UMA OUTRA NUVEM NEGRA, A OITAVA, PAIRA ENTRE WASHINGTON E PEQUIM E SOBRE TODO O MUNDO TAMBÉM

Selecção, tradução e nota de leitura por Júlio Marques Mota

2.Precisamos de deixar de acusar  a China e comecemos a discutir  o défice  comercial

(conclusão)

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A outra parte da história é realmente o facto de que não temos outra escolha senão a de ver o dólar cair, especialmente para aqueles ferozes falcões do défice que querem ver os Estados Unidos a equilibrarem o seu Orçamento.

Trata-se de uma identidade contabilística, de uma igualdade contabilística em que o excedente comercial é igual à soma da poupança líquida pública e privada nacional.

Por outras palavras temos.

(X-M) =  (Rp-Dp) + ( Spr – Ipr)

Onde X representa o valor das exportações de bens e serviços, M, o valor das importações em bens e serviços,  (X-M) a balança corrente ou ainda a posição liquida do país face ao exterior, Rp são as receitas públicas, Dp as despesas públicas,   (Rp-Dp), a posição ou poupança líquida do Estado, Spr a poupança privada, Ipr o investimento privado, ( Spr – Ipr) a situação líquida ou poupança líquida privada e  (Rp-Dp) + ( Spr – Ipr) representa a situação líquida do país, pública e privada, portanto.  Logicamente esta poupança líquida do país  é, por definição contabilística, a posição liquida do país face ao exterior. Podemos ver ainda esta relação de uma forma ligeiramente diferente. Repare-se que a posição liquida do Estado,  (Rp-Dp) , significa o que lhe ficou depois de deduzidas às receitas  todas as seus despesas, investimentos públicos inclusive, significa o que não gastou ( se positivo) e o que gastou a mais do que o que dispunha como receitas ( se negativa a diferença), significa a lembrar um alto funcionário dos anos sessenta e “pai” dos programas de ajustamento estruturais, Sidney Alexander, o entesouramento, se positiva a diferença, ou o desentesouramento, se negativa a diferença. Da mesma forma,  (Spr – Ipr) representa o que resta das poupanças privadas depois de  deduzido o que os privados investiram, significa o que das poupanças privadas não foi gasto, significa então o entesouramento privado (se positiva a diferença) ou  desentesouramento privado, se negativa a diferença, para de novo utilizarmos a terminologia do FMI dos anos sessenta.

Isto significa que  se temos um défice comercial, se X é  menor que M, a poupança nacional líquida, soma da poupança líquida privada e pública,   é negativa. Como é evidente, se gastarmos a mais do que o que se produziu a nível nacional, estamos perante uma situação de desentesouramento,  então esse gasto  “ a mais” que se gastou só pode ter vindo do exterior, a quem se fica a dever, e com a soma  [(Rp-Dp) + ( Spr – Ipr)] negativa  vem então (X-M) negativa, ou seja,  estamos com a balança comercial negativa, deficitária.]

 Não há nenhuma maneira de contornar esta realidade. Os falcões do défice  podem não gostar disto, da mesma forma que não podem  gostar que 2 mais 2 sejam igual  4, mas não há aqui nada que eles possam mudar .

Dito de uma outra forma talvez ainda mais simples: se estamos perante  uma poupança nacional negativa, então ou temos um défice orçamental (poupança pública negativa) ou poupança privada negativa ou então  temos uma combinação das duas . No momento, temos um grande défice  orçamental  que corresponde ao nosso défice comercial. Como é que nós podemos ter  então uma  poupança privada negativa?

[Admitamos agora que face a uma situação de enorme défice comercial constatado se consegue ter um orçamento público equilibrado, ou seja, em que [(Rp-Dp) é igual a zero. O défice comercial descomunal  negativo verificado,  o desentesouramento então uma vez que é negativo,  teria agora como contrapartida naquela igualdade contabilística, um valor descomunal negativo dado por ( Spr – Ipr) mas isto exigia então face à poupança que tivesse havido um investimento descomunal privado]. Num mundo ideal, poderíamos ver o investimento privado a crescer de tal modo que furava até o próprio telhado fazendo crescer o nosso capital colectivamente  a um ritmo recorde e a contrapartida da verificação dessa hipótese seria então um défice comercial enorme. Mas isto não nos vai acontecer. A parte do investimento não-residencial relativamente ao PIB tem oscilado numa banda bem estreita  durante o período  do pós-guerra e portanto não haverá uma poupança líquida negativa capaz de furar o telhado, os limites nacionais, digamos. Se os falcões do défice nos  dizem  que eles têm algum elixir que faz, de repente, crescer o investimento ao ponto de nos furar o telhado, então eles têm andado a fumar qualquer coisa que provoca alucinações . Isso não vai acontecer.

A única maneira que conhecemos para se ter uma poupança privada negativa é uma bolha imobiliária. Isso pode levar ao aumento da construção para habitação, enquanto a bolha de capital gerado irá fazer com que o consumo cresça e a poupança das famílias decresça. O que seria então uma grande ideia! Foi o que aconteceu e em que esta situação a levar à crise foi alimentada pela compra de activos pela China e de outros países igualmente, como bem se sabe, hoje. O resultado imediato está à vista e as consequências  outras quanto á posse de dívida pelo exterior ainda estão por conhecer e pela simples razão de que ainda estão para vir.

Ok, se queremos ter uma situação que esteja perto de um orçamento equilibrado sem uma bolha a determinar o comportamento da nossa  economia, isto é, se queremos então  que ( Spr – Ipr) seja de equilíbrio  e igual a zero  e se queremos também um orçamento equilibrado, ou seja [(Rp-Dp) também igual a zero, a relação  (X-M) =  (Rp-Dp) + ( Spr – Ipr)  impõe então que X-M seja igualmente igual a zero. Os falcões do défice têm então de perceber de uma vez por todas que isso impõe a balança comercial igual a zero. Mais cruamente impõe-se que temos de fazer com que o dólar desça para assim se tentar equilibrar a nossa balança comercial. Esta não é uma questão de opção política ou um ponto discutível. É uma simples questão de lógica. Se discordar, pense  um pouco  mais sobre isto  e  irá compreender  porque é que  não há nenhuma escolha, nenhuma outra saída.

Então e  por todos os meios  vamos parar de estar a criticar a China . E vamos começar a falar seriamente sobre a forma  e os meios para fazer descer o nível do dólar até que este seja consistente com a existência de comércio externo  mais equilibrado.

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