REPRIMIR OS IMPULSOS QUE CULPABILIZAM E REPARAR O QUE É CONDENÁVEL por clara castilho

A criança, pela acção da educação dos pais e da sociedade, sabe e sente que muitos dos seus pensamentos e actos são condenáveis. Deles tem vergonha e a eles tenta responder com outros pensamentos que os representam, agora já de uma forma mais aceitável. Estes movimentos são imprescindíveis para a construção do que Freud chamou Superego e que ainda hoje se utiliza, como imagem daquilo que nos faz parar de fazer coisas que podem prejudicar os outros.

Vejamos a seguinte história:

UM GATO QUE PEDIU UM CONSELHO À LUA

Era uma vez uma família muito, muito, mas muito rica, que tinha um gato muito lindo, branquinho, com manchas de terra. O nome dele era “Strike”… era acarinhado por todos, principalmente pelo filho mais novo do senhor Ruben Alves, o presidente da maior empresa de comunicações da cidade de Barcelona.

O que o gato não pensava, aliás ninguém lá de casa pensava era que o menino de 8 anos batesse no felino. Aconteceu tudo numa manhã de terça-feira. Ainda em plena madrugada, o felino acorda, olha em sua volta e vê: almofadas no chão, sapatos desarrumados, os brinquedos de peluche por todo o lado, o gato olhou outra vez e pensou:

– Se eu roer isto não vai fazer mal, afinal isto já está desarrumado. E começou a roer, quando o menino acorda, olhou, riu-se, foi ter com o gato e pum-pum-pum.

Quando chega ao luar, o gato vai para o telhado e começa a miar muito alto, tao alto que despertou a lua. E então a lua disse-lhe:

– Que se passa gatinho?

– O que se passa é que eu estraguei a amizade que o meu amigo tinha por mim só porque eu roí umas coisitas.

– Podes só ter roído umas coisitas mas essas coisitas tinham muita importância para ele.

A lua deu um conselho, ele fez e ficou outra vez amigo do menino. O gato miou muito, muito, a agradecer à lua, para ela ouvir.

                                                                                                                                                                                                                      F. – 9 anos

 A criança que escreveu esta história, publicada sem correcções de pontuação (as de g rafia o computador corrigiu-as com ele), desloca a sua vontade de fazer asneiras e confrontar quem lhe impõe as regras relativas ao arrumar o quarto, para um gatinho que ele sim, ele faz asneiras. Mas pisar o risco tem consequências e perde a amizade. E ele, o F. não quer perder o amor de seus pais, por muito que lhe apeteça desafia-los e não lhes obedecer. Com esta história ele encontrou uma forma de se dizer a si próprio que, mesmo pondo o pé em ramo verde, espera que quem dele gosta continue a gostar. Espera que o aceitem, mesmo com um lado “mau”, porque ele até quer ser um menino “bom”.

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