EM VIAGEM PELA TURQUIA – 38 – por António Gomes Marques

(Continuação)

Houve também a coincidência de, a Grécia do pós-guerra, ter tido como líder Eleftherios Venizelos, o qual comungava dos mesmos ideais de paz de Mustafá Kemal. Quer um quer outro resolveram reaproximar os seus países, apesar das críticas de ambos os lados dado estarem ainda bem presentes os horrores da guerra e as expulsões que esta provocou, conseguindo vencer todos estes obstáculos a bem da paz entre os povos. A Grécia acabaria por renunciar às exigências sobre o território turco, tendo os dois países chegado a um acordo em 30 de Abril de 1930, deslocando-se Eleftherios Venizelos à Turquia, onde assinou um tratado de amizade em 25 de Outubro do mesmo ano.

M. Kemal na recepção ao primeiro-ministro grego Eleftherios Venizelos, à esquerda, em Outubro de 1932

 O sucessor de Venizelos, Panagis Tsaldaris, visitou Mustafá Kemal em Setembro de 1933, fazendo um acordo que viria a ser chamado Entente Cordial, que esteve na origam do Pacto dos Balcâs, assinado em Atenas em 9 de Fevereiro de 1934, cuja importância para os dois países muitos turcos e muitos gregos não deixarão de realçar.

 Em 24 de Novembro de 1934, Mustafá Kemal adopta o sobrenome de Atatürk, o que mostra claramente o prestígio do líder e o respeito do povo turco por esta figura da história universal. Atentemos nas palavras do General Ioannis Metaxas, primeiro-ministro grego desde 1936 até à sua morte em 1941: a «Grécia tem a mais alta estima pelo renomado líder, soldado heróico e iluminado criador da Turquia. Nunca nos esqueceremos de que o presidente Atatürk foi o verdadeiro fundador da aliança greco-turca, baseada numa estrutura de ideais comuns e cooperação pacífica. Ele desenvolveu laços de amizade entre as duas nações que seriam impensáveis de serem dissolvidos. A Grécia guardará as suas memórias fervorosas deste grande homem, que determinou um caminho inalterável para o futuro da nobre nação turca.»

 Percebemos que Mustafá Kemal conhecia bem a iliteracia do seu povo, o que dificultava as reformas que sentia ter de implantar na Turquia. Servindo-nos do que Andrew Mango escreve na obra que vimos citando, quando refere que, em períodos de profundas transformações culturais, combinar democracia com um bom governo é muito difícil, mas que, na Turquia de 1925, pela situação que neste país se vivia, ainda o era mais, e que a pobreza que o mesmo povo vivia dava azo a que a violência surgisse com facilidade. «Mustafá Kemal era um revolucionário conservador. Acreditava que civilização e lei e ordem eram inseparáveis. Ele optou por ambas.» (Andrew Mango, o. c., pág. 429). Foi naturalmente esta crença que fez com que nunca desistisse.

 Apesar da monumental obra já realizada, havia ainda, em 1936, um problema sério para a soberania da Turquia que Atatürk não tinha conseguido resolver – o controlo completo sobre os estreitos. Recuemos um pouco no tempo.

 Num acordo anexo ao Tratado de Lausanne, o Acordo dos Estreitos, de 23 de Julho de 1923, permitia que nos mesmos circulasse todo o tipo de embarcações comerciais, mas a Turquia, como país neutro, não podia impedir, durante os períodos de guerra, a passagem de embarcações militares pelo Mar da Mármara, pelo Bósforo e pelo Dardanelos, os chamados Estreitos Turcos, os quais definem a fronteira entre a Trácia e a Anatólia e separam a Europa da Ásia, ou seja, segundo aquele anexo, estas vias marítimas foram desmilitarizadas.

 Mapa da Turquia (v. http://pt.wikipedia.org/wiki/Turquia)

 Como pode verificar-se no mapa da Turquia, o Mar Negro liga com o Mar de Mármara pelo Estreito do Bósforo, dividindo a cidade de Istambul em duas, sendo uma das partes território europeu e a outra parte situada em território da Anatólia (Ásia Menor); o Mar de Mármara, por sua vez, liga-se com o Mar Egeu através do Estreito de Dardanelos. Ora, não tendo a Turquia o domínio desta zona, entregue pelos acordos assinados a uma comissão dos estreitos, a soberania do país estava sempre em causa e, sobretudo, a defesa de Istambul não estava assegurada. Havia, portanto, que reconquistar o domínio sobre os estreitos, necessitando apenas de encontrar o momento apropriado para rever o referido Acordo dos Estreitos.

 E o momento tão ansiado surgiu. Hitler decidiu remilitarizar a Renânia, facto que merece um pouco de reflexão da nossa parte, até para verificar que a história parece repetir-se, particularmente quando da Europa falamos. Recordar o que então acontecia na Europa talvez nos faça pensar na Europa que hoje temos.

 A Itália, depois de se ter aventurado na Abissínia, recebeu a condenação da Liga das Nações. Na Alemanha, e demos a palavra a Ian Kershaw (in, «Hitler, uma biografia», Pub. D. Quixote, 2.ª edição: Novembro de 2009, págs. 303/8):

“…, a crise da Abissínia, …, proporcionava a Hitler novas oportunidades para alcançar êxito na política externa. Apercebeu-se rapidamente da possibilidade de a Alemanha sair do isolamento internacional, (…).

Ao abrigo dos termos do acordo  de paz de 1919, o Reich alemão ficara proibido de erigir fortificações, de postar tropas ou de se empenhar em quaisquer actividades militares na margem esquerda do Reno e numa faixa de oitenta quilómetros na margem direita. A situação da Renânia desmilitarizada tinha, subsequentemente, sido confirmada pelo Pacto de Locarno de 1925 que a Alemanha assinou. Qualquer alteração unilateral deste estado das coisas por parte da Alemanha significaria uma quebra devastadora do acordo pós-guerra.

A remilitarização da Renânia teria constado da agenda de qualquer governo nacionalista da Alemanha. O Exército considerava que era essencial aos planos de rearmamento que estabelecera em Dezembro de 1933 e para a defesa ocidental. O Ministério dos Negócios Estrangeiros presumia que a situação da desmilitarização acabaria por via de negociações mais cedo ou mais tarde. Hitler falara confiantemente da abolição da zona desmilitarizada logo em 1934. Voltou a falar sobre o assunto, em linhas gerais, no Verão de 1935. (…)

A oportunidade foi fornecida por Mussolini. Tal como já referimos, a sua aventura na Abissínia, condenada pela Liga das Nações, (…).

A crise da Abissínia também prejudicara as relações anglo-francesas, (…). O governo francês apercebeu-se de que a decisão de remilitarizar a Renânia era inevitável. (…) Os ministros rejeitaram uma acção militar independente contra a Alemanha, (…) Algumas sondagens por iniciativa de Hitler e de von Neurath levaram-nos a presumir convictamente que a Grã-Bretanha também evitaria qualquer intervenção militar na hipótese de um golpe. (…) As hipóteses de sucesso numa acção rápida para remilitarizar a Renânia eram, portanto, altas; a probabilidade de retaliação militar por parte da França ou da Grã-Bretanha era relativamente baixa. (…)

Hitler disse a Hassel (este era o embaixador alemão acreditado em Roma) que a reocupação da Renânia era, «de um ponto de vista militar, uma necessidade absoluta». Originalmente tivera esse passo em mente para 1937. Mas a constelação internacional favorável, a vantagem do Pacto Franco-Soviético (em virtude dos sentimentos anti-soviéticos na Grã-Bretanha e em França), assim como a ocasião, além do facto de o poderio militar das outras potências, especialmente da Rússia, estar a aumentar, o que dentro em pouco alteraria o equilíbrio militar, eram razões para que se agisse mais cedo e não mais tarde.. Não acreditava na ocorrência de qualquer retaliação militar. (…).”

A 7 de Março de 1936, enquanto Hitler discursava no Reichstag, justificando a anulação dos Acordos de Locarno com o Pacto Franco-Soviético, as tropas alemãs, uma força de «trinta mil militares do exército regular, acrescidas de duas unidades da Landespolizei. Seriam apenas três mil os homens que penetrariam até ao interior da zona» reocupavam a Renânia. Ian  Kershaw, na obra que vimos citando, transcreve do discurso de Hitler: «A Alemanha considera-se, portanto, desobrigada do que a vinculava a estes acordos dissolvidos […]. No interesse dos direitos primordiais de um povo à segurança das suas fronteiras e salvaguarda das suas capacidades defensivas, o governo do Reich germânico, consequentemente e a partir deste dia, restaurou a soberania do Reich, em absoluto e sem restrições, na zona desmilitarizada da Renânia». (…)”.

 Devemos também registar estas palavras que o autor que vimos citando escreve:

 “A euforia popular, quando a notícia da reocupação da Renânia foi divulgada, ultrapassou em muito a atmosfera de celebração em 1933 ou 1935 no seguimento dos triunfos anteriores. (…) Era quase impossível não ser contagiado pelo estado de espírito de alegria. Estendeu-se muito além dos apoiantes indefectíveis do nazismo.” (o sublinhado é da nossa responsabilidade-AGM).

 Com esta situação na Europa, particularmente com a Grã-Bretanha e a França a darem provas de fraqueza e desorientação, a nós parecer-nos-ia ser o momento apropriado para retomar as negociações com vista a rever o Acordo dos Estreitos, como também a Atatürk terá parecido, julgamos.

Com o seu Ministro do Exterior, Tevfik Rüştü Aras, e com as boas cabeças do Ministério, que juntou, pediu-lhes uma solução que levasse a Turquia a controlar de novo os estreitos e as águas que delimitavam. De seguida, nomeou Cevat Açıkalın Secretário-Geral da delegação turca para Montreux, na Suíça, onde, entre 22 de Junho e 20 de Julho de 1936, se realizou a Convenção dos Estreitos, que seria assinada pela Bulgária, pela Grã-Bretanha, pela Austrália, pela França, pelo Japão, pela Roménia, pela União Soviética, pela Iugoslávia e pela Grécia. A Grande Assembleia Nacional da Turquia ratificou a Convenção onze dias depois, ou seja, em 31 de Julho de 1936, nunca mais perdendo a sua validade. Mais uma vez e pela via diplomática, Atatürk e a Turquia saíam vencedores, não havendo necessidade de optar pela guerra, com a qual, provavelmente, não obteria os mesmos resultados.

 (Continua)

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