CANÇÕES DE INTERVENÇÃO – “CANÇÃO PARA MARIA” – de Francisco Fanhais e Carlos Loures

 

O  poema de Carlos Loures em que Francisco Fanhais baseou a sua Canção para Maria, faz parte do  livro A Poesia Deve Ser Feita Por Todos (1970.  Foi escrito no presídio do Reduto Norte de Caxias no Inverno de 1968, dedicado a sua mulher – Queria um país de sol para te dar. Francisco Fanhais musicou-o e ainda hoje o canta com frequência. Há uma história interessante relacionada com este poema, para além do facto das circunstâncias em que foi escrito e da forma como, com muitos outros textos, saiu com o autor, quando foi posto em liberdade, após quase sete meses de cativeiro – dentro de sapatos, entre a palmilha e a sola: Francisco Fanhais antecedia a canção contando sempre que Carlos Loures uma tarde dissera para a mulher: «até logo!» e que voltara passados sete anos. Quando, em 1985 Loures e Fanhais se conheceram pessoalmente, o equívoco foi esclarecido. Na gravação que vamos ouvir, feita em 1976 no Teatro de São Luiz, em Lisboa, Fanhais ainda conta a versão dos sete anos. Há uma outra gravação, cantada a capella por Eduarda Rabaça, num disco gravado, também em 1976, na ex-RDA.

 

http://www.youtube.com/watch?v=ppFLBlsNWkY&feature=player_embedded

Queria um país de Sol para te dar,

com amantes e crianças nos jardins,

pássaros livres a cantar nas árvores

e a luz em liberdade pelas ruas

– as coisas nos lugares onde as sonhámos

e não nos sítios onde estão,

com armas aperradas a guardá-las.

Um país onde sulcássemos as límpidas manhãs

com sorrisos claros vestindo as faces.

Um país sem muros, sem medo

nem carimbos nas cartas que escrevemos

e ouvidos nas palavras que dizemos,

em segredo.

Mas, meu amor, nascemos cedo,

chegámos ainda a tempo de viver

este tempo que vivemos

com lágrimas ocultas no sorriso,

a raiva escondida nas carícias

e uma secreta esperança aprisionada

nos nossos corações aprisionados.

Viemos ainda a tempo de sofrer

Este tempo que sofremos

dia a dia e que sulcamos,

com os beijos vigiados,

com os nossos segredos desvendados,

com este amor amputado e prisioneiro

com que amamos.

Meu amor, não desertemos

Do tempo e do país em que nascemos

(e viver outro tempo dentro deste

ou estar fora do país

dele não saindo,

também é desertar).

Já que foi este o tempo que nos coube,

já que foi este o país que nos deixaram,

temos de conquistar o Sol que os ilumine,

roubando-o ao silêncio e à mordaça

que nos sufoca a voz – Não desertamos

– o ódio, o medo, a morte

que fujam, que desertem

se o amor os insulta e ameaça.

– Nós ficamos!

Com ao companheiros

e o amor dos companheiros,

o amor será mais forte

do que o ódio, do que o medo, do que a morte.

A luz também se constrói com os nossos beijos,

com as palavras clandestinas que escrevemos,

aquelas que a opressão não vê nem ouve.

A luz também se constrói com os nossos filhos,

eles tingem de luz nova

as sombras que com ódio vêm pôr

entre as carícias, os beijos e as palavras.

Neles se erguerá a luz para amanhã

e a liberdade prisioneira nos nossos corações

inundará de Sol as ruas,

meu amor.

3 Comments

  1. Una interpretació frapant, emotiva, extraordinària… De vegades escoltar una cançó o un poema no és una activitat intel·lectual, sinó una experiència, un fet viscut. I aquest és el cas, i per partida doble, tant pel poema com per la interpretació. De vegades, un sol poema és suficient per mostrar la vàlua d’un poeta. I basta aquest poema per acreditar que Carlos Loures és un poeta extraordinari. De vegades, també, un sentiment és suficient per acreditar la solidesa ètica d’una persona, i aquesta “Canção para Maria” n’és la demostració més fefaent.
    I si ens limitem només als valors literaris -suposat que la literatura pogués separar-se de la vida, convicció que no comparteixo, “Canção para Maria” és un poema perfecte. Un d’aquells poemes que qualsevol bon poeta hauria volgut ser capaç d’escriure. Fer-ho, però, no està a l’abast de tothom, perquè no n’hi ha prou amb els valors literaris, perquè és un d’aquells poemes que neixen de la confluència entre el saber, el sentir, i el viure.

  2. Gran poema. Gran canción. ¡Qué poetas, qué cantores, qué personas admirables en aquel amordazado Portugal! ¡Cuánto os admiro! Y con cuanto orgullo me honro con la amistad de Carlos Loures, gran poeta, gran narrador, extraordinario hombre de la cultura y de la libertad. Um abraço. Moisés.

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