A MANIFESTAÇÃO DE 14 DE NOVEMBRO – I – Portugal: O QUE A VIOLÊNCIA NÃO PODE ESCONDER

Obrigado ao Daniel Oliveira, ao Tiago Miranda, ao Expresso, ao Página Global e aos amigos que nos enviaram estes elementos. Com a devida vénia, publicamos este texto e esta fotografia sobre a vergonha que foi a intervenção policial no fim da manifestação no dia da greve geral, sob as ordens do ministro da administração interna.

Daniel Oliveira – Expresso, opinião, – foto Tiago Miranda

Já várias vezes escrevi sobre este assunto: na política, como no resto, a violência tem o poder de se impor, de forma despótica, sobre todos os argumentos e sobre todas as outras formas de luta. Ela impõe-se pela sua irracionalidade e pelo seu poder mediático. Ela impõe-se porque replica, na contestação, os códigos do poder do mais forte.

Depois de ter participado numa manifestação pacifica, passei o fim de tarde de ontem, em São Bento, a gritar com os poucos (e eram mesmo poucos) que arremessavam objetos contra a polícia. Tentando explicar-lhes, sem sucesso, que esse era o favor que faziam a quem julgavam que estavam a combater. Fi-lo, desesperado com o que via, porque sabia duas coisas: que aqueles gestos dariam ao governo a desculpa que faltava para reprimir a contestação e que ofuscariam uma excelente greve geral, que deixou claro o isolamento em que o governo se encontra. Mas, acima de tudo, por uma razão: tenho, em relação à violência, uma objeção de princípio. Considero-me um pacifista no sentido mais radical do termo.

Quando, às 17.30, me apercebi que nada pararia uma minoria de idiotas, abandonei o local. Muitos decidiram ficar, mantendo a devida distância dos desordeiros, sem que, como vimos mais tarde, isso os livrasse de ser vítimas da violência policial. Era certa a injustiça: a enorme coragem que tantos trabalhadores portugueses mostraram, ao correr o risco de fazer greve (muitos deles precários e em risco de perderem o emprego) e ao perder um dia de salário que tanta falta lhes faria, seria esmagada pelas imagens de violência que sempre têm a preferência dos media.

Dito isto, há que deixar claras uma contradição e uma mentira do ministro da Administração Interna.

Disse o ministro que as provocações – que existiram – eram obra de “meia dúzia de profissionais da desordem”. Se eram meia dúzia (facilmente identificável depois de uma hora e meia de tensão), porque assistimos a uma carga policial indiscriminada, que varreu, com uma violência inusitada e arbitrária, tudo o que estava à frente? Porque foram agredidos centenas de manifestantes pacíficos, só porque estavam no caminho, naquilo que, segundo a Associação Sindical da PSP foi a “maior carga policial desde 1990”? Conheço várias pessoas que, como a esmagadora maioria dos que ali estavam, não participaram em qualquer desacato. Não tendo sequer resistido a qualquer ordem policial foram, segundo os seus próprios relatos, espancadas pelas forças que deveriam garantir a sua segurança. Como é possível que tenham sido detidas dezenas de pessoas no Cais do Sodré e noutros locais da cidade, sem que nada tivessem feito a não ser fugir de uma horda de polícias em fúria e aparentemente com rédea solta para bater em tudo o que mexesse? Entre os detidos e os agredidos estava muita gente que, estando tão longe de São Bento, nem sequer tinha estado na manifestação ou sabia o que se passava. Como é possível que dezenas e dezenas de pessoas tenham sido detidas em Monsanto e na Boa Hora sem sequer lhes tenha sido permitido qualquer contacto com advogados, como se o País estivesse em Estado de Sítio e a lei da República tivesse sido abolida?

Quando a polícia espancou gente pacifica em vários locais da cidade, estava a garantir a ordem pública ou a contribuir para a desordem? Estava a garantir a integridade física dos cidadãos ou a pô-la em causa? Estava a garantir o cumprimento da lei ou a violá-la? Estava a reprimir os “profissionais da desordem” ou a espalhar a desordem pela cidade? O comportamento inaceitável de meia dúzia pode justificar um comportamento arbitrário das forças de segurança, que não poupa ninguém a quilómetros de distância da própria manifestação?

Não, o comportamento de alguns desordeiros não pode, num Estado de Direito, permitir que a polícia se comporte, ela própria, como desordeira. O crime de uns não permite um comportamento criminoso das forças policiais.

O ministro da Administração Interna garantiu que, ao contrário do que foi escrito em vários órgãos de informação, não havia agentes infiltrados na manifestação, a promover os desacatos para excitar os mais excitáveis e justificar esta intervenção. Fico-me por aqui: sei o que vi antes de me vir embora. E os agentes infiltrados começam a ser cada vez mais fáceis de identificar. Já uma vez o ministro desmentiu uma notícia semelhante que depois ficou provada. Espero que outros tenham conseguido recolher imagens que mostrem alguns dos que, no meio da multidão, vão semeando a confusão.

No dia 15 de Setembro elogiei o comportamento das forças policiais. Quando querem evitar o confronto sabem bem como o fazer. Isolando os provocadores e garantindo o direito à manifestação da maioria pacifica. Quando as ordens parecem ser diferentes é fácil contribuir para a violência. Foi o que aconteceu ontem. Uns tantos idiotas de cara tapada e as ordens certas vindas de cima chegam para garantir que uma greve geral com mais adesão do que o esperado pelo governo morra nos telejornais.

Escrito tudo isto, volto ao que é importante: a greve geral de ontem foi uma das maiores da nossa história. E nem os que procuram nas manifestações a excitação que outros encontram nas claques de futebol conseguem esconder isso. E nem a violência indiscriminada que o ministro da Administração Interna mandou espalhar por meia cidade de Lisboa o pode fazer ignorar. Na televisões, foi a brutalidade de uns e de outros que ganhou. Mas o dia de ontem foi bem mais do que isso: foi uma prova de coragem. Os portugueses estão de parabéns.

 

 

22 Comments

  1. Meu caro posso te dizer que acho muito bem feito, essa senhora se encontrar dessa maneira.
    ponto 1: ninguem a mandou estar la no meio que , que fosse para casa, ponto2: se picaram tanto a policia, experimenta estar 5 horas a levar com paralelos na cabeçca, depois dizme a tua reacçao enfim.
    A maior parte dos que la estavam sao drogados e bandidos pessoas que nunca quiseram trabalhar, pois eu trabalho todos os dias e nao tive um arranhao.
    vai trabalhar malandro….

    1. Miguel Campos, sabe uma coisa? Você vai ter muitos «arranhões» e muitos hematomas em 2013, mas é com indivíduos como você, que a pandilha, que nos (des)governa, conta.
      A maior parte dos que lá estavam não são nem drogados nem bandidos nem pessoas que nunca quiseram trabalhar, pelo contrário, são pessoas que trabalham e trabalharam, contribuindo para as suas pensões de reforma, muito, imenso, e veem o seu dinheiro a diminuir no final de cada mês pelos cortes, pelos impostos, pelos aumentos sucessivos.

  2. É inacreditável como há pessoas como o Miguel Campos e o opiniões como as que aqui emitiu. Os drogados e os bandidos, os bêbedos e os imbecis, não vão a manifestações. Ficam a fingir que trabalham (enquanto têm emprego) e a dizer ou a escrever disparates quando o álcool, a droga ou a ignorância a isso os obrigam.

  3. Em primeiro de tudo vou responder ao que Maria Rosa Adanjo Correia diz.
    Se de facto o nosso pais esta assim deve-se a uma conjectura do passado que nunca foi feita da melhor maneira, se agora esta a passar uma mare de crise e baixa na qual o povo portugues vai sofrer e perfeitamente normal pelo que o governo nao tem outra alternativa se nao tomar certas medidas nao discordam-do de alguma delas.
    Quando alguem nao se sente bem com as condiçoes de trabalho que possui, e tao simples como procurar outro emprego, e fica a saber que em PORTUGAL existem milhares e milhares de empregos, a menos que pessoas como voce tenho os olhos tapados e diga como a maior parte da ignorancia social que : NAO HA EMPREGO!!
    Relativamente ao Carissimo Carlos Loures, que provavelmente seria um dos que estaria a atirar com paralelos sobre aqueles que certamente os protegeu ja inumeras vezes e situçoes da sua vida (Policia),
    deve ter um descargue de consciencia que nunca devia se ter dado ao trabalho de responder, pelo que nunca o deveria ter feito noutras condiçoes a menos que numa critica / desrespeito , pelo que entendo que nao tenha mais conhecimento moral e social para saber o que diz.

    http://www.facebook.com/photo.php?fbid=219328911533698&set=a.219328704867052.60879.100003697715570&type=1&theater

    Vejam isto talvez entendam a minha discordancia….
    enfim…
    inscrevam se na policia e o melhor ahaha 🙂

  4. Miguel Campos, o senhor veio aqui referir-se à pessoa agredida em tom de menosprezo, e com insultos à maioria das pessoas que foram à manifestação. Depois profere insinuações sobre o senhor Carlos Loures, que rebateu as suas afirmações, e envia-nos um endereço electrónico que não está acessível. Se deseja fazer comentários no nosso blogue, tem de aceitar que lhe respondam. Quanto ao problema do desemprego, se realmente acredita no que disse, o ignorante é claramente o senhor Miguel Campos.

  5. Sr Miguel Campos, marque dia e hora para “falarmos”, apareça sem escudo, capacete ou cassetete, ou se vier assim equipado avise que eu levo tambem os adereços correspondentes. De preferencia ao fim de semana, e marque cama em hospital. A violencia e estupidez das suas palavras apenas tem resposta fazendo da sua face um bolo irreconhecivel pela sua mae. Voce ´´e a pior escumalha que gasta oxigenio em Portugal, e´ um animal que devia ser pegado numa arena com farpas espetadas nas costas.

  6. Muito bem José dos dias. Ao denominado Miguel Campos só se deveria responder de uma forma que a educação não me permite aqui. Mas se ele não fosse cobarde, além do pior que deve ser, já deveria ter marcado encontro! Por mim, acabo os comentários aqui, esse tipo nem mais uma letra do alfabeto merece da minha parte, quanto mais vê-lo!?!?!?

  7. eu concordo,quase tudo que miguel campos escreveu .Pois eu foi policia militar e sei que é dificil aguentar o que esses manifestantes fizeram.,.,Agora vou fazer-lhe uma pergunta: se o senhor fosse PSP, e estivesse na situaçao deles qual era a sua reacção?

  8. Deixem se de palavras de ameaças, de facto miguel campos tem razao em quase tudo que disse, voces nao teem mais que fazer do que ameaçar o pobre do homem que tem razao
    .

  9. O «pobre homem» como o senhor José Ilídio diz, contesta o direito de manifestação, consignado na Constituição da República. Afirma que acha bem que a senhora que se vê na foto, tenha sido agredida. E depois de diversas expressões inaceitáveis, dizendo que os manifestantes eram drogados e bandidos, termina com um «vai trabalhar, malandro!». Ou seja, «o pobre homem» não percebeu que para que as suas ideias sejam respeitadas, tem de respeitar a opinião dos outros. Ninguém aqui aprovou que se atirassem pedras aos agentes da polícia. Mas é pouco profissional e, sobretudo, prova de deficiente formação cívica, bater indiscriminadamente, sem distinguir agressores de pessoas que estavam a exercer os eu direito de cidadania. Neste blogue, as posições podem ser assumidas desde que respeitando as pessoas de que divergimos. O senhor Miguel Campos, acha que não deve protestar e tem o direito de pensar o que quiser. Mas não têm o direito de ofender quem pensa de forma diferente.

  10. Ai´ estão os heróis portugueses em todo o seu esplendor: Adao Costa, Jose Ilidio, Miguel Campos, bater em velhinhas e espancar adolescentes e´ sinal de heroísmo, de força testosterona. Aprenderam isto com o Macho Latino Paulo Portas, conhecido pela sua Masculinidade latente, o grande Ministro da Defesa tambem conhecido por Catherine Deneuve do Parque Eduardo VII. Saiam do armario seus mariconços e assumam-se: Nazis homossexuais hipocritas e ignorantes. A escumalha de Portugal.

  11. O Brasuca Campos e´ culturista! Vao ver a carinha dele no facebook. amigo, vai para sao paulo se es homem. Nao precisamos ca de ignorantes nazis, se te apanho em sabes de que terra es. Deves cuspir na sopa que a tua mae de te a comer.

  12. Por princípio, somos contra o corte de comentários – os comentários, sejam favoráveis ou desfavoráveis, são o que distingue um blogue de outro meio de comunicação, são, por assim dizer, as ideias em movimento. Porém, a maioria dos comentários que aqui se têm estado a acumular, não acrescentam nada de positivo à discussão, nem ajudam a esclarecer o que, de facto, se passou no dia 14. Descontados os insultos e as afirmações gratuitas, estes comentários demonstram o que já se sabe – a opinião pública está dividida. Há um senhor que diz que sou ignorante – coisa que nunca ignorei – todos somos ignorantes daquilo que não sabemos e o que não sabemos é sempre muito. Só muito tarde pude ler o blogue. O artigo do general Pezarat Correia dá uma pista sobre o que a polícia podia ter feito para evitar o espancamento indiscriminado dos manifestantes – quando alguns começaram a arrancar as pedras da calçada, era a altura ideal para intervir. Uma coisa todos sabemos – o direito de manifestação é sagrado e o que aconteceu pode levar alguns cidadãos a hesitar futuramente em exercer esse inalienável direito. O direito de manifestação não pode estar em causa, mas agredir as forças policiais não faz parte desse direito – aliás, a violência, só favoreceu os argumentos de quem defende a prepotência e o terrorismo económico que este governo esta a levar a cabo, violando com frequència a Constituição ao retirar direitos que a Lei Fundamental consagra como inalienáveis e inegociáveis. Há mesmo quem diga que os elementos que desencadearam a violência estavam a soido de quem quer acabar com manifestações… Teoria da conspiração? No que nos diz respeito, ignorantes ou não, somos nós quem dirige o barco – a partir de agora, os comentários serão filtrados e só passarão os que constituirem, indpenndentemente do sentido das opiniões que veiculem, um contributo para o esclarecimento do assunto em causa, A demonstrar a razão por que vamos assim proceder, aqui ficam todos os comentários até agora chegados.

  13. Caro Carlos Loures, onde posso ler o comentário do General Pezarat Correia?
    «O artigo do general Pezarat Correia dá uma pista sobre o que a polícia podia ter feito para evitar o espancamento indiscriminado dos manifestantes – quando alguns começaram a arrancar as pedras da calçada, era a altura ideal para intervir.» Eu estou de acordo com esta perspectiva, eu também pensei isto.

  14. Maria Rosa A. Correia, prezada amiga, o artigo do general Pezarat Correia foi publicado ontem no nosso blogue e tem o título GREVE GERAL. Todas as segundas-feiras, Pedro de Pezarat Correia colabora no nosso blogue com uma crónica sob o título GIRO DO HORIZONTE. Saudações cordiais.

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