EDITORIAL: A ECONOMIA E O SENSO COMUM

Diário de Bordo - II

 

Todos os dias, pode-se dizer que a quase todas as horas, até quando dormimos profundamente, a economia vem interferir com as nossas vidas. Os pensadores, os teólogos, os políticos proferem frases, textos copiosos, ditos variados sobre o assunto, umas vezes mascarados de princípios moralizadores (como os relativos a um suposto viver acima das possibilidades em que teria incorrido a população em geral; só falta porem-nos a bater com a mão no peito), outros revestidos de termos e formulações tão sofisticados que nos querem convencer só estarem ao alcance de uns poucos eleitos (pela divina providência, não pelo povinho). Enchem a televisão, assaltam os jornais, e depois ainda temos de pagar para os ouvir e para os ler.

Há já umas dezenas de anos, pouco tempo depois do 25 de Abril (mas também do 25 de Novembro), numa rua de uma terriola nos arredores de Lisboa, falavam alguns indivíduos sobre a melhor maneira de orientarem as suas vidas. Pessoas com alguns haveres, dedicavam-se sobretudo ao pequeno comércio. Após várias ideias avançadas, umas cervejas mais adiante, um deles, à laia de conclusão, proferiu o seguinte:

― É que, como isto está, quem tem quatro mil contos no banco, mais vale tê-los a prazo do que andar a matar-se a criar uma pequena indústria ou outro negócio qualquer. Arrisca menos e tem uma vida mais descansada.

Não explicou se tinha os quatro mil contos, ou se tinha algum negócio em mente. A taxa de juro dos depósitos a prazo na altura parece que estava um pouco alta, ao que diziam. E o resto do grupo concordou, com ar sério.

Há dias, apareceu por aí nos jornais mais um artigo, escrito com certeza com a melhor das intenções, e provavelmente com bastante exactidão, a afirmar uma coisa muito simples: um dos obstáculos à saída da grave situação em que nos encontramos é a enorme quantidade de capitais empatada no campo financeiro, e que faz falta no investimento produtivo. Nós podemos acrescentar: o facto de maioria desses capitais estarem concentrados em poucas mãos agrava extraordinariamente o problema. E aquele pequeno e modesto grupo que, já lá vão anos, falava nos arredores de Lisboa, tinha uma noção bastante clara do assunto. Julgo que nenhum deles chegou a ministro das finanças, também é verdade.

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