RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Os alemães desempregados são mais vulneráveis à pobreza do que os seus vizinhos

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Alemanha - III

Johanna Ritter, Le Monde

“Quando o meu filho precisou  de óculos, eu tive que me esforçar e de que maneira para os conseguir comprar com todas as minhas poupanças . Num ano  e meio, o seu tamanho aumentou de 34 para  43, o que contribuiu significativamente  para degradar  as finanças da casa. (…) ” Nessa altura ele nunca matava a fome .”

Excerto do relatório publicado em meados de Outubro pela  Conferência Nacional da Pobreza (Nationale Armutskonferenz, NAK) um grupo de associações alemãs, e este é um  depoimento anónimo de uma mulher de 45 anos de idade que nos dá uma inesperada  cara em contraponto da  imagem lisonjeira do  sucesso económico  alemão.

Esta mãe celibatária   recebe subsídio de  desemprego  no âmbito do plano Hartz IV (reforma do mercado de trabalho, adoptada em 2004), sendo esta uma das mais emblemáticas reformas feitas pelo chanceler Gerhard Schröder e que teria permitido à Alemanha  manter a sua posição de economia dominante na Europa   e de ter sucesso mesmo em  tempo de crise financeira

70% dos desempregados alemães ‘em risco de pobreza’

Os números publicados  recentemente pelo Eurostat, o Instituto Europeu de estatísticas, mostram  que os desempregados alemães são mais propensos do que os seus vizinhos s em caírem numa situação de pobreza . Mais de dois terços deles têm um rendimento inferior a 952 euros mensais ou seja menos de 60% do rendimento mediano em alemão.

Esta relação entre o rendimento de um indivíduo e o rendimento  mediano nacional permite que, na Europa, se  defina um indicador  de “pobreza relativa”.  Abaixo dos  60% do rendimento mediano, um indivíduo é dito  estar em “risco de pobreza”. Em 2010, a Alemanha estava à frente dos países europeus nesta matéria com 70% dos seus desempregados  em “risco de pobreza”, contra 45% em média na União Europeia e contra 33,1% em França.

Mas mesmo os trabalhadores que podem beneficiar de subsídios nesta  situação não são necessariamente capazes de escapar à situação de  pobreza, dada a ausência de salário mínimo  e dada a proporção importante  dos  empregos precários.

Em 2011, 330.000  activos a tempo pleno tinham necessidade de rendimentos complementares , previstas pela lei Hartz IV, sublinha a  Associação dos sindicatos alemães. Esta realidade coloca, segundo dados do Eurostat, 7,7% de pessoas empregadas em situação de  ” risco de pobreza”.

Utilização maciça dos empregos precários

O relatório do governo sobre a pobreza na Alemanha é esperado que seja publicado no  mês de Novembro, mas algumas das suas conclusões foram já relatadas pelos media alemães:  os autores  constatariam  uma ” distribuição muito desigual da riqueza privada”.

Em 2008, os 10% dos alemães mais ricos detinham  53% da riqueza do país, contra 45% dez anos antes. A metade mais modesta das famílias possuía  em 2008 apenas 1% da riqueza nacional privada.

No seu relatório, a NAK critica a política do governo e apela a um novo cálculo dos subsídios a serem concedidos através das leis  Hartz IV, que são, a título de  exemplo, de 374 euros por mês para uma pessoa celibatária no  desemprego. A NAK  também denunciou a utilização maciça de empregos precários, o que não ajuda nada,  segundo a NAK, a que as pessoas saiam da situação de pobreza . Esta organização chama ainda a atenção para a necessidade de implementar um salário mínimo assim como  para a necessidade de  igualdade de tratamento para os trabalhadores temporários.

Johanna Ritter, Les chômeurs allemands plus exposés à la pauvreté que leurs voisins,  Le Monde,  22.10.2012 .

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