É comum referir a incompatibilidade entre a ética e a política. Convicção não despida de alguma justificação, resulta mais da análise do comportamento dos políticos do que da interpretação da política, enquanto ciência ao serviço da vida dos homens em comunidade. ![10550902_MvCyL[1]](https://i0.wp.com/aviagemdosargonautas.net/wp-content/uploads/2012/12/10550902_mvcyl11.jpg?resize=179%2C179)
Fénelon, homem das luzes e de ideias arejadas face ao Estado absolutista do seu tempo, disse que “o objectivo da política é a felicidade dos homens, na qual o interesse particular coincide com o interesse geral”. Hegel, um século depois mas ainda condicionado pelo Estado absolutista prussiano, afirmava que “a política é a ciência da realização histórica da liberdade”.Duas citações – e evitei pensadores modernos que conferissem conotação ideológica ao conceito –que suportam a minha convicção de que não é a política que entra em conflito com a ética, mas o poder.
Fénelon completaa frase atrás citada dizendo que “a política identifica-se com a moral; a razão de Estado é uma doutrina perniciosa”.Jean-Pierre Lassale considera que “a política é, por excelência, o domínio da ambiguidade, é sinónimo de arranjos, de regateios, de compromissos, de combinações” e invoca Voltaire para se interrogar “que é a política senão a arte de mentir a propósito?” As suas depreciativas considerações sobre a política apontam para a área específica do poder, no pressuposto de que a política é a ciência do poder.
É impossível equacionar o divórcio entre ética e poder sem recorrer a Nicolau Machiavel e ao seu livro “O Príncipe”. Mas note-se, em abono da distinção entre política e poder, que o alvo de Machiavel é,mais do que a doutrina política, a prática do poder. Machiavel dizsem hipocrisia o que os homens fazem, não o que eles devem fazer.E o que diz Machiavel? Diz quea virtude de um governante “é estranha a qualquer preocupação ética vulgar”, porque há “independência completa da política em relação à moral”, uma vez que “os fins justificam os meios”. E diz quepara um governante “a hipocrisia se torna um dever”, agindo“sem grandes considerações à palavra empenhada ou a acordos estabelecidos”, pois “nunca lhe faltarão pretextos legítimos para justificar a sua falta de palavra”.
Este distanciamento do poder aos princípios éticos não é uma questão de pragmatismo, que até mereceria benevolência se, como preconizava Machiavel, face ao pântano intriguista da sociedade do seu tempo “o príncipe se identificasse com o povo e tivesse sempre em mira o bem público”.O problema é quea hipocrisia, a mentira, atributos que são pecados nos súbditos mas virtudes no príncipe, não visam o bem público mas o benefício da classe, do grupo, da pessoa que detém o poder. E aqui faz escola a frase de Alain, nosso contemporâneo,“o poder corrompe todos aqueles que dele participam”. Conceito mais recentemente reforçado por Laurence Wylie,“pode talvez ser-se virtuoso e ocupar-se da política, mas é impossivel continuar a sê-lo quando se chega ao poder”.
Transparece destas palavras muito desencanto e desconfiança face ao poder. Que acompanho.Cabe então perguntar, estaremos condenados à alternativa entre um não-Estado, a utopia da anarquia institucional e um poder amoral, para já não dizer imoral e à corrupção que ele fomenta?Penso que não.
A relação entre poder e cidadãos, o equilíbrio institucional, a emergência de novas sedes de poder, têm evoluído ao longo dos séculos e acumulado aperfeiçoamentos. E se o poder absoluto tende a agravar os vícios do poder, a democracia, por natureza e seja qual for o ponto de vista por que se encare,sistema de divisão de poderes tende, por isso mesmo, a atenuá-los.Só que a democracia está longe da perfeição, ou mesmo de se aproximar do estádio que o visionário António Sérgio preconizava,feita de tolerância e de senso prático, de refreamento e de disciplina moral.
Apesar de tudo acredito na democracia como via para conferir maior conteúdo ético ao poder, porque é o sistema que contém, intrínsecas, maiores potencialidades para o auto-aperfeiçoamento.
* * *
Este texto é adaptado de uma comunicação que apresentei em Abril de 1994 dedicado exactamente a este tema, Ética, Política e Poder e que, quatro anos depois, incluí num Editorial da revista O Referencial, da A25A. Pareceu-me oportuno recuperá-lo agora, quando predominam jogadas de baixa política e há óbvios sinais de desencanto entre os cidadãos, porque as grandes questões políticas, no plano interno ou externo, são objecto de negócios pouco transparentes, justificam o manobrismo de cúpulas, resultam de pequenos truques, desprezam a palavra dada e os compromissos assumidos.
Quando se desvalorizam e esvaziam quadros de referência os cidadãos sentem-se à deriva, perdem confiança e identificam a política com o reino do vale tudo.
No mundo da globalização, o poder, um poder errático, transnacional, gerido por tecnocratas sem rosto que ninguém elegeu, está cada vez mais longe dos cidadãos. QuandoAntónio Sérgio apelava para a necessidade dos eleitores, em democracia, participarem na fiscalização dos eleitos, alertava que “o princípio essencial da democracia é não nos fiarmos em quem governa”.
E que Sérgio era um homem de princípios e com preocupações éticas da política, isso ninguém ousa contestar.
10 Dezembro 2012
