EDITORIAL – PENSAR, SONHAR – AGIR TALVEZ

Quando desistimos dos nossos projectos, quando decidimos ser realistas e deixar de sonhar, podemos continuar vivos, mas deixámos de existir, disse Mark Twain. A cabeça deve ser usada para pensar, mas há pessoas que são como os alfinetes – a cabeça não é o mais importante, disse Jonathan Swift. Por outras palavras o disseram, mas o sentido seria este. Estes dois escritores nasceram em 30 de Novembro e, por isso, os recordamos aqui. No dia 30 de Novembro de 1667 nasceu  Jonathan Swift, escritor irlandês. Em 30 de Novembro de 1835 nasceu Mark Twain, escritor norte americano. Ambos, sob o manto da fantasia e do humor, nos deixaram livros de uma grande sabedoria, lições de vida. Ambos são geralmente considerados escritores de livros para crianças.

As Viagens de Gulliver (Gulliver’s Travels, livro lançado em 1726, é uma obra-prima de humor subtil, mas crítico. À época ainda havia ilhas por descobrir e grandes partes do planeta eram mal conhecidas, o que permitia a esperança de que houvesse algures civilizações desconhecidas. Após um naufrágio, Gulliver dá à costa de uma ilha chamada Lilliput habitada por seres muito pequenos. A pequenez dos liliputianos, fúteis e arrogantes, não é inocente, mas uma crítica à mediocridade, à pequenez da sociedade britânica, enxameada de idiotas guindados pelo nascimento ou pela desonestidade a lugares privilegiados. Vai depois arribar a uma ilha de gigantes, Brobdingnag, onde a grandeza dos habitantes, constitui de novo uma crítica a uma Inglaterra e a uma Europa onde impera a pequenez, mergulhadas em guerras sem sentido. E nas duas viagens que completam o périplo de Gulliver, são já não só os ingleses, mas os seres humanos o alvo da crítica.

Mark Twain foi outro escritor que, tal como Swift, escolheu a via satírica para afirmar a sua maneira de ver o mundo. Tom Sawyer, um garoto, o herói de quatro obras do autor, é à sua maneira um Quixote que teima em ver o mundo, não como é, mas como ele entende que devia ser. Nos Estados Unidos do século XIX, numa pequena cidade das margens do Mississippi, toda uma filosofia de vida contrária ao sonho americano (que hoje se transformou num pesadelo mundial) é enunciada por Tom Sawyer que sobressai de um grupo de personagens magníficas,  Huckleberry Finn, o amigo e cúmplice de pequenas patifarias,  Sidney, o irmão, a bondosa tia Polly, a prima Mary…  Umberto Eco cita-o numa passagem de A Misteriosa Chama da Rainha Loana….

Mas, dirão – então isto é editorial que se apresente? O que tem isto a ver com a realidade dos nossos dias? Então a intenção de acabar com o Ensino Público gratuito, num claro convite ao abandono escolar, não são coisas mais importantes. Pois são. Falta-nos um Swift que satirize a  pequenez de governantes que, perante uma grave situação económica criada pelo esbanjamento, pela corrupção, pelo enriquecimento illícito de ministros, amigos e familiares de quem ascende ao poder para representar os eleitores, optam pela medida mais fácil – recorrer ao dinheiro de quem trabalha, de quem trabalhou uma vida…

Sonhar, pensar. Pensar num mundo sem coelhos, sem gaspares. Sonhar que é possível mudar a vida e transformar o mundo.

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