EM VIAGEM PELA TURQUIA – 46 – por António Gomes Marques

(Continuação)

Embora se vejam ali muitos turistas, é um mercado largamente frequentado pelos turcos e, ao passar pelo meio da multidão a olhar as lojas e os seus produtos expostos, com um colorido atraente, vimo-nos a pensar em como seria a vida nesta cidade de Constantinopla e agora Istambul chamada, para já não falarmos da primitiva Bizâncio, cidade grega, capital da Trácia, fundada pelo Imperador Constantino, o Grande, em 330, que foi o grande centro da cultura do Império Bizantino ou Império Romano do Oriente, conquistada pelos otomanos em 29 de Maio de 1453. Mas este Mercado das Especiarias foi construído pelos otomanos, quando estes já dominavam a zona há mais de 200 anos.

Procuremos então fontes que nos permitam reconstruir um pouco o viver dos tempos do apogeu otomano.

 Recuemos até ao século XIX com o auxílio do historiador Jason Goodwin, servindo-nos de um dos romances, e não da obra de historiador, cuja acção é passada na Istambul de 1836, o primeiro de uma trilogia, « O fogo de Istambul» (Porto Editora, Outubro de 2010, trad. de José Vieira de Lima):

 «Como sempre, as águas do Bósforo fervilhavam de embarcações. Uma montanha de velas brancas erguia-se acima do convés de uma fragata otomana que se preparava para subir o estreito. Um verdadeiro enxame de barcos de pesca, de casco largo e mastro único, seguia sob um vento leste rumo ao mar de Mármara. Uma embarcação da alfândega passou veloz com os seus longos remos vermelhos, como se fosse um escaravelho aquático em fuga. Havia barcos de passageiros, batéis e barcaças atravancadas de carga; cúteres de vela latina vindos da costa do mar Negro. Na margem oposta, no meio de tanto bulício, Yashim mal conseguia distinguir Scutari, o ponto onde a Ásia começava.» (pág. 57). […]

 Recordemos a data da fundação da cidade por Constantino, como atrás se diz. «Oficialmente, mantinha o nome de Constantinopla, mas o povo, na sua maioria, chamava-lhe Istambul. Continuava a ser a maior cidade do mundo.» (idem). Dando um salto para a época relatada no livro de Jason Goodwin, estamos a falar de «Mil e quinhentos anos de grandeza. Mil e quinhentos anos de poder. Mil e quinhentos anos de corrupção, golpes e compromissos. Uma cidade de mesquitas, igrejas, sinagogas; de mercados e lojas; de comerciantes, soldados, mendigos. A maior de todas as metrópoles, sobrepovoada, movida pela ganância.» Estamos no tempo de Mahmud II, a viver no Palácio Topkapi, e na cidade que também é designada como a «cidade das sete colinas», ou seja, a semelhança com Lisboa não se refere apenas à luz que dela irradia.

 No início do século XIX, a um período de rebeliões, que levou à entronização do sultão Mahmud II, seguiu-se um período reformista, numa tentativa de aproximar o Império dos padrões ocidentais, não só políticos mas também económicos e culturais. «Durante este período foram construídas pontes sobre o Corno de Ouro e Istambul foi ligada à rede ferroviária europeia na década de 1880. O Tünel, uma das linhas ferroviárias urbanas subterrâneas mais antigas do mundo, foi inaugurada em 1875 na encosta sul de Gálata. Ao longo das décadas seguintes foram também gradualmente criadas outras infraestruturas modernas, como uma rede estável de distribuição de água, eletricidade, telefones e elétricos, embora com algum atraso em relação a outras capitais europeias» (v. http://pt.wikipedia.org/wiki/Istambul)

 

Mesquita de Ortakoy

 Hoje, a cidade está muito mais moderna, mas a Istambul antiga está bem presente e é um prazer passear pelas suas ruas e praças, à beira do Bósforo, junto ao Corno de Ouro ou no centro da cidade, nos seus modernos transportes; visitar as suas mesquitas e museus.

 Falaremos um pouco do que vimos para além da Mesquita de Solimão I e do Mercado das Especiarias, mas não podemos esquecer de referir um outro livro maravilhoso sobre esta cidade dos meus encantos: «Istambul – Memórias de Uma Cidade», de Orhan Pamuk (Ed. Presençã, trad. de Filipe Guerra, Lx., 3.ª edição, Agosto de 2008). Atente-se no que escreve Pamuk sobre a década de cinquenta do século passado: «Um dos principais prazeres do Bósforo, para mim quando criança, no tempo em que íamos passear todos de carro, era isso: ver os vestígios de uma época tão rica, e tão longínqua, em que a civilização ocidental influenciava a civilização e a cultura otomanas, mas sem lhe fazer perder as características e as forças próprias.» (pág. 60), palavras estas que subscrevo sem hesitação.

 E na página seguinte: «A partir de meados do século XIX, sob o efeito do empobrecimento, da decomposição, do laxismo, da explosão demográfica, das guerras sucessivamente perdidas e da ocidentalização, o velho centro de Istambul, na península histórica, foi maltratado e esmagado pelos grandes edifícios da burocracia otomana moderna: essa mesma burocracia de ricos e paxás, no Verão, fugia para longe, para os yalı construídos a seu mando à beira do Bósforo, elaborando e vivendo aí uma cultura fechada ao mundo exterior.»

(Continua)

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