Por motivos profissionais em 1975 estou na Cidade da Praia, em Cabo Verde. Ali, numa vivenda da Marginal, reencontro o Vasco Cabral, guineense e meu velho amigo desde Lisboa. Pergunto-lhe como é que fora assassinado o Amílcar Cabral, presidente do PAIGC e que eu também conhecera em Lisboa. Apesar de renitente, conta-me o Vasco que um grupo de ex-guerrilheiros, controlados pela tropa colonial e pela PIDE, assaltara a sede do PAIGC na Guiné-Conacry, matara o Amílcar e preparava-se para matar outros dirigentes como o Aristides Pereira, o Pedro Pires e o próprio Vasco, quando Sekê Touré, presidente da Guiné-Conacry interviera e frustara a tentativa. Pergunto depois se o bando de assassinos tinha sido caçado e justiçado. Responde-me o Vasco, agoniado:
– Não quero falar disso.
E não fala, ponto final. Mas não desisto. No fim de tarde, ao regressar à vivenda na Marginal, puxo para o pátio o Mário Pinto de Andrade, angolano e também meu amigo. Peço-lhe que me explique a agonia do Vasco. E ele explica ou tenta explicar:
– Fernando, tu não sabes o que é a luta armada. Nem podes imaginar o que é ser traído por antigos companheiros de armas, a pretexto do tu seres cabo-verdiano e eles serem guineenses.
– Compreendo, ou tento compreender. E o Vasco caçou os assassinos?
– Todos.
– Quantos eram?
– Mais ou menos cinquenta entre matadores e cúmplices. Caçou e executou ou mandou executá-los. É por isso que ele anda sorumbático, porque cada um dos executados tinha sido seu companheiro de armas, portanto tinha sido seu amigo. Compreendes?