Com os nossos cumprimentos e a devida vénia ao Domingos Freitas do Amaral, reproduzimos em A Viagem dos Argonautas este texto, que sintetiza de forma notável a maneira como o governo Passos/Portas usa e abusa do memorando da troika. Este memorando, só por si, já servia para nos obrigar, a nós, a grande maioria dos portugueses, a pagar pelos desmandos cometidos por governantes, banqueiros, grupos económicos e outros elementos que integram a oligarquia que nos governa. Sobre os autores desses desmandos pouco se ouve falar. Eles andam por aí, e alguns até pretendem fazer-se passar por vítimas. E o governo Passos/Portas primeiro afirmou pretender ir mais longe do que um documento, já por si muito contestável, e feito em moldes que de modo nenhum correspondem aos interesses dos portugueses e de Portugal, e em seguida utiliza-o como alibi para fomentar ainda mais a concentração de riqueza e atacar os direitos das classes médias e baixas. Os nossos agradecimentos ao Domingos Freitas do Amaral e ao seu excelente blogue, O Diário de Domingos Amaral.
DOMINGOS FREITAS DO AMARAL (jornalista e escritor)
Já leram o memorando da troika?
Só me lembro da célebre frase de Luís Filipe Scolari: “e o burro sou eu?”
(http://www.portugal.gov.pt/media/371372/mou_pt_20110517.pdf).


“Se os objectivos não forem cumpridos ou for expectável o seu não cumprimento, serão adoptadas
medidas adicionais.” Parágrafo 4º do Memorando. Os objectivos são as metas do défice, não as medidas enunciadas para o atingir. Acredito que tenha lido o memorando, mas pelos vistos não entendeu.
Curiosa perspectiva essa de que não havia nada a falar de redução de pensões.
Apesar de o memorando ser muito detalhado não podia obviamente entrar em questões de micro management.
Havia sim números claros de redução de despesa. Havia metas de deficit que reforçam ainda mais esta necessidade.
Assim, faltava saber onde. E é precisamente isso que o governo tem feito. Está confrontado com um objectivo e precisa de implementar as medidas para o fazer.
Dizer que não está no memorando a redução aos pensionistas é o mesmo que dizer que se fosse aplicado literalmente não havia nenhuma medida concreta a ser tomada.
É obviamente uma leitura abusiva e consideravelmente demagógica do plano da Troika.
Só quem nunca esteve envolvido num processo de decisão em que tem de chegar a um objectivo escolhendo as medidas para la chegar é que pode ter uma visão tão literal das coisas.
O problema é que esta visão corresponde sempre a uma intenção – evitar que as coisas sejam feitas. Seja por uma interpretação estrita do que está escrito seja pela constante descoberta de “contradições” e impedimentos.
É aliás uma maneira muito Portuguesa de resolver (ou não resolver) coisa nenhuma.
Mas a realidade é duríssima. O país simplesmente não tem dinheiro e precisa de crádio para se sustentar. Hoje quem nos empresta é Troika. Um dia destes serão os “mercados”. Querem voltar ao mesmo horror dentro de 4 ou 5 anos em nome dos direitos adquiridos e da “sensibilidade”?
Querem por-se a fazer leituras estritas de documentos generalistas para evitar encarar o problema de frente?
É muito mais difícil decidir do que parece. O acto de decidir exige coragem. Porque às vezes aluém sofre consequências. Não há muita gente que o consiga fazer e muito menos em alturas de grande crise. A maior parte das pessoas preferem ser “boazinhas” e não tomar decisões difíceis. Seguro é um exemplo de plasticina. Não tem forma, não tem opinião, não tem coragem, não tem substância.
Mas ele faria exactamente as mesmas coisas. Apenas porque nãohá dinheiro para “brincar” aos direitos e aos princípios.
A excepção confirma a regra e a inteligência não se herda. O único comentário possível a um artigo tão básico é: O memorando da Troika, fixa acima de tudo objectivos, metas e aponta algumas reformas estruturais. Para além disso, aconselha que as metas sejam atingidas de preferência com base numa regra: cortes de 2/3 na despesa e aumento de 1/3 na receita.
Tendo por base estas premissas o caminho é escolhido pelo governo em funções, mas sejam honestos, para cortar 2/3 na despesa por muitas voltas que se dê, redução de institutos, empresas públicas, fundações, etc… é necessário despedir Portugueses e nunca menos de 100.000. Estamos prontos a aceitar isto? Eu estou, mas escrevam com honestidade e objectividade e parem de atirar areia e desinformar os Portugueses
Está pronto a despedir (outros) ou a ser despedido?
Pedro Moutinho, os seus comentários são bem vindos, mas não volte a empregar expressões como “… a inteligência não se herda”, nem semelhantes, que neste blogue não têm lugar. As opiniões são todas aceites aqui, desde que proferidas com o devido respeito pelos outros. Considerámos o artigo do Domingos Amaral interessante por a opinião subjacente nos parecer provir de alguém que parece concordar com a assinatura do acordo com a troika (ao contrário do signatário, que é contra), mas que opina que o governo Passos/Portas/Gaspar errou ao pretender ir mais longe que esse acordo, intenção esta aliás anunciada várias vezes. Sobre este assunto cada um terá as suas opiniões. As opções seguidas pelo governo não levaram manifestamente a um bom resultado. Mas o Pedro Moutinho pensa o contrário. Aceita que, por muitas voltas que se dê, tem de se despedir 100 000 portugueses. Mas deixe-me que lhe diga ainda que há boas razões para não o fazer, e que defender essas razões não constitui de modo nenhum desinformação, nem atirar areia, nem nada falho “de honestidade e objectividade”.