SONHAR UMA CIDADE – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 

 

 

 

– Aurélio, eu gostava de viver numa cidade à beira-mar. Não estou a falar da Capital, mas de uma outra cidade que está à minha espera. Cheia de altos e baixos, uma igreja em cada monte. Todas as semanas eu visito uma, Deus marcou-me encontro. Os meus filhos… Sim, porque nessa cidade eu tenho muitos filhos. Os meus filhos andam na pesca, em casa não falta o que comer. E quando há excesso de comida, em vez de irem ao mar, ficam mas é deitados nas redes do alpendre, a balançar. Todos têm o vício do balanço. Tenho um filho preto casado com uma preta. Tenho um filho branco casado com uma branca. Tenho um filho mulato casado com uma mulata. Mas também tenho um filho branco casado com uma preta, e uma filha preta casada com um branco. Tenho uma filha branca casada com um mulato e tenho um filho mulato casado com uma branca. Tenho uma filha preta casada com um mulato e tenho um filho mulato casado com uma preta. Tenho seis filhos e três filhas, tenho trinta netos de todas as cores, uns brancos, outros café com leite, mais leite menos café, menos leite mais café, outros cor do tição. Não sei o nome da cidade mas gostava de saber. Antes de morrer hei-de saber. Uma vez por ano, no dia de Sant’Ana, no dia da Santa Avó de Deus, levo os meus trinta netos à catedral que fica lá no alto. Todos de mãos dadas e muito comportados, até parece que os traquinas entendem que é coisa séria… Homens e mulheres de todas as cores vêm fazer uns tagatés nas trinta cabecinhas. Há muitas velas, anjos dourados que parecem voar. Depois um órgão começa a tocar e nós cantamos. Ficamos de bem conosco e com os outros. Acaba a festa e descemos a ladeira, algazarra muita. Paro em nove portas a entregar os meninos e as meninas aos seus pais. Recebo nove prendas, muitos beijos e abraços. Um colar de missangas, uma blusa de renda, uma saia com flores, um turbante muito branco, um xaile com ramagens, um pote com doce de coco, uma colcha de retalhos coloridos, uma bolsa com tabaco perfumado, e um livro sobre os cavalinhos brancos. Como aqueles que antigamente havia aqui no Condado. Peço e o meu neto mais velho lê o livro. Não acredito! É tudo má fantasia, não pode haver terra onde os homens usem freio na boca e sela nas costas e onde os cavalos corram sempre em liberdade… Olho para o mar e não acredito. Ainda bem que eu vivo, com os meus, naquela cidade onde gosto de viver.  Aurélio, tu és um menino muito viajado. Por acaso tu conheces o nome da cidade que sonhei?

In A COR DOS HOMENS

Ilustração – quadro de Vladimir Kush


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