A História não pode ser uma forma de ajustar contas, de afirmar patriotismos – para isso existem os hinos nacionais, as bandeiras e as selecções de futebol.. A História deve narrar, tão objectivamente quanto as fontes o permitam, os factos ocorridos, sem branquear comportamentos, mas sem maniqueísmos e, sobretudo, não julgando esses comportamentos de há séculos, à luz dos padrões actuais Os povos europeus e, entre eles, os portugueses, com todos os seus defeitos e limitações, tiveram um papel decisivo) na história do mundo.
A garra sedosa do politicamente correcto vai avançando com subtileza e vai conduzindo a um pensamento único. Sem o aparato da Inquisição, que impunha o pensamento único através de requintadas técnicas de tortura, a sociedade capitalista transforma cada um no inquisidor de si mesmo. O temor de não acertar o passo e a bagagem conceptual pelo que vai sendo definido como política (e socialmente) correcto, conduz subtilmente à ideia de que é crime e pecado não pensar como «toda a gente». É por este processo que se instila nas massas a ideia de que não é realista votar em partidos minoritários – podem ter muita razão, mas não têm força para impor essa razão – o chamado voto útil impera e a utilidade vê-se….
O eurocentrismo é um desses novos pecados. Os europeus não podem dizer que descobriram terras novas. Os portugueses não descobriram o Brasil – os dois povos encontraram-se. Não foi descobrimento, nem achamento, como se dizia – foi encontro. Gostava de saber quando é esse encontro se daria se os portugueses lá não tivessem ido. Com tribos no Paleolítico, dispondo de pirogas escavadas a fogo em árvores, sem instrumentos de orientação, quantos milénios teríamos de esperar por que nos achassem eles a nós.
Aliás, as navegações portuguesas e castelhanas incorporaram conhecimentos científicos vindos da Ásia e da cultura árabe. Foi a civilização gerada em torno do Mar Mediterrâneo que desenvolveu as ciências e a experimentação que permitiram os descobrimentos, o achamento, o encontro. Não pode considerar-se um feito exclusivamente europeu. O termo eurocentrismo é apenas isso, uma palavra. Uma palavra que nasce num tempo em que a Europa deixou de ter a importância que teve. Não investiguei, mas deve ter sido inventada por um americano. Os Estados Unidos são um produto da cultura europeia – uma Europa que correu mal, por assim dizer.
Amanhã continuamos.
