Este comboio de algarismos com várias carruagens de zeros à direita é, quando transformado em dólares, o que os dois candidatos presidenciais norte-americanos, Barack Obama e Mitt Romney, gastam na campanha para alugarem a Casa Branca por quatro anos.
Em boa verdade, parece que não é tudo. Muitas fontes garantem que há contribuições por baixo da mesa, syndicates mais ou menos clandestinos que se formam ad hoc entre cavalheiros da finança, senhores da banca e da indústria, novos e velhos ricos que tratando de acautelar os seus privilégios apostam não apenas num mas nos dois candidatos. Em qualquer lado esta prática seria qualificada através da feia expressão “tráfico de influências”, mas estou a falar-vos dos Estados Unidos da América, onde as fronteiras entre a licitude e a ilicitude são tão voláteis quanto os mecanismos da justiça, tratando-se do que se trata e sabendo-se que, lá bem no fim da linha, estão sempre os segredos do patriotismo e a segurança nacional – que servem para tudo, como se sabe, e não apenas dentro do país.
Mas façamos de conta que aqueles quatro mil e quatrocentos milhões de dólares são os resultados das quermesses presidenciais para alimentar o circo de balões, chapelinhos, bandeirinhas, confettis, cheerleaders (ou será que isto é no basquete e no futebol americano?) a que chamam campanha política e que ao fim e ao cabo se resume a alguns diálogos de monólogos para alimentar as audiências da TV, designados debates e nos quais nada se debate e tudo se diz sabendo-se que não é para cumprir.
Poderia escrever que estes quatro mil e quatrocentos milhões de dólares talvez fossem úteis se aplicados na criação de emprego, no desenvolvimento do ensino e saúde públicas, no combate à pobreza, às desigualdades, na construção de abrigos para os sem abrigo. Seria um disparate. Jamais esse dinheiro se destinaria a tais fins, que estão sempre nos programas políticos porque assim manda a tradição, assim recomendam os pregadores e nem sequer funcionam já na caça ao voto porque eleitor que se preze há muito que não perde tempo com promessas virtuais.
Digamos que esta grossa maquia resulta de investimentos múltiplos que pouco têm a ver com escolhas políticas ou até mesmo com escolhas. A política norte-americana transformou-se há muito, sobretudo em regime neoliberal, num sistema de partido único, o dos republicratas, com duas tendências internas funcionando ao sabor de lobbies legais e outros nem tanto em que só os meios poderão variar para atingir os mesmos fins – ao serviço do império.
Ora o interesse do império não é o dos cidadãos, é a resultante da soma dos interesses que governam a América – e o mundo – sejam financeiros, sejam económicos, sejam principalmente militares sabendo nós que eles se misturam, juntam e divorciam dentro da grande família dos grupos, a maioria transnacionais.
O presidente dos Estados Unidos da América, chame-se ele X ou Y, é o presidente dos Estados Unidos da América, desculpem-me a redundância, que não o é. O presidente dos Estados Unidos da América é o topo de um sistema de dominação em que as suas capacidades de decisão são efetivamente condicionadas pelos mecanismos que melhor garantam a vigência desta dominação. Uns podem governar assim, outros assado, uns fazem gala no género trauliteiro tipo saloon de faroeste, outros cultivam o ar polido mais tipo costa leste, no fundo é uma questão de estilo, duas faces da mesma moeda. Uns gostam de fazer a guerra como pistoleiros assanhados, outros também a fazem mas tentam trabalhá-la com requinte, insidiosa, com eficácia e sem tanta chafurdice de sangue, mais silêncio e menos paleio barato, tão mentiroso um como outro. Romney poderá ser BushIII; Obama não resolveu guerras, criou-as através de interpostos artifícios e, entretanto, sendo Nobel da Paz é também o presidente que ordenou maior número de execuções extrajudiciais nos tempos recentes.
Esta é a escolha da América para o governo global. Escolha cara em tempo de crise, para tal não seria preciso tanto dinheiro como 4 400 000 000 dólares.
