BRUXELAS NÃO ACEITA A POSIÇÃO DA BIC – por Renaud Honoré (LesEchos)

Uma curta nota sobre  Bruxelas, sobre a China, sobre a livre-troca

 

Não fumo, não compro isqueiros de pedra BIC. Não há, desse ponto de vista, conflito de interesses relativamente à  curta peça  que se segue em que se marca mais um passo na senda europeia de abater as protecções que o Tratado de Roma garantia à  Europa. Desta forma o velho continente vai lenta e lamentavelmente  perdendo indústrias atrás de indústrias, desindustrializando-se.  O exemplo dos isqueiros de que abaixo se fala poderá parecer irrelevante. Será que o é?

No ano passado e milimetricamente foi salva da voragem da livre troca a indústria de bicicletas de Águeda da concorrência chinesa ao manter-se uma taxa anti-dumping sobre a entrada de  bicicletas vindas da China e taxa na casa dos quase 50 por cento, mas face à argumentação  agora e abaixo exposta, esta indústria nacional foi salva até quando? Diremos mesmo que este caso mostra que em Águeda estaremos perante uma morte anunciada para a próxima renegociação  das taxas sobre bicicletas vindas directamente da China a não ser que os povos europeus  consigam  deitar abaixo esta Comissão, este Eurogrupo, consigam alterar a estrutura ou arquitectura da actual  União, consigam colocar as primeiras pedras para uma outra União.

Hoje os isqueiros, amanhã, as bicicletas, depois da amanhã a indústria de sapatos e assim sucessivamente. Em contrapartida,  com os seus ganhos, com os seus excedentes assim criados,   dar-lhes-emos em contrapartida a EDP ( quase toda?) a REN, as indústrias eólicas, os aeroportos, a TAP, não agora mas mais tarde, e ainda para um pouco mais tarde, quando arrasar a indústria automóvel da Europa, a Auto Europa e, quem sabe,  se a nossa bandeira também. De tudo já se viu que a Comissão Europeia é capaz e servidores do tipo Ahjoy (Rajoy) ,Passos Coelho ou outros terá ela então disponíveis. Por isso os sustenta, por isso os protege.

Dir-me-ão que estou a fantasiar, por exemplo quando se fala de sapatos. Talvez, mas a estes críticos lembro o dossier Weston, sapatos de 800 a 1000 euros fabricados em  França e copiados ao mais ínfimo detalhe, depois, na China.  Ou seja, a China já dispõe  de mão-de-obra de artesãos de grande qualidade criada possivelmente a partir da produção do sapato barato, é certo, mas agora capaz, portanto, de produzir sapatos já ao nível do melhor  que se faz no mundo, ao nível do que calçava o socialista Roland Dumas Presidente do Conselho  Constitucional de França, o homem do processo Elf-Acquitaine.

E para além do mais 2015 está perto, ano em que, em princípio, a União Europeia irá conceder à China o estatuto de país de economia de mercado a corpo inteiro, a partir do qual muitas das queixas que se falam agora à política comercial deste país ficam automaticamente anuladas.   

Esperemos para ver.

 

Júlio Marques Mota

 

Bruxelas não aceita a posição de  Bic e retira as suas taxas anti-dumping sobre os  isqueiros de pedra fabricados na China

Renaud Honoré, LesEchos

Eis pois o que deve alimentar ainda mais a raiva  de  Bic contra Bruxelas. A Comissão Europeia decidiu não renovar as medidas anti-dumping contra os isqueiros de pedra fabricados na China, de acordo com fontes próximas do processo.

Estabelecidas  em 1991, estas medidas consistiam  na aplicação de um imposto de  6,5 cêntimos sobre cada isqueiro de pedra fabricado na China ao entrar em território europeu.  Porquê decidir esta eliminação da taxa ?  O executivo da UE considera que a China “pode, talvez, continuar a fazer dumping no futuro “, disse uma fonte europeia. Mas, mesmo se o dumping persiste , será ainda necessário que  Bic faça prova de que isso a prejudicaria . Bruxelas acredita que não é este o caso, lembrando a saúde robusta da actividade do fabricante francês de  isqueiros (40% de margem).

Esta decisão, que deve ser formalizada em 12 de Dezembro, deve encher de cólera os dirigentes de Bic que tinham ameaçado o cancelamento de um investimento de dezenas de milhões de euros na fábrica Redon, em caso de retirada das taxas .

Renaud Honoré, LesEchos, Bruxelles désavoue Bic et retire les taxes antidumping sur les briquets chinois, | 27/11 | 07:00

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