SALAZAR E A I REPÚBLICA – 6 – por José BRANDÃO

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Em 1907 é reprovado em Coimbra o candidato a doutoramento em direito, José Eugénio Dias Ferreira, filho de José Dias Ferreira, que se declarava republicano e dedicara a tese a Teófilo Braga, originando protestos da Academia, sendo vaiados os lentes do júri e apedrejadas as suas casas. A greve universitária é decretada em Março. O governo encerra a Universidade e declara responsáveis pela desordem académica os estudantes republicanos. A duração da greve e as suas implicações dividem os estudantes. A 23 de Maio, o Governo reabre a Universidade para exames. Dos 1049 estudantes, requerem exame 866, mas um decreto vem a permitir a passagem de ano dos restantes.

Em Abril, incapaz de governar com os instrumentos do parlamentarismo, João Franco recorre à repressão e à ditadura. Encerradas as Cortes, remodela o governo a 2 de Maio, afastando os ministros do Partido Progressista. Os protestos contra a instauração da ditadura foram imediatos e estenderam-se à imprensa, aos deputados e pares do reino, ao Conselho de Estado, às Câmaras Municipais, à Associação Comercial de Lisboa, etc.

D. Carlos escrevia ao chefe do governo João Franco e incitava-o: «seja como for e suceda o que suceder, temos que caminhar para diante, ainda que a luta seja rude e áspera (e espero-a) porque aqui mais do que nunca, parar é morrer, e eu não quero morrer assim… nem tu!»

«Sem luta não há prazer em vencer, e a vitória sem combate, e combate sério, nunca é uma vitória duradoura», declarava o monarca.

A 1 Junho, no seminário, Salazar é eleito presidente da Congregação Mariana. Tem 18 anos.

Depois das férias passadas no Vimieiro regressou Salazar a Viseu para o terceiro e último ano lectivo de Teologia. O seu nome excedia já o âmbito do seminário contando entre os amigos, alunos do liceu. Tornou-se visita do Colégio da Via Sacra.

Foi durante este último ano lectivo de estudo de teologia, em 1908, que tomou contacto com a agitação que reinava no país e se fazia sentir em Viseu. Surgiam artigos atacando as Instituições, o Trono e a Religião. Como era de esperar, ao seminarista Salazar não eram indiferentes estes acontecimentos que lhe atiçavam a necessidade de passar à acção.

A oposição ao governo de João Franco crescia, abarcando não apenas os republicanos, organizados sobretudo na Maçonaria e na Carbonária, mas também muitos elementos dos partidos do rotativismo e mesmo alguns elementos do Palácio. Intensificaram-se as tentativas de aliciamento de unidades militares, ao mesmo tempo que os conspiradores civis fabricavam bombas artesanais (a que chamavam a «artilharia civil»).

A 21 de Janeiro, o rei D. Carlos segue para Vila Viçosa e, nessa noite, foram presos os dirigentes republicanos França Borges, director de O Mundo, e João Chagas e, no dia seguinte, António José de Almeida e Luz de Almeida, o Grão-Mestre da Carbonária. Decapitada a tentativa revolucionária prevista para 28 de Janeiro de 1908, Afonso Costa tomou a sua direcção, com o dissidente José Maria de Alpoim, o visconde da Ribeira Brava e Egas Moniz. Planeiam tomar a Câmara Municipal, de onde proclamariam a República, enquanto grupos de civis armados entrariam nos quartéis e barcos para obterem a adesão das unidades militares e outros assaltariam a casa de João Franco. Na tarde de 28 de Janeiro, dia da denominada «intentona do elevador da biblioteca», verificou-se que o Chefe do Governo, afinal, não estava em casa e a confusão instalou-se entre os conspiradores, levando a que a polícia detectasse as suas movimentações e o governo lançasse uma vasta operação contra os implicados, detendo mais de 120 pessoas: Afonso Costa, de cara rapada, foi capturado pela polícia, acontecendo o mesmo ao visconde da Ribeira Brava, a Egas Moniz e a Álvaro Poppe; José de Alpoim refugia-se em casa de Teixeira de Sousa, fugindo depois para Espanha, tal como os viscondes de Pedralva e do Ameal, contra os quais foi igualmente emitido mandato de captura. Registam-se ainda incidentes violentos entre polícia e conspiradores civis. O governo intensificou a repressão, aprovando o decreto que previa a expulsão do País ou a deportação para as colónias, «quando os interesses superiores do Estado assim o aconselharem», de todos os implicados em conspirações ou delitos contra a segurança do mesmo Estado.

Em 1 de Fevereiro eram assassinados no Terreiro do Paço, o rei D. Carlos e seu filho príncipe D. Luís Filipe. Não ficando alheio a estes factos, Salazar começou a insurgir-se contra os republicanos em defesa da igreja argumentando que: «a religião não é incompatível com forma alguma de governo… está muito superior à política, paira noutras regiões mais altas, embora haja de informar e dirigir os actos da política… não se concebendo que alguém possa ser católico na Igreja e ateu junto à urna».

O regicídio acontecia na sequência de um ambiente de desagrado que alastrava visivelmente por todo o lado e que se fazia adivinhar a todo o instante. Os seus executores obedecem a um plano sobre o qual há poucas certezas mas que os deixa bem identificados como carrascos do acto que atinge mortalmente a monarquia portuguesa.

A consumação do regicídio foi um feito descaradamente público enquanto perpetuado por homens a cara descoberta. Porém, nunca suficientemente esclarecido ao ponto de se saber muito mais do que aquilo que todos viram no Terreiro de Paço.

Manuel José dos Reis da Silva Buíça, de 32 anos, transmontano natural de Bouçais, professor num colégio privado, antigo sargento do Exército medalhado como atirador de 1ª classe e Alfredo Luís da Costa, de 23 anos, alentejano natural de Casével, caixeiro, antigo empregado dos Grandes Armazéns do Chiado, são executores que desaparecem tão rápido como tinham aparecido.

Falou-se sempre de outros cúmplices que, inclusive, estiveram envolvidos directamente no atentado do Terreiro do Paço.

Um grupo de que faziam parte além de Buíça e Costa, um tal José Nunes e outros, teria reunido numa quinta nos Olivais, e ali, na madrugada de 1 de Fevereiro, combinam o plano que os encaminha desde cedo para o local onde tudo irá acontecer.

Salazar 1928

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