REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930.

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

A zona euro acabou ! Para quando o fim do euro?  (porque é que a ruptura da zona monetária já se deu !)  Excertos de Jean Luc Gréau no blog Le causeur.

Enviado por  Manifeste pour un Débat sur le libre échange, por Forum Démocratique

“A moeda única é irreversível, disse François Hollande, retomando as  palavras de Mario Draghi. De facto, enquanto as poupanças da classe média migram do Sul para o Norte e  os bancos  do norte saem dos países do Sul, a União Monetária já acabou, e por isto  mesmo.

JEAN-LUC GRÉAU

INCRÍVEL, mas é verdade: ainda há economistas dispostos a anunciarem dias felizes para a Europa de amanhã. O velho continente, dizem-nos eles, não tardará em recuperar o seu vigor e a sua prosperidade, garantindo assim finalmente a realização das promessas da Agenda de Lisboa de 2000, segundo a qual a Europa seria em 2010 a região exemplar para o resto do mundo pela sua prosperidade, pelo seu nível de ensino e formação, pela sua capacidade de inovação.

No entanto, este optimismo de  rigor no cenáculo  liberal ainda não contaminou  a direcção do Banco Central, em Frankfurt. Um dos seus membros, Jörg Asmussen,  enunciou assim  os termos do dilema que os dirigentes do BCE têm nos braços: “os mercados fazem  a aposta na desintegração da área. Um tal risco sistémico é dramático e, para o Banco Central, é inaceitável.” Mais claramente, o BCE tem muito pouca escolha: ou o Banco inicia uma política de compra maciça da dívida pública dos países em perigo, em contradição violenta com os seus estatutos e em oposição a vontade dos país  mais poderoso  da zona euro  ou então  deixa rebentar a zona   monetária sob a sua jurisdição [1].

O segundo elemento, mais discreto, é o facto de que os novos empréstimos emitidos para financiar as dívidas soberanas  serão apenas subscritos pelo banco central do país em questão, espanhol, português, italiano (mas também francês).  Esta “renacionalização” das  dívidas  públicas é involuntária.   Esta explica-se pelo facto de os bancos  pretendem na verdade escapar aos  imbróglios das finanças públicas dos  outros Estados que não seja o seu, ao mesmo tempo que apostam que o seu respectivo  Tesouro   Público  (ainda financiado pelos seus   cuidados  com o dinheiro de antemão recebido aos   balcões do Banco Central Europeu) permanecerá solvente,  à custa de  drásticas políticas de ajustamento orçamentais.

No entanto, a desagregação da União Monetária  é  de facto  ainda melhor ilustrada  novamente por dois outros factores que os media  não reflectem ou dele falam muitíssimo pouco. ………

Deste ponto de vista,  dois grandes  países concentram a nossa atenção : a Itália e a Espanha.

No primeiro, os bancos são, na sua  maior parte, vítimas da recessão. A produção italiana é hoje de cerca de  8 por cento menos do que  no primeiro trimestre de 2008. E ela tem estado a continuar a caír  apesar – ou por causa  – dos esforços do capitão do navio, Mario Monti, antigo Comissário Europeu, antigo Conselheiro da Goldman Sachs e Presidente da Universidade Bocconi, em Milão, que  está para a doutrina liberal como o estava a Escola dos quadros do Partido Comunista para a doutrina   marxista-leninista. A recessão prejudica as contas de um Estado que já era um dos mais endividados da Europa na véspera da crise económica. Esta atinge, por um efeito colateral, o crédito dos bancos italianos. Como os italianos não vêem o fim ao impasse económico e financeiro transalpino [2], eles estão cada vez mais a temer uma situação de incumprimento dos seus bancos.

No entanto, é a Espanha que é afectada pelo movimento mais maciço de “saída”, para usar o termo em calão que no ramo se utiliza. Os números foram publicados em 29 de Agosto: somente durante o mês de Junho, 54 mil milhões de euros foram retirados pelos depositantes, um  aumento de 40% relativamente ao mês de Maio, marcado pela retumbante   falência do  Bankia. No total, de acordo com o Banco de Espanha,  serão já  220 mil milhões de euros que desapareceram das contas dos bancos locais ao longo do primeiro semestre de 2012 – e 220 mil milhões  de euros representa um quinto do valor do PIB espanhol.

Para complicar ainda mais a situação dos chamados países do Sul, eis que nos dizem que os bancos franceses e alemães estão a retirar-se de Espanha. Expostos, respectivamente, em quase 500 mil milhões e quase 250 mil milhões de euros de empréstimos ao sector público e ao sector privado grego, cipriota, italiano, espanhol e português, estes bancos decidiram não conceder novos empréstimos. No entanto, a sua esperança é a de não sofrerem pesadas perdas nos empréstimos já feitos [3]. Qualquer pessoa sensata compreenderá intuitivamente que assim se está a contribuir para a espiral recessiva que afecta os países do Sul. Entre as dificuldades ou a falência de bancos locais e a retirada estratégica dos bancos franceses e alemães, os nossos vizinhos do sul têm muito poucas ilusões, se é que têm ainda algumas, de regressarem em breve à situação de prosperidade.

Quanto tempo ainda irá o euro sobreviver a ruptura da zona euro [4] ?

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[1]. Ela escolheu a primeira opção na altura  da sua reunião de 6 de Setembro, abrindo assim um novo capítulo na odisseia da moeda única.

[2] . à excepção de  Mario Monti que viu, como muitos outros antes dele, “o fim do túnel”.

[3].  Isso não deve manchar a sólida reputação de lucidez e de competência  dos nossos banqueiros.

[4] François Hollande assumiu  na  Conferência de embaixadores a expressão  final de Mario Draghi:  “o euro é irreversível”.

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