento, contra a vontade dos pais. Esse episódio causou acesa polémica na imprensa da época, originando manifestações anti-clericais, que denunciavam a influência de elementos jesuítas, que teriam tentado forçar a jovem a recolher a um estabelecimento religioso, ao mesmo tempo que o pai, opondo-se, intentava interditá-la judicialmente.

Nada afectado com este caso, Salazar candidata-se em 19 de Março de 1901 à Congregação Mariana, na qual será admitido com 8 valores, contando apenas com ano e meio de seminário e 12 anos de idade. Ainda neste mês de Março, José de Sousa Gomes, professor de química inorgânica na Universidade de Coimbra, funda um centro académico que adoptará a designação de CADC (Centro Académico de Democracia Cristã). Com esta iniciativa, pretendem os meios católicos recuperar a iniciativa política no seio da juventude universitária, vivamente influenciada pelos ideais republicanos e anti-clericais.

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