O catalão precisa dum Estado próprio

É tão simples quanto isto: o Catalão também precisa do seu próprio Estado.

Mal cheguei a uma livraria, comecei a ler vorazmente Jo confesso, o último livro (que certamente será um bestseller) de Jaume Cabré. Este romance, resultado de décadas de trabalho do autor, uma vez mais, põe a literatura catalã no mapa.

Há muitas opiniões diferentes sobre a situação atual da literatura catalã, e mais ainda sobre a situação da língua catalã, como sempre sob ameaça da poderosa influência do vizinho espanhol. Historicamente, é perfeitamente claro que a nossa produção cultural tem estado fortemente ligada à situação política, à nossa capacidade para defender os nossos interesses usando os instrumentos institucionais mais adequados. Os tempos de plenitude política tem ido de par com a nossa mais destacada criatividade. Tempos de crise e cerco conduziram-nos a uma imediata redução na nossa contribuição para a cultura universal.

O forjar do estado catalão medieval e moderno trouxe-nos ao nosso zénite. A sua destruição às mãos de Castela no início do século XVIII, à insignificância literária e ao cerco legal. Com a ocupação espanhola, a construção do novo estado espanhol na Catalunha baseou-se, entre outras coisas, numa série continuada de ataques à língua do país, com vista a substituir o catalão pelo espanhol. Geração após geração sofreu ataques em todas as frentes, institucional, social e económica, com sucessivas proibições do uso do catalão no Supremo Tribunal de Justiça (1716), educação (1768), contabilidade (1772 ), teatro (1801), epitáfios nos cemitérios (1838), registos notariais (1868), Registo Civil (1870), serviço público de telefone (1896), ensino do catecismo (1902), telegrafo (1904), bulas farmacêutica (1924), instituições municipais municipal (1930), toponímia (1938), designação de entidades legais (1938), sinais e publicidade (1939), filmes (1940), nomes de navios (1945) e rotulagem (1978). Por isso, Joan Sola, o distinto linguista agraciado com o Premi d’Honor de les Lletres Catalanes que morreu há alguns meses, concluiu que para defender a nossa língua não havia alternativa a usar a armadura que um estado fornece. No seu legendário discurso testamentário ao Parlamento da Catalunha em Julho de 2009, dirigiu-se-nos com estas emotivas palavras: “A língua vernácula do nosso país […], uma língua antiga e poderosa para a qual foi traduzida a melhor literatura mundial e que contribuiu significativamente para engrandecer essa literatura, não pode e não deve sentir-se mais uma língua degradada, politicamente subordinada e incessantemente e de mil maneiras atacada pelos meios de comunicação social, visceralmente rejeitada por outros povos de Espanha. Esta língua não pode e não deve sentir-se inferior a qualquer outra, nunca mais.” E, como todas as outras línguas mundiais, o catalão também precisa da defesa, pelo menos, dum Estado. Agora que Espanha lançou uma nova ofensiva contra o ensino em catalão isso é mais claro que nunca.

(Tradução portuguesa de Pedro Godinho)

Artigo do autor em inglês em Help Catalonia

Miquel Perez Latre

Doutorado em História, Arquivista e Blogger

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