–NO 105° ANIVERSÁRIO DE OSCAR NIEMEYER*
Este meu texto já estava pronto para a publicação quando fomos atingidos pela notícia do falecimento de Oscar Niemeyer às 21,55 da quarta-feira, dia 5 de novembro passado, quando o máximo arquiteto brasileiro vem a falecer no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro. Uma infecção respiratória que o levara à hospitalação provocou o desenlace, alguns dias antes que chegasse aquele 15 de dezembro de 2012, quando então todo o mundo festejaria o seu 105° aniversário. Mesmo diante de um tal imprevisto que magoa todos aqueles que amam a criatividade artística e a coerência de vida, como era próprio de Niemeyer, mesmo diante de um tal imprevisto decidimos manter a publicação do nosso artigo como ele fora concebido com Oscar ainda em vida. E temos a certeza que não cometemos um erro assim agindo, porque ele mesmo nos dá a certeza da correteza da nossa decisão, porque para o máximo arquiteto brasileiro, como ele mesmo afirmou, certo que a arquitetura é uma grande realidade da existência do homem, mas somente a vida é grande.
Assim o nosso texto segue como se a vida de Oscar Niemeyer não tivesse sido brutalmente interrompida.
Podemos encontrar sempre muitas manifestações italianas que demonstram uma constante curiosidade pelo Brasil e pelos brasileiros. Uma das últimas é a publicação neste 2012, pela editora Mondadori , de Milão, de um livro de Oscar Niemeyer: Il Mondo è ingiusto (L’ultima lezione di un grande del nostro tempo). O volume é o resultado de uma série de entrevistas realizadas nos primeiros meses deste ano com o grande arquiteto brasileiro pelo escritor e jornalista e escritor italiano Valério Riva.
Riva teve a feliz idéia de dar autononia às respostas do entrevistado, formando assim um volume diretamente de Niemeyer. Para mais ainda traduzir a complexidade constante das respostas, para adensar e esclarecer sempre mais as idéias enunciadas por Niemeyer, Valério Riva – grande conhecedor da vida brasileira por ter vivido no Brasil por muitos anos – algumas vezes se serve na definição final dos textos de Niemeyer, de anteriores correspondentes enunciações presentes em muitos números da histórica revista de arquitetura Módulo, nos seus muitos volumes publicados entre 1955 e 1978, bem como do livro do arquiteto veneziano, Lionello Puppi, Guida a Niemeyer (Mondadori, 1987).
Oscar Niemeyer (1907), com a sua valiosa longa existência, nos permite uma revisão de uma provocadora informação que nos acompanhava desde a infância, isto é, a notícia difundida em muitos textos de crônica e de história do Brasil, da longevidade dos índios habitantes da terra descoberta por Cabral e revelada inicialmente por Caminha. O fato de receber notícias de que eles atingissem com muita constância 110, 120 anos de vida, agora já nos parece muito mais possível, apesar de a contagem dos anos dos indígenas terem sempre sido feita, segundo as mesmas notícias, em luas… Mas, hoje, podemos esperar que tais fenômenos se repitam, com muitas e muitas novas luas, para com o arquiteto brasileiro.
Oscar Niemeyer, desde a sua juventude sempre se mostrou um intransigente marxista-leninista. E assim o é ainda hoje, como o confirma o seu atual O Mundo é Injusto. Mesmo diante de seus incontáveis sucessos, a começar de quando o jovem arquiteto carioca, depois do magnífico projeto, com Lúcio Costa, do Pavilhão brasileiro para a Feira Internacional de New York, de 1939, realiza no ano seguinte, 1940, o projeto que o consagrará para sempre, os edifícios ao redor do Lago de Pampulha, em Belo Horizonte, desejado pelo então também jovem prefeito da capital de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek de Oliveira. O gênio político de Juscelino se servirá sempre da colaboração da grande arquitetura criada por brasileiros, e assim poude surgir Brasília, em 1960, por obra do mesmo Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.
Desde a sua juventude, Niemeyer não muda jamais de ideologia política, bem como prossegue nos anos na criação de grandes projetos espalhados por todo o mundo. Destes vão recordados o projeto da nova sede do Partido Comunista francês, de 1965; em 1968, quando de sua estada em Algeri, o edifício da Biblioteca Nacional; neste mesmo ano, o magnífico projeto do palácio da editora Mondadori, em Segrate, Milão; 1972, o inovador projeto para o Centro Cultural de Le Havre. Esta longa cadeia de obras-primas assume como um seu ápice em 1991 com o belíssimo Museu de Arte Conteporânea de Niterói, o Mac, que da Cidade Sorriso, debruçada sobre as águas da baia de Guanabara, contempla a constante beleza da Cidade Maravilhosa, Rio de Janeiro. E aqui, mais que em qualquer outro momento, Niemeyer une a arquitetura à água, confirmando o que ele afirma, quase com ingenuidade, que a presença do elemento água nos seus projetos deriva da sua convicção que mais do que qualquer outro elemento, a água reflete a arquitetura. Digo que se pode receber como uma ingenuidade expressiva tal afirmação porque recordo quando por muitos anos eu me deixava estar com o meu gato Mino diante das águas noturnas de Veneza a contemplár, com os seus olhos fixos, a beleza dos palácios improvisamente liquidificados e adornados pelos reflexos das muitas estrelas.
Oscar Niemeyer começa o seu livro italiano, na sábia organização de Alberto Riva, com uma recordação da infância quando, conta ele:
“Desenhavo sem lapis e sem papel. Desenhavo no ar, com uma das mãos levantada.
Minha mãe me perguntava:
E eu respondia:
A partir daí, Niemeyer passa a exprimir o seu mundo de coerências. Uma coerência moral que se fez desde sempre política. E que soube aliar a esses valores tantas vezes desprezados, a estética. Para Niemeyer, moral e beleza vivem sempre em estreito contacto.
O pensamento niemeyriano se desenvolve em muitos capítulos de pequenas dimensões, porém densos e de grande força de síntese. Os títulos de muitos deles revelam a melhor natureza do grande arquiteteto brasileiro: ”La fantasia è” , no qual encontramos conceitos pungentes, como:
E ainda: “La maggioranza con cui dobbiamo stare”; “Cosa vogligamo? Cambiare la società”, “La bellezza serve”, “Inventare il futuro”, “104 anni”: Penso, em definitivo, que a vida seja uma experiência que se vive contra o mal, contrastando o mal.
Como se faz? Fixando uma série de princípios.”
Diante do seu longo percurso de vida, Oscar Niemeyer encontra a serenidade de confrontar-se mesmo com a idéia da morte:
“Na minha idade, a liberdade continua no lugar em que sempre foi situada, na cabeça; na cabeça começa tudo. Apesar do sentimento da saudade e da consciencia da brevidade da vida, acredito que a felicidade seja conduzir uma vida solidamente presa aos próprios ideais e circundar-se de amigos.”
Com a leitura da última obra do grande arquiteto brasileiro quero igualmente festejar neste 15 de dezembro de 2012, e com grande alegria, como está acontecendo neste momento no Brasil e em muitas partes do mundo, os cento e cinco anos do artista que soube dar sólidos pilotis à capacidade de criação do brasileiro.
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* No próximo dia 15 de Dezembro, dia em que Oscar Niemeyer completaria 105 anos, prestaremos uma homenagem ao grande arquitecto brasileiro, dedicando-lhe uma parte da nossa edição.
