GIRO DO HORIZONTE – PRESIDENCIAIS NOS EUA – por Pedro de Pezarat Correia

Já neste espaço assinalei, há uns bons meses atrás, a minha desilusão com o desempenho de Barack Obama enquanto presidente dos EUA. Desilusão, por ventura, mais por responsabilidade minha do que dele, porque eu nunca deveria ter alimentado ilusões demasiado optimistas. Um presidente é sempre produto de um establishment e é-o principalmente num país como os EUA, onde se cruzam interesses, lobbies, “caucus”, que atravessam indiferentemente os dois grandes partidos. Os interesses do complexo industrial-militar (como o baptizou Eisenhower, primeiro presidente norte-americano depois da II Guerra Mundial), ou dos fundamentalistas religiosos das igrejas metodistas, as pressões do lobby judaico ou dos “caucus” incluindo o afro-americano, ou dos grandes magnatas de Wall Street, fazem sentir-se tanto entre republicanos como entre democratas, que acabam por pouco se distinguir nomeadamente nas grandes opções de política externa ou de política de defesa e segurança. As linhas divisórias entre intervencionistas e isolacionistas, entre unilateralistas e multilateralistas, entre pombas e falcões (eixos distintos que não devem confundir-se), não separam partidários do elefante de partidários do burro uma vez que cortam transversalmente os dois universos partidários.

Mas apesar de tudo há diferenças, particularmente sensíveis nos sectores mais extremistas. Continuo convencido que um presidente democrata como Al Gore nunca teria seguido a sinistra política de um George W. Bush, e que o mundo estaria hoje melhor se em 1980 Carter tivesse sido reeleito e impedido a eleição do republicano ultraconservador Ronald Reagan. E foram os oito anos dos nefastos mandatos de W. Bush que mais alimentaram as minhas ilusões em Obama. Porque eu confiava que, seguramente, nunca seguiria a política de Bush nem se rodearia de homens como Donald Rumsfeld. E porque, apesar de tudo, num país onde os dirigentes políticos representam em geral famílias tradicionalistas e muito abastadas, perfilava-se um presidente que era oriundo – e como tal se assumia – de sectores sociais menos favorecidos, que tinha raízes familiares nas minorias e que se identificava com uma classe média de self-made men.

Desiludi-me com Barack Obama, não com a pessoa, que continua a despertar-me simpatia e a merecer-me credibilidade humana enquanto homem de carácter, bem intencionado, intelectualmente brilhante. Mas desiludi-me com o político mais poderoso do planeta que não foi capaz de resistir e impor-se às perversidades do sistema que herdara. Eu tinha apostado num seguidor de Nelson Mandela, mas Obama não tinha a estatura de Mandela, o mundo ainda não tinha amadurecido para o fim do sistema unipolar, e os EUA ainda não tinham tomado consciência que o império mundial se afundara no Iraque.

Mas a verdade é que, a uma semana de novas eleições nos EUA que interferem com toda a humanidade, essa desilusão não me torna alheio ou neutral. Ainda que com menos ilusões, não penso que seja indiferente, para os EUA e para o mundo, a manutenção de uma presidência Barack Obama ou o risco de uma presidência Mitt Romney, que já se prenuncia como uma reedição dos neo-conservadores da era W. Bush.

Por isso estou inquieto, na medida em que a luta está por definir. Vai ser uma semana de alguma ansiedade. Prefiro o desgosto de uma previsível desilusão renovada, do que a garantia de uma anunciada calamidade inevitável.

29 Outubro 2012

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