O PATO ALGEMADO – IX – por Sérgio Madeira

O estranho caso do pastor alemão – O post it amarelo e João Paralelo de Sousa  – por Sérgio Madeira

Ora bem, pensou Filipe, o senhor Lobo, dono da pastelaria Alsácia – o Lobo da Alsácia, como era conhecido, fora envenenado. Fora ele que tentara que, seu cunhado, Emanuel de Sousa Figueira, que tinha uma fundação que protegia as artes por via dos benefícios fiscais, patrocinasse a edição de Como falar com Deus em vinte lições, a obra do pastor alemão Franz Boagren. traduzida por um tal João Paralelo de Sousa, do qual a polícia não encontrava rasto.  Sousa Figueira fora encontrado uma manhã, na biblioteca da sua casa de Pero Pinheiro com a garganta rasgada e à criada que o encontrara conseguira dizer: – Pastor… alemão. O velho Aristóteles, um pastor alemão que guardara a casa e que, velho, mal saía da sua casota, fora o primeiro suspeito. Mas o médico legista logo o ilibara – o golpe fora feito por um objecto cortante e não pelos dentes do cão.

Filipe recordava tudo isto, evitando pensar na cena de Darmstadt, com o pastor alemão, Franz Boagren a rir-se do caricato inglês com que  Filipe lhe tentava colocar dúvidas e perguntas. Ia neste ponto quando o inspector Pais lhe telefonou a pedir para ir ter com urgência ao café do costume, na Avenida Duque de Loulé. Filipe Tomou o metro na Baixa-Chiado, mudou no Marquês e saiu no Saldanha, percorrendo a pé o caminho até ao café.

O Pais estava nervoso. O pires com a meia-dúzia de pastéis de bacalhau, estava quase vazio.

– Você nem calcula o que aconteceu.

Filipe tentou acalmá-lo.

– Vá lá. As coisas nem sempre são o que parecem.

O Pais deu um grito que suspendeu todas as conversas no interior do café:

– Você não me venha com o Palim sexto…

-Palimpsesto . corrigiu o Filipe.

– Foi o que eu disse. Não me venha com essas merdas. Dass! – serenou e baixou o tom de voz.

– Encontrámos o Paralelo de Sousa!

Filipe não percebeu porque era isso tão excitante:

– E então?

– Então? Metemos-lhe o post it do comendador à frente dos olhos…

– O post it? Que post it?

– Ah pois. Você não sabe. Também não precisa de saber tudo…

-….?

_ No dossiê que o Lobo da Alsácia enviou ao comendador, o Sousa Figueira colocou um post it que dizia – «isto não foi traduzido do alemão, mas sim do espanhol. Este Paralelo de Sousa é um trafulha».

– Não vejo que interesse isso tenha.

– Não vê? Pois, não vê porque não sabe tudo…

– O quê? O que é não sei?

– Sabe como é que o Paralelo se chama?

– Não.

– Martinho Lourenço.

– E?

O Pais criou suspense. Mordeu um pastel de bacalhau:

– Mora em Sobral de Montagraço…

– E? – Filipe mantinha um ar indiferente.

O Pais fez um sorriso manhoso:

– É conhecido na vila como…

– Como quê?

– Como o pastor alemão.

Filipe abriu a boca de espanto.

O Pais, triunfante disse, mastigando o pastel:

– Agora pergunte ao Palim da  Brabilónia ou ao australiano dos gansos como é que eu soube tudo isto.

A seguir – o pastor alemão de Sobral de Montaagraço

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