CARTA DE VENEZA – 32 – por Sílvio Castro

–  “300 Anos de Francesco Guardi: Exposição no Museu Correr de Veneza”

 

A grande retrospectiva das obras de Francesco Guardi (1712-1793) pelo terceiro centenário de nascimento do pintor – Museu Correr de Veneza, de 29 de setembro de 2012 a 6 de janeiro de 2013) – se apresenta como um dos grandes eventos artísticos do presente outono veneziano.

Guardi, pelos episódios marcantes de sua vida, inicialmente se mostrava como um artista menor na pintura setecentista vêneta. Tendo vivido sempre à margem da grande produção artística naquele Setecentos dominado em particular pela pintura de Canaletto, Francesco Guardi vive experiências sem repercussões maiores, confinado inicialmente nos limites da botega paterna e depois distante das grandes comissões particulares e públicas centralizadas pela pintura de um Canaletto. A Guardi restava somente procurar sobreviver materialmente vendendo, como um artista ambulante da Praça de São Marcos, suas pequenas peças a eventuais compradores, principalmente os turistas que estão começavam a frequentar Veneza com grande assiduidade. A imagem do pintor em meio aos patrícios e aos visitantes da cidade que se deleitam da beleza da vida veneziana, nós a encontramos até mesmo em determinadas pinturas que o mesmo Guardi realizou imortalando a sua difícil vida de artista marginalizado.

 A evolução da pintura de Francesco Guardi traduz com eficácia tal formação humilde e a marginalização sofrida pelo artista até quase os seus últimos anos. No seu início, Francesco Guardi se mostra como um praticante de arte que se serve quase exclusivamente da cópia direta de seus maiores. Para ele, em particular, o modelo foi desde então o consagrado Canaletto. Deste ele copia os desenhos e daí parte para a realização pessoal. Tal aprendizagem fez com que  Guardi fosse sempre visto mais como um operário da pintura, até quando já em pleno século XIX a crítica começou a revelar a sua dimensão verdadeira. A partir da humildade da cópia, Guardi alarga sempre mais o seu campo de criação, chegando, através da imitação inventiva, a começar um processo de verdadeira manifestação pessoal. A partir de então, aquelas aparentes linhas das paisagens e da pintura em geral típica do Canaletto  tomam as dimensões próprias de trabalhos originais e de  uma nova grande dimensão artística.

 A retrospectiva do Museu Correr, organizada por Alberto Craievich e Filippo Pedroco,  mostra, através das 121 obras expostas, desenhos e pinturas, todo esse difícil processo evolutivo. A exposição se desenvolve nas muitas salas do museu veneziano apresentando, ao mesmo tempo, um percurso cronológico e temático. A primeira parte da mesma é constituida de obras figurativas, de modo particular cenas da vida contemporânea do artista, inspiradas em modelos como aqueles de Pietro Longhi. Desta angulação, Francesco Guardi manterá por todo o decurso de sua existência a realização de pintura religiosa. A passagem para um segundo ciclo criador, o pintor a realizará somente a partir dos seus quarenta anos. Surge então o vedutista Guardi, sempre inspirado em Canaletto, mas que lentamente afirmará uma personalidade absolutamente renovadora de grande dimensão. Exemplos do vedutista Longui hoje se encontram nos maiores museus de todo o mundo.

 Assumida uma maior personalidade com a pintura de vedute, depois de uma realização que ocupa predominantemente o pintor por pouco mais de dez anos, o já maduro Guardi dedica-se a um outro gênero, o das paisagens e dos capricci. Essa produção é uma das mais salientes no conjunto do pintor veneziano. Guardi introduz nas suas paisagens um misto de irrealidade e fantasia que alargam a consistência da criação naturalista. Tais elementos de forte inovação levam naturalmente o pintor às realizações dos seus caprichos, gênero pictórico que se faz pela direta união de lugares concretos e definidos com aqueles outros de pura fantasia. Esta grande criatividade de Guardi se pode ver em quadros de grande fama, como as duas Paisagens fantásticas do Metropolitan Museum de New York.

 Juntamente a esses produtos, contam-se aqueles outros que mostram um Guardi fascinante cronista da festas e das cerimônias da Sereníssima República de Veneza.

O grande percurso da pintura guardiana se conclue com as obras dos últimos anos da vida do pintor. Nelas Guardi concretiza definitivamente sua independência criativa, plena de fantasia e imaginação, numa grande festa de luz e cores que tendem a procurar o máximo de abstração possível a um realista. Somente neste final de uma existência plena de sacrifícios, Francesco Guardi receberá as comissões oficiais que antes ele via somente vividas pelos seus modelos artísticos. Em particular aquele Canaletto que, desde então deve ceder grande parte da glória do período vedustista veneizano ao humilde pintor que antes dele quase sempre partia.

 

 

Leave a Reply