A D. Quixote acaba de publicar o último livro de poemas de José Carlos de Vasconcelos, intitulado Os sete sentidos e outros lugares. Maria do Rosário Pedreira, responsável pela edição e, ela própria, poeta de reconhecido mérito, agradece a Patrícia Portela o seu “empenho na publicação deste livro”. Quem costumava ler regularmente o saudoso Jornal de Letras, Artes e Ideias, que JCV fundou e de que com tanto carinho cuidou durante tanto tempo, lembrar-se-á do alvoroço com que de cada vez se voltava para a última página do JL para se deter, com deleite, em mais uma crónica da talentosa novelista.
Desapareceu o JL! Quem me arranjará agora um “buraquinho” para a minha escrita breve sobre poesia? “Para ti e para … (o poeta ou a poeta que então me tivesse inspirado) há-de arranjar-se sempre um buraquinho” – era o que o director do JL costumava dizer-me. Claro que, para o que aqui escrevo sobre Os sete sentidos e outros lugares, a hombridade de JCV não lhe permitiria oferecer buraquinho algum no JL. Mas haveria “outros lugares”.
O JL tinha críticos severos. Havia quem o achasse muito fechado, antiquado, limitado a colaboradores regulares, anquilosado, ultrapassado, sem golpe de asa. Mas nenhum outro jornal ou suplemento literário fazia o que ele fazia. Ou o que JCV fazia. Porque JCV fazia quase tudo. Houve uma altura, não há muito tempo, em que Boaventura de Sousa Santos sugeriu a alguém da Universidade de Coimbra que o JCV, pelo seu trabalho de projecção internacional em prol da cultura portuguesa, merecia um doutoramento honoris causa. A ideia morreu logo à partida, com a imediata oposição de colegas da minha Faculdade de Letras. Ainda bem. Não tinha o Generalíssimo Franco recebido o doutoramento honoris causa pela Universidade de Coimbra em 1949?
Em Os sete sentidos e outros lugares, oferece JCV uma mão-cheia de poemas líricos, muitos deles do tempo da ditadura (talvez os “da gaveta”, como então se dizia). Os “sete sentidos” do próprio título do livro denunciam o lirismo da obra de um poeta que se diz, ele próprio, “lírico”, mas “não imbecil”, em poema intitulado “Tentativa de auto-retrato (favorável, claro)” (17). Num registo diferente, outro poema – “Na balança da vida” (44) – aconselha o poeta a encontrar o equilíbrio “entre a luta e a lira”, que é como quem diz entre “armas e glicínias” (20), entre o “dever” e o “alumbramento” (21) ou entre a “formiga” e a “cigarra” (28).
A poesia de JCV fala de JCV. O poema a que acabo de aludir – “Formiga e cigarra” – é dedicado ao ilustre banqueiro português, Artur Santos Silva, seu colega do curso de Direito na Universidade de Coimbra nos anos sessenta do século passado. Depois da licenciatura em Direito, o trabalho de JCV como advogado foi sobretudo defender presos políticos – escritores, artistas e jornalistas acusados de “abuso de liberdade de imprensa”. Disso é testemunho irrecusável “Sala de audiências” (20):
na sombria sala de audiências
aonde não chegam as vozes da rua
nem entra a radiosa luz do dia
a toga é-me pesada das ausências
dos que gritam a luta continua
desfraldam bandeiras erguem barricadas
cujas vozes mesmo amordaçadas
têm só o sol o vento como lei
e a liberdade é seu único mandamento
estou aqui fechado e estou lá fora
cito códigos artigos alíneas
estou aqui e estou nas barricadas
estou no meio de armas e glicínias
chegará a hora
Não é difícil imaginar que conversa entre os dois amigos terá suscitado, em “Formiga e cigarra”, a límpida “resposta” sobre a “língua” que se não recusa ou a “estrela” que se não almeja – porque a luta da palavra pela lei e pela poesia é a mesma:
outra sintaxe não busco
nem a estrela Sirius quero
e outra língua recuso
como outra linguagem
o obscuro sem mistério
a chegada sem viagem
porta com chave não serve
nem servindo serviria
o que procuro o que quero
flor de verde pino ou prado
vocábulo transfigurado
luz e labor rigor sem regra
alegria sexo da noite
amor respiração do dia
flor de verde pino ou prado
cantiga de amigo ou escárnio
outra sintaxe não busco
nem a estrada de Sirius quero
quero sim essa coisa rara
de trabalhar como a formiga
e de cantar como a cigarra
Falar-de-si-poeta é o epítome do lirismo – saber dizer, de preferência com humor, a lisura que dever ser a de “qualquer poeta” (17). Os sete sentidos e outros lugares é um livro “sobre” poesia, para poetas e com poetas dentro. O poeta do livro sabe bem do seu ofício. A língua que se reinventa em cada verso, a rima que parece surgir como que por acaso, a forma que não constrange. O soneto, por exemplo. “Soneto aos 66 anos” (26), o da “sexta capicua”, celebra gostosamente a passagem dos anos de alguém que “caminha sem medo para o crepúsculo”, decerto porque é “a vida”, a sua “droga” (34):
Voo. Sem álcool,
fumo, cocaína.
A minha droga,
fantástica droga,
é a vida.
Como no fado:
é crime ou pecado?
Causa habituação?
Umas vezes sim,
outras vezes não.
Por mim,
estou apanhado.
O soneto da capicua é petrarquiano, tal como “Caldo-verde” (35), “O prazer da mão e do cursivo” (75), dedicado à amiga, colaboradora e muito admirada autora, Lídia Jorge, e “Lausanne, Hotel Beau-Rivage” (140). Mas há também, dedicado a um outro colaborador de longa data, o filósofo da Universidade de Brown, Onésimo Teotónio de Almeida, um belo soneto shakespeariano, intitulado “Pátria” (32). E há ainda poemas, de 13, 14 ou 15 versos, a piscar o olho à forma do soneto, a que Ana Luísa Amaral, outra presença frequenta no JL, chamaria “quase sonetos”. Falo de “Sala de audiências” (20) e “Alumbramento e dever” (21). Ou mesmo dos 15 versos de “O peso dos sentidos” (36), alinhados em 4 tercetos explanando o tema do bem-estar até à típica conclusão num quinto terceto: “ah como é bom sentir o peso dos sentidos/ler o jornal a tomar café/ estar ao paleio com os amigos”.
A poesia escreve-se na poesia. Não é por acaso que muitos dos poemas de Os sete sentidos e outros lugares dialogam com poetas: Éluard (30), Gonçalo M. Tavares (68), Lídia Jorge (75), Helder Macedo (83), José Manuel Mendes (124), Nélia Piñon (134), Manuel Alegre (136). Nem é por acaso que um poema dedicado a Pilar del Rio (Saramago) (109) insista que “a rosa não se repete”. Pois não disse Gertrude Stein em “Sacred Emily”, provocatoriamente, que “uma rosa é uma rosa é uma rosa”?