Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
O meu salário tornou-se um salário de miséria
Christine Legrand, Le Monde, Buenos Aires
Com um largo sorriso, Olga Konstantellou pede desculpas pelo seu incipiente espanhol. Esta grega de 29 anos sente-se mais confortável a falar em inglês. Há apenas seis meses que ela chegou a Buenos Aires: “em 2 de Janeiro, para começar, apenas um dia a seguir ao ano novo e para uma nova vida!”.
Ela deixou Atenas para escapar à crise, com a imagem na memória “de mendigos nas ruas”. Ele pertence a uma geração dos gregos que recebeu uma boa educação, que viajaram e que podem esperar encontrar trabalho no estrangeiro. Muitos dos seus amigos emigraram “para a Alemanha, para o Reino Unido, para os países escandinavos, para o Canadá e até para a Nova Zelândia ou mesmo para a Austrália”. Olga, ela escolheu a Argentina porque ela se apaixonou por um argentino. Olga tinha conhecido Julian em Atenas num dia tórrido de Julho de 2009. Ele, estudante de Sociologia, viajava por toda a Europa. Encontraram na rua e ele pediu-lhe conselhos de turismo.
“Os gregos e os argentinos são semelhantes, eles são quentes, abertos, fazem amizades facilmente “, disse Olga com uma explosão de riso. Os dois jovens reuniram-se no ano seguinte para fazerem uma viagem por toda a América Latina. Olga foi amor à primeira vista pela cidade de Buenos Aires, pela sua arquitectura ‘ uma mistura de Paris, Barcelona e Nova Iorque “e pelo clima ensolarado. O descalabro grego empurrou-a a desejar voltar a tentar a sua sorte.
“Na Grécia, eu andava deprimida porque o meu salário tinha-se tornado uma ninharia. Com formação em turismo, Olga tinha trabalhado durante dois anos num luxuoso resort, Costa Navarino, no Peloponeso. Seis dias por semana, oito horas por dia, onde à noite, ela tinha que cuidar das crianças dos clientes do hotel . O seu salário inicial de mil euros foi reduzido para setecentos euros por mês. “Não se podia viver com esta quantia e ainda menos imaginar formar uma família “.
Rosa, a sua irmã de 33 anos, é casada, mas desistiu de ter filhos por causa da situação económica. Kostas, o seu irmão, 32 anos, engenheiro de computadores, perdeu o seu emprego e vive de biscates. Os seus pais, aposentados e que pertenciam à rica burguesia grega, tiveram que restringir drasticamente o seu nível de vida, porque as pensões são cada vez mais magras e apesar das propriedades que eles alugam, agora a preços baixos, e de que são fortemente agrados com novos impostos.
Na Argentina, terra de imigrantes, Olga adaptou-se rapidamente. Ela rapidamente encontrou um trabalho como tradutora e em muito pouco tempo obteve um bilhete de identidade. Ela ganha o equivalente a 1 300 euros por mês, quase o dobro do que ganhava na Grécia. Com o seu “namorado”, alugam um apartamento em San Telmo, o bairro antigo a sul de Buenos Aires, muito popular entre os turistas pelas suas lojas de antiguidades e pelos seus dançarinos de tango.
Os grandes olhos amendoados de Olga entristecem-se quando se lhe pergunta pelo seu país, pela sua família e pelos seus amigos. “Aqueles que ficaram, estão desempregados.” Eles comunicam-se muito através do Skype. ” Eles fazem-me falta. As histórias das suas vidas deixam-me triste e também me deram ao mesmo tempo força para emigrar”. Ela segue de perto a situação no seu país porque é responsável pela tradução, do grego para o inglês, das análises sobre a Grécia da agência de rating Standard & Poors. No escritório, ela aprecia a atmosfera cosmopolita como muitos jovens estrangeiros, que, como ela, escolheram estabelecerem -se na Argentina. Por alguns meses ou para sempre? “Não é fácil deixar o nosso país, mas não sei se terei, algum dia, a possibilidade de regressar definitivamente à Grécia.” Por enquanto, Olga faz as suas poupanças para ir a Atenas, pelo menos nas férias, “com Julian, para conhecer a família”.
Olga indigna-se com os comentários que explicam a crise grega “pela preguiça dos seus habitantes e pela fraude fiscal “. “Estas explicações são estereótipos,”, exclama: “os responsáveis são os homens políticos, sem escrúpulos e corruptos, mas também a Igreja, muito rica, que não paga nenhum imposto. Não se pode falar exclusivamente da crise grega, é uma crise em toda a Europa, é a crise de um sistema que, em todo o mundo, privilegia os bancos e os financeiros em detrimento da educação, da saúde e da protecção do ambiente”. Ela é pessimista: “Os gregos nunca poderão pagar a sua dívida mesmo se os mais cínicos estão dispostos a vender tudo, mesmo até as ilhas gregas!”
Olga lembra-se de ter visto na televisão a crise argentina de 2001-2002. “Na época, eu assisti estarrecida a cenas de saques, a concertos de panelas, à economia de troca directa, sem imaginar que eu ia viver um dia a mesma coisa no meu país”. Olga não está interessada na política local, mesmo que seja o tema de conversa favorito da Argentina. ” Os jovens argentinos são incrivelmente curiosos e muito bem informados sobre as notícias internacionais, mas pessoalmente eu não acredito nos políticos, de todos os países”. Ela acredita nos movimentos de cidadãos, em solidariedade. Ela lamentou que nesta área “os argentinos, como os gregos, queixam-se sobre a realidade do seu país mas não fazem nada para a mudar . Eles são demasiado individualistas para se organizarem.”
Por outro lado, ela gosta da ” gentileza dos argentinos e que têm uma intensa vida cultural”. “Os argentinos valorizam o desenvolvimento pessoal. Para eles nunca é demasiado tarde para se colocarem a pintar, escrever ou a aprender a dançar tango!” Em Buenos Aires, Olga realizou o seu sonho de infância: aprender a tocar o violoncelo.

