UTOPIA, PRECISA-SE…! – 2 – por Manuel Barbosa Pereira

 (Continuação)

ORGANIZAÇÕES HUMANAS

 O conhecimento desta relatividade universal não reduziu contudo, a terráquea realidade à sua modesta dimensão. Apesar das capacidades quase ilimitadas de produção dos bens e serviços essenciais – conquistadas com a revolução científica/tecnológica em todos os domínios – a desigualdade e a exploração não foram erradicadas do planeta nem a auto-suficiência material global logrou acabar com as crises e conflitos permanentes que sempre as sustentaram. Ao invés, assistimos hoje ao reforço, sem paralelo na História, das oligarquias monopolistas que desviam e delapidam sem cessar recursos incalculáveis, indiferentes à exaustão crescente do planeta e à miséria extrema de mais de metade da humanidade.

 Minorias que controlam os poderes fácticos – financeiro, económico, político, judicial, mediático… – que roubam todos os dias o Futuro às novas gerações. Uma teia desumana, laboriosamente tecida pelos sumo-sacerdotes da acumulação que só reconhecem os humanos na condição de consumidores ou contribuintes! Um poder perverso concentrado em poucas mãos que fabrica necessidades artificiais e ameaças reais, para lucrar a seguir nos meios para satisfazer umas e aniquilar as outras. O caminho que ditou o retrocesso do homem à autêntica servidão feudal… Impensável no século XXI d.C!

 Um poder dantesco que não hesita em provocar guerras milionárias de destruição para impor contratos bilionários de “reconstrução” e saquear as riquezas dos vencidos. Um poder acima de todos os Estados, ancorado que está num sistema financeiro global tentacular que controla todos os recursos e todas as mentes através do embuste porventura mais clamoroso da história das civilizações. Uma fraude gigantesca que despojou os Estados e transferiu para bancos (privados) apelidados de “centrais”, o monopólio da emissão da moeda mundial. Massa monetária (quase toda virtual), logo transformada por um golpe de mágica em dívida (pública e privada).

 Dívida colossal – perpetuamente em expansão – acrescida que é por elevados juros/serviço anuais que geram lucros agora trilionários, multiplicados que são ainda na voragem da especulação bolsista manipulada pelas agências de rating às ordens do sistema. Uma prática aterradora que devolve a maioria dos homens ao ciclo original da luta pela sobrevivência e lhes consome a energia e a esperança, adiando sempre a felicidade possível. Seguros da impunidade,os autores de tais crimes – no tempo real onde se esgotam todas as vidas – ou adormecidos outros na quimera das recompensas após a morte, o homem esqueceu os objectivos comuns que geraram as suas organizações ancestrais e consentiu nas armadilhas monetaristas que o reconduzem agora de novo à escravidão. Qual avestruz para não olhar as estrelas, age como se o futuro se jogasse no quintal.

 Se a razão sugere assim que o homem, tão só, nada tem a ver com a origem e finalidade do Universo; se a razão tende a recusar que o ciclo biológico da vida se possa renovar sem limites e constituir um fim em si mesmo; a mesma razão parece também excluir que seja outra – que não o Homem – tanto a origem como a finalidade das organizações por ele criadas. Consciente ou não de objectivos mais longínquos ou transcendentes, é de facto nas suas organizações temporais que realiza a vocação social e pode aplicar as suas opções de cidadania. É nelas que aperfeiçoa as aptidões e pode contribuir com a inteligência e convicções pessoais para alcançar dignidade igual na sua espécie e encurtar o compasso de espera para visar voos mais altos… As organizações humanas têm sido, na verdade, alavanca insuperável para potenciar os esforços individuais e concretizar projectos cada vez mais ambiciosos. Para o bem e para o mal, elas têm-nos dado de tudo.

 Dos pesadelos de Hiroxima e Nagasaki às radiosas incursões no futuro que a revolução tecnológica/científica e a exploração do espaço nos oferecem todos os dias. Dos clãs primitivos aos estados modernos; das oficinas medievais às transnacionais do presente; das crenças primitivas às seitas e religiões actuais; dos exércitos irregulares aos modernos complexos industriais/militares… as organizações humanas com efeito, não pararam de evoluir. Tanto na estratégia como no modus operandi.

Detentor de capitais ilimitados por via do monopólio do fabrico do dinheiro e do esquema da dívida, não foi portanto difícil ao sistema financeiro imperial dominar as demais organizações – incluindo Estados soberanos – e impor o modelo de desumanização e empobrecimento em curso no planeta. Adquirido

passo a passo o domínio imprescindível da comunicação social, seguiram-se os restantes factores estratégicos com crescimento exponencial na era da globalização: participações cruzadas, parcerias estratégicas, SGPSs, paraísos

fiscais, deslocalização de indústrias e sedes fiscais, desregulação de bancos e bolsas, legislação “à medida”… Daí o crescimento ao mesmo ritmo de vectores operacionais como: a especulação bolsista; evasão fiscal; branqueamento de capitais; enriquecimento ilícito; burlas e saques “legais”; privatizações a preços de saldo, ajustes directos, tráfico de influências… Do crime organizado em geral e do colarinho branco em particular.

 Entre os sistemas organizacionais mais complexos e vitais neste processo de verdadeira destruição civilizacional, avulta o domínio dos Estados modernos através da captura ardilosa ou nomeação directa (sem eleições) dos seus dirigentes. Integrem esses estados subsistemas regionais ou sejam eles integrantes dos diversos supersistemas existentes já dominados por esta via, como acontece nas diversas instituições da União Europeia, no FMI, no BM… Domínio vital porque se apropria da legitimidade formal para implementar os habituais programas de austeridade cruel e saque generalizado. “Legitimidade”

que confere acesso directo aos recursos e “activos” dos países e das  populações e garante a impunidade através do exercício da autoridade “legal” dos poderes executivo e legislativo, do poder judicial e do comando das forças de segurança. E no limite, o comando directo das forças armadas sempre que os restantes poderes se revelem incapazes de se impor aos Povo salvo reféns dos sinistros programas de austeridade.

 Reconhece-se, obviamente, que a visão do mundo (e do país) atrás aflorada está longe de ser animadora. Especialmente para aqueles que assumem o mesmo inimigo e sentem a mesma premência dos combates para o derrotar. Visão que não será ainda partilhada pela massa crítica de cidadãos do mundo que é imprescindível para derrubar o poder tremendo que sustenta esta o planetária. O mesmo se passará com os patriotas até agora ausentes nesta guerra sem quartel que é movida contra a esmagadora maioria dos portugueses. No extremo oposto, estarão aqueles que negam a existência da ameaça, reduzindo – a – por conivência ou cumplicidade – a meras fantasias das teorias da conspiração.

(Continua)

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