SÉCULOS DE CONQUISTAS NO LIXO – por Eduardo Galeano (entrevista conduzida por Paula Vilella (BBC) em Julho passado).

A crise europeia está  a  ser manipulada pelos líderes políticos através de um discurso que impõe sacrifícios apenas a uma parte da população.

 É igual ao discurso dos oficiais quando mandam morrer os recrutas, com   menos cheiro a pólvora, mas não menos violento. Trata-se de um plano   sistemático, a nível mundial, para pôr no lixo dois séculos de conquistas   operárias Para que a humanidade retroceda em nome da recuperação nacional. É  um mundo   organizado e especializado no extermínio do próximo. E, assim, começam a   condenar a violência do pobre, dos mortos de fome; a outra violência é aplaudida e  merece condecorações.

 A ‘austeridade’ está a ser apresentada como sendo a única saída?

Para quem? Se os   banqueiros que motivaram este desastre foram e continuam a ser os principais   assaltantes de bancos e são recompensados com milhões de euros que lhes são   pagos como indemnização… É um mundo muito   mentiroso e violento. O discurso da austeridade é velho na América   Latina. Estamos a assistir a uma peça de teatro que foi estreada aqui e que já vimos. Sabemos tudo: as   fórmulas, as receitas mágicas, o Fundo Monetário Internacional, o Banco   Mundial…

Acha que o empobrecimento da população está a ser mais violento?

Se a luta contra o   terrorismo fosse verdadeira e não um álibi para outros fins, teríamos que inundar o mundo de cartazes que diriam “procuram-se os sequestradores de   países, os exterminadores de salários, os assassinos do emprego, os   traficantes do medo”, que são os mais perigosos porque condenam os trabalhadores ao desemprego. Este é um mundo que nos   domestica para desconfiarmos do próximo, de modo a que ele seja uma ameaça e   nunca uma promessa. Como se ele fosse alguém que nos vai causar danos e, portanto, temos de nos defender. Assim se justifica a   indústria militar, nome poético da indústria criminosa. Esse é um exemplo   claríssimo de violência.

Passando à política latino-americana, o México continua nas ruas protestando   contra os resultados oficiais das eleições…

A diferença de votos   não foi tão grande e talvez seja difícil demonstrar que houve fraude. Há uma outra fraude mais profunda, mais fina e mais lesiva da democracia: a que   cometem os políticos quando prometem tudo ao contrário do que depois fazem  quando atigem o poder. Deste modo, estão a actuar contra a confiança das novas   gerações na democracia.

A respeito da   destituição de Fernando Lugo no Paraguai, pode-se falar de golpe de Estado se  a deposição se baseou nas leis do país?

O que houve no   Paraguai foi clara e plenamente um golpe de Estado. Derrubaram o governo do   ‘cura progre’ não pelo que ele havia feito, mas pelo que ele poderia vir a fazer. Não tinha feito grande   coisa, mas como se propunha levar a cabo uma reforma agrária, num país que tem o grau de   concentração de poder de terra mais alto em toda a América Latina, e por   consequência, a desigualdade mais injusta, tinha tido algumas atitudes de   dignidade nacional contra algumas empresas internacionais todo-poderosas como   a Monsanto e proibido a entrada de algumas sementes transgênicas… Foi um golpe de estado   preventivo, ‘para o caso de’, não pelo que era, mas por aquilo que poderia   vir a fazer.

 Surpreende-o que essas situações continuem a acontecer?

O mundo actual é muito   surpreendente. A maioria dos países   europeus, que pareciam estar vacinados contra os golpes de Estado, são agora   governados a dedo pelo Goldman & Sachs e outras empresas   financeiras que não foram eleitas por ninguém. Até na linguagem isso se   reflecte: os países, que se supõe ser soberanos e independentes, têm que   fazer bem seus deveres como se fossem crianças com tendência para o mau comportamento e   os professores são os tecnocratas que lhes poderão dar um puxão de orelhas.

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