Há muito tempo, em Cacilhas, disse-me o Romeu Correia:
– Fernando, sempre desejei escrever contos, romances e peças teatrais. Por amor, em 1941 casei com a Almerinda. Hoje, quando me sobra tempo, não paro de forjar enredos. Infelizmente, em Portugal, o único escritor que consegue viver da própria escrita, é o Ferreira de Castro.
– E talvez o Aquilino.
– Sim, talvez… Esses dois e mais ninguém. Para não morrer à fome, para além da escrita tive que fazer outras coisas.
– Eu sei, trabalhaste no circo e fizeste jornalismo desportivo.
– E não só. Também fui bancário.
– Essa não sabia eu.
– Comecei como cobrador do Banco Nacional Ultramarino. Lembro-me que uma vez fiz uma cobrança de centenas de contos, em dinheiro. Cheguei a casa e a Almerinda estava a dormir. Espalhei todas as notas em cima do seu corpo. Acordou mas pensou que ainda estava a dormir. Esfaimados que nós andávamos, todo aquele dinheiro assim à mão, só podia ser um sonho maravilhoso…
Gargalhadas. Demos um abraço e despedi-me. Ao regressar a Lisboa, de barco, eu não parava de rir ao recordar o sonho da Almerinda. Os outros passageiros até pensaram que eu era maluquinho…