EDITORIAL – APOIAMOS A INDEPENDÊNCIA DA CATALUNHA!

Foi Kurt Lewin quem disse que não há nada mais prático do que uma boa teoria. Kurt Lewin (1892-1947), foi um grande psicólogo alemão, naturalizado norte-americano, que desenvolveu  a teoria do campo psicológico, segundo a qual as variações individuais do comportamento humano com relação à norma são condicionadas pela tensão entre as percepções que o indivíduo tem de si mesmo e pelo ambiente psicológico em que se insere, o espaço vital, onde abriu novos caminhos para o estudo dos grupos humanos. Tensão que explica a reacção defensiva que a generalidade dos seres humanos assume sempre que é posta perante uma ideia nova.

A resistência à mudança é um dos maiores entraves ao avanço, embora possa constituir um mecanismo de segurança que impede a adopção de inovações desvantajosas. Só as invenções consolidadas, as que ultrapassam essa resistência, perduram. Quando alguém, talvez há seis mil anos atrás, seccionou o tronco de uma árvore e, furando-as ao centro, apresentou uma nova maneira de transportar cargas, despertou por certo sorrisos de troça. E, no entanto, a roda acabara de ser inventada. A nossa civilização, sem a roda, o que seria?

Tudo devendo aos idealistas e aos teóricos, há pessoas que, se lhes falamos em causas, em ideologias, encolhem os ombros – «o que interessa isso? Com tantos problemas que há para resolver…» Defender a independência da Catalunha é uma das ideias que faz sorrir esses seres. Ou reivindicar a restituição de Olivença. O que interessam essas causas a quem tem outros problemas a resolver? Já ouvimos responsáveis políticos, do PSD e do PS, afirmar que é benéfico termos uma Espanha grande ao nosso lado – é a teoria das lojas âncora nos centros comerciais. Além de ser uma grosseira visão da história, pois a Catalunha e as demais nações oprimidas por Madrid, têm o direito de tomar as rédeas do seu destino.

Nós apoiamos a independência da Catalunha. É justo, é correcto e é favorável a quem não vê a Península como um centro comercial – onde a existência de um grande supermercado chama clientes à pequena boutique. A analogia é eticamente grosseira e na prática, a grande superfície, vendendo tudo mais barato do que a pequena loja, deixa-a vazia de clientes. Espanha, encarada de uma perspectiva «prática», «pragmática», é um mau negócio para todos. Uma Península que ostente toda a sua riqueza e diversidade, que não tenha os touros, e as castanholas como ícone principal, será muito mais atraente. E, sobretudo, mais autêntica.

 No dia 25, dia das eleições antecipadas na Catalunha, dedicamos toda a edição àquela antiga nação peninsular que poderá em breve poderá vir a ser o mais jovem estado europeu. E não é por nos ocuparmos de uma ideia que, aparentemente nada tem a ver com os problemas que nos afectam, que deixamos de estar atentos à realidade. É que os problemas que nos afectam – a crise económica, por exemplo, existem porque, no passado, houve quem só se preocupasse com a «realidade». Quando os europeus tolerararam que a Prússia engolisse estados que, como a Baviera, tinham direito a uma soberania plena, estavam a condenar a «realidade» que agora vivemos – uma senhor gorda vem, com rigor germânico, dar ordem a uns senhores que o nosso «pragmatismo» elevou à condição de nossos governantes. Senhores, muito estúpidos, mas com sentido prático – estão a enriquecer, a acumular fortunas… Nós, também com sentido prático das coisas, estamos a pagar o que os senhores roubaram.

Apoiar a independência da Catalunha (e a da Galiza, e a do País Basco…) é uma teoria muito prática. É um acto de justiça.

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