A REVOLTA DOS FUNCIONÁRIOS, por André Brun

 

(1881 – 1926)

 

I

A semana passada, para fugir à vaga de calor que estava anunciada, deliberei ficar dentro e passar oito dias em pijama nas minhas propriedades do Conde Redondo. Despedi-me no Martinho de vários amigos de infância e tomei na paragem da rua das Galinheiras um eléctrico de Gomes Freire. Entretive-me durante a viagem, admirando a paisagem e, chegado que fui ao apeadeiro de Bernardo Lima, puxei a corda da campainha, apeei-me, e, passados alguns poucos minutos de marcha avistava o rés-do-chão em que habito e onde ia conhecer uma fresca tranquilidade.

No que empreguei esses oito dias de isolamento, ocioso seria contar-vo-lo. Ali, longe do bulício e da agitação, trajando sobre a nudez forte da Verdade o manto quase diáfano de um par de cuecas, as horas decorreram remansosas. Não lia jornais, conversava apenas com os botões das campainhas eléctricas e a minha vida foi ― como diria Hamlet, o maluquinho de Elsenor ― comer, dormir, quem sabe… sonhar talvez…

Ao cabo de uma semana tive de súbito a nostalgia da Baixa. Que teria por lá acontecido durante a minha ausência? Todos quantos passaram dias de amargo exílio, suspirando pela Pátria distante, poderão e saberão compreender-me. Os outros, que me importam?

Caso foi que ontem tomei a resolução de voltar à cidade, às suas tentações, ao seu ruído, ao vertiginoso torvelinho da sua vida galopante. Sentia-me bem disposto para a luta. Os oito dias que acabava de passar tinham-me fortalecido. Engordara cerca de dezoito gramas e, enquanto os desgraçados, que andam lá por fora ao sol, voltam queimados e negros, eu, que me mantivera à sombra, estava magnificamente apagado e a minha epiderme ― a que outros chamarão cútis ―tinha a brancura do jaspe, a palidez do lírio e a alvura do arroz manteiga.

 

(continua no próximo sábado)

 

In Procópio Baeta – Ditos e Feitos de um Burguês Lusitano do Primeiro Trinténio do Século XX. Primeira edição, 1927, Livraria Editora Guimarães & C.ª.

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