NAQUELE TEMPO… – por Nuno Santa Clara*

*Mais um texto que transcrevemos do número 107 do REFERENCIAL, boletim da Associação 25 de Abril, ao abrigo de acordo que estabelecemos com a Presidência da Associação e com a Direcção do boletim. Um artigo, pleno de humor cáustico, da autoria do Coronel Nuno Santa Clara, um capitão de Abril, para o qual vão também os nossos agradecimentos.

… Petrus Cuniculus, Imperador de Roma  pela vontade da plebe, que o apoiara na tomada do  poder, estava inquieto. Imagem1

 A agitação nas ruas, desde o fórum até às insulae  e bairros periféricos, cavava-lhe profundas rugas  na fronte – aquela fronte que fora lisa e sombreada  por farta cabeleira, que fora a sua marca pessoal, e  que agora rareava, imagem sombria da falta de  apoio que se sentia por toda a parte, até nas mais  longínquas parcelas do Império.
Os senadores e tribunos mais chegados estavam  igualmente inquietos. As suas clientelas também  se agitavam e reclamavam, e até os mais fiéis se rebelavam.

– Quereis acabar com o governo das cidades, que  tanto trabalho nos deu a fundar e a construir? E os  edis das cidades rebelavam-se, maltratando os enviados  de Petrus Cuniculos e ameaçando com a  autonomia das províncias e a dissolução do Império.

 – Quereis acabar com o cultivo das terras, não comprando  o trigo para alimentar a plebe? E os proprietários  refugiavam-se nos seus latifúndios, vendendo  o seu grão fora do Império.

 – Quereis tornar Roma numa cidade de incultos?  Diziam os bons pater familae, vendo os bem educados  filhos dos patrícios partir para longes terras, em  busca de uma carreira que o Senado lhes negava.  – Como quereis que cobremos os impostos, se não  há nada para cobrar? Exasperavam-se os publicanos,  arrependendo-se de ter arrematado uma cobrança  que prometia ser ruinosa.
-Como podemos julgar as causas, se os vigiles não  trabalham, uma vez que não lhes pagam? Queixavam- se os pretores, também eles vítimas de perda  de rendimentos.

Apenas os dois cônsules, Herbatius e Antonius,  pareciam contentes. Representavam um grupo
restrito de grandes latifundiários, que pretendia  alargar ainda os seus domínios.  Mas os restantes membros do conselho não escondiam o seu descontentamento. Paulus Porticus,  que se dizia estar ligado aos cristãos, era um enigma;  ainda por cima, tinha boas ligações com os veteranos  legionários, cujo peso não era de negligenciar. Mesmo as matronas manifestavam o seu descontentamento , e entre elas Manuela Lactum, cuja língua afiada todos temiam.

Quanto ao Cônsul Supremo, não se podia contar com ele. Dizia-se que apenas pretendia terminar as suas funções e regressar à terra dos Cónios, nos confins da Lusitânia, onde tinha uma villa rustica, para lá se refugiar.

As legiões não escapavam à desmoralização geral. O pagamento andava atrasado, a compra de umas novas trirremes estava sob suspeita de compadrio, e a aquisição de umas inovadoras quadrigas de oito rodas (únicas no mundo então conhecido!) estava suspensa.

 A fúria das legiões não preocupava Petrus Cuniculus. Antecipando de séculos um célebre autor dramático britânico, escolhia para o guardar pretorianos gordos, que ressonavam de noite. Mas, para cúmulo, Januarius, o Sumo Sacerdote das Legiões, tomara o partido dos legionários e, como isso não fosse suficiente, manifestava a sua solidariedade com a plebe, com os artesãos, com os escravos, enfim com todos aqueles que, segundo Petrus Cuniculos e o procônsul das legiões, Josephus Brancus, Januarius não tinha nada a ver.

 Apertado por todos os lados, Petrus Cuniculus tinha pouca margem de manobra. Reuniu o Conselho e disse: há uma saída!
Todos se entreolharam, meio esperançados, meio descrentes. E que saída é essa, perguntaram. – Os bárbaros, disse Petrus Cuniculos. Eles têm montões de ouro, que vão acumulando com o saque dos povos do Império, e dinheiro que ganham vendendo bugigangas e maquinetas que vão produzindo – o que mostra bem a sua inferioridade. Um patrício que se preza não trabalha, e muito menos inventa coisas.

E agora é uma oportunidade para lhes pedir ajuda: os germanos quebraram a tradição, e caíram num regime de matriarcado, elegendo uma matrona como imperatriz. E, uma vez que é uma mulher que os governa, não podemos perder esta ocasião. E assim se fez. Cônsules, pretores, tribunos, constituíram uma embaixada ao país dos Alamanos. Expuseram os seus problemas, primeiro com sobranceria, até cair na humildade. Acabaram por aceitar as duras condições da matriarca Hanghela, mas tal não os impediu de, no regresso, festejar no fórum essa pretensa vitória.

E foi o fim do Império romano.

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