A crise europeia está a ser manipulada pelos líderes políticos através de um discurso que impõe sacrifícios apenas a uma parte da população.
É igual ao discurso dos oficiais quando mandam morrer os recrutas, com menos cheiro a pólvora, mas não menos violento. Trata-se de um plano sistemático, a nível mundial, para pôr no lixo dois séculos de conquistas operárias Para que a humanidade retroceda em nome da recuperação nacional. É um mundo organizado e especializado no extermínio do próximo. E, assim, começam a condenar a violência do pobre, dos mortos de fome; a outra violência é aplaudida e merece condecorações.
A ‘austeridade’ está a ser apresentada como sendo a única saída?
Para quem? Se os banqueiros que motivaram este desastre foram e continuam a ser os principais assaltantes de bancos e são recompensados com milhões de euros que lhes são pagos como indemnização… É um mundo muito mentiroso e violento. O discurso da austeridade é velho na América Latina. Estamos a assistir a uma peça de teatro que foi estreada aqui e que já vimos. Sabemos tudo: as fórmulas, as receitas mágicas, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial…
Acha que o empobrecimento da população está a ser mais violento?
Se a luta contra o terrorismo fosse verdadeira e não um álibi para outros fins, teríamos que inundar o mundo de cartazes que diriam “procuram-se os sequestradores de países, os exterminadores de salários, os assassinos do emprego, os traficantes do medo”, que são os mais perigosos porque condenam os trabalhadores ao desemprego. Este é um mundo que nos domestica para desconfiarmos do próximo, de modo a que ele seja uma ameaça e nunca uma promessa. Como se ele fosse alguém que nos vai causar danos e, portanto, temos de nos defender. Assim se justifica a indústria militar, nome poético da indústria criminosa. Esse é um exemplo claríssimo de violência.
Passando à política latino-americana, o México continua nas ruas protestando contra os resultados oficiais das eleições…
A diferença de votos não foi tão grande e talvez seja difícil demonstrar que houve fraude. Há uma outra fraude mais profunda, mais fina e mais lesiva da democracia: a que cometem os políticos quando prometem tudo ao contrário do que depois fazem quando atigem o poder. Deste modo, estão a actuar contra a confiança das novas gerações na democracia.
A respeito da destituição de Fernando Lugo no Paraguai, pode-se falar de golpe de Estado se a deposição se baseou nas leis do país?
O que houve no Paraguai foi clara e plenamente um golpe de Estado. Derrubaram o governo do ‘cura progre’ não pelo que ele havia feito, mas pelo que ele poderia vir a fazer. Não tinha feito grande coisa, mas como se propunha levar a cabo uma reforma agrária, num país que tem o grau de concentração de poder de terra mais alto em toda a América Latina, e por consequência, a desigualdade mais injusta, tinha tido algumas atitudes de dignidade nacional contra algumas empresas internacionais todo-poderosas como a Monsanto e proibido a entrada de algumas sementes transgênicas… Foi um golpe de estado preventivo, ‘para o caso de’, não pelo que era, mas por aquilo que poderia vir a fazer.
Surpreende-o que essas situações continuem a acontecer?
O mundo actual é muito surpreendente. A maioria dos países europeus, que pareciam estar vacinados contra os golpes de Estado, são agora governados a dedo pelo Goldman & Sachs e outras empresas financeiras que não foram eleitas por ninguém. Até na linguagem isso se reflecte: os países, que se supõe ser soberanos e independentes, têm que fazer bem seus deveres como se fossem crianças com tendência para o mau comportamento e os professores são os tecnocratas que lhes poderão dar um puxão de orelhas.
