A dois meses do golpe sidonista, é noticiado o adiamento sine die do julgamento de Machado Santos.
Em meados de 1917 a agitação social era muito grande, verificando-se, sobretudo nas cidades, assaltos a estabelecimentos. A 4 de Dezembro de 1917, Afonso Costa publicou um decreto concedendo à Administração dos Abastecimentos o exclusivo da venda do milho e do trigo.
Durante a guerra a impopularidade de Afonso Costa, a nível interno, não deixou de aumentar, nomeadamente entre as massas urbanas, que eram as que mais sentiam as carências provocadas pelo conflito. Por vezes o descontentamento popular manifestava-se com particular violência, verificando-se elevado número de mortos e feridos.
Quarta-feira, 5 de Dezembro de 1917. Golpe de Sidónio.
Eram 19 horas quando os canhões começaram a troar no Parque Eduardo VII. A hora escolhida por Sidónio Pais para iniciar a acção apanhara de surpresa a população da capital e o próprio Governo, que leva tempo a aperceber-se da gravidade da situação e a reunir as forças com que contava para a enfrentar.
Estava dado o golpe!
A população procura chegar às suas casas rapidamente, apinhando os eléctricos e tudo o que possa transportar. Os que não o conseguem refugiam-se nas escadas dos prédios, nos postos da Cruz Vermelha e nos quartéis dos bombeiros. No quartel dos Voluntários do Largo do Barão de Quintela acolhem-se centenas de populares, que não arriscam a pele no meio do tiroteio e do bombardeamento que se faz sentir.
Na madrugada do dia 6, Sidónio tinha já ao seu lado, no Parque Eduardo VII, cerca de 1500 homens, contando com uma apreciável força de artilharia e apostando no denodo dos seus cadetes.
Para combater estas forças, o Governo contava com cinco das doze unidades do Exército da capital, com a GNR, com a Marinha, com a Polícia e com a Guarda-Fiscal. Ainda tenta ordenar às tropas de Santarém e de Mafra que avancem sobre Lisboa; porém, os telégrafos só transmitem telegramas favoráveis a Sidónio e as forças de Mafra, quando chegam à capital, juntam-se aos revoltosos que estavam na Rotunda.
Nos dias 6 e 7, os combates prosseguem com intensidade. Sidónio Pais continua a receber reforços de unidades que, em princípio, se destinavam a sufocar o seu movimento. Desta vez, é a Artilharia de Queluz e um esquadrão de cavalaria, comandado pelo oficial Sá Guimarães, que se colocam facilmente ao seu lado.
Para o Governo, a situação começa agora a ser quase dramática. À medida que o tempo passava, não só não conseguia dominar a revolta de Sidónio Pais como encontrava cada vez mais dificuldades em organizar a sua própria defesa.
No Arsenal da Marinha, onde o Governo instalara o seu Quartel-General, podem ver-se o general Norton de Matos, ministro da Guerra, e o chefe da Divisão Naval, Leote do Rego, em situação já desesperada.
Com o plano de ataque reduzido à concentração dos combates no Largo do Rato, as forças governamentais sofrem pesadas baixas ao fim de cinco horas de luta. No chão jazem cerca de 160 mortos e mais de 700 feridos,
A Revolução de Sidónio tinha já lugar certo na História.
A luta tinha sido dura, é certo. Ao todo, cerca de 350 pessoas perderam a vida nestes três dias de combate. O golpe de Sidónio passa a ser um dos mais mortíferos de toda a História portuguesa.
Na madrugada de sexta-feira, dia 7, a cidade estava praticamente nas mãos das forças comandadas por Sidónio Pais. Os jornais mal apareciam, vinham censurados na totalidade e apenas O Mundo conseguia dar nota do alento do Governo.
Acabava a República de 1910. Ia começar uma outra República.
«Cidadãos! Venceu a República contra a demagogia. É, pois, indispensável que todos os cidadãos regressem às suas honestas actividades, sendo, cada um, um elemento de ordem.
A Revolução teve em vista restaurar a Justiça e o Império da Lei e, sendo feita contra a desordem do Poder, ela deseja a tranquilidade e o trabalho, e, tendo autoridade moral para conseguir estes elementos de paz nacional, tem força para os tornar efectivos.
Cidadãos! A Revolução é feita em nome da Liberdade, exige calma nos espíritos, respeito pela vida e propriedade alheia e confiança na autoridade.
Viva a Pátria!
Viva a República!
Lisboa, Parque Eduardo VII, 8 de Dezembro de 1917.
O comandante das Forças Revolucionárias, Sidónio Pais.»
Era assim que Sidónio Pais apresentava a sua revolução ao País, três dias depois de ter iniciado a sublevação militar que o iria conduzir ao poder.
Desta vez não se iria tratar de mais um pronunciamento contra a situação estabelecida (o oitavo ou nono desde que a República tinha sido implantada, em 1910), mas de algo mais profundo. Algo que até então não tinha acontecido nesta terra e, talvez mesmo, na desenvolvida Europa.
Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais não era propriamente um desconhecido.
Ainda que o seu nome não andasse muito na boca do cidadão comum, Sidónio Pais fizera parte de dois dos primeiros Governos da República e exercera, até meados de 1916, as funções de ministro plenipotenciário em Berlim regressando a Lisboa, com a declaração de estado de guerra entre Portugal e a Alemanha, sendo então colocado como alto funcionário no Ministério dos Negócios Estrangeiros, e isto era já o suficiente para lhe conferir uma certa dimensão pública.
Tinha agora, em Dezembro de 1917, pouco mais de 45 anos. Sabia não ser esta a idade mais indicada para ser aceite como o mais alto magistrado da Nação. No fundo, não passava de um modesto major do Exército e, além do mais, os republicanos não pareciam estar muito interessados em verem a República vestida de farda militar.
Sábado, 8 de Dezembro. Tropas de cavalaria cercam o Grande Hotel do Porto, onde se encontrava Afonso Costa, que é detido. Afonso Costa regressara de Paris em pleno golpe sidonista. Dormindo dia 6 em Coimbra, a pedido do governo foi para o Porto e aí preso. É transferido para a Trafaria e, mais tarde, para o forte da Graça em Elvas.
Segunda-feira, 10 de Dezembro de 1917. Bernardino Machado, o Presidente da República eleito, é preso às ordens da Junta Revolucionária e depois forçado a abandonar Portugal, indo fixar residência em França.
Sexta-feira, 21 de Dezembro. É publicado o decreto n.º 3673, que modifica o quadro do pessoal da polícia de investigação de Lisboa. O artigo 2 cria na Polícia de Investigação um corpo de polícia preventiva com um chefe e 40 agentes, que constitui o embrião de uma verdadeira polícia política.
