Parecendo partilhar do ponto de vista de Salazar, no ano seguinte o republicano Ezequiel de Campos publica na revista A Águia um texto com o título «O maior problema» e onde se lê:
«O ressurgimento português – fazer de uma turba irrequieta de pedintes um povo feliz – resume-se a uma questão de produtividade.
O trabalho em Portugal rendeu sempre pouco; ultimamente rende cada vez menos: por isso tudo se vai tornando cada vez mais escasso e mais caro.
[…]
O Estado, que desarranjara pela mobilização a vida de tanta gente, lançava à conta dos laboriosos a sustenção desses e doutros desocupados; e as revoluções criaram novas camadas de tutelados do Estado que a prolixa e insensata legislação em ditadura e semiconstitucional arrumava no Orçamento.
Quer dizer: as camadas parasitárias da grei cresceram desmedidamente a partir do começo da guerra, aumentando em necessidades por viverem à custa do labor alheio e não do próprio. Assim duplamente diminuíra a produção nacional.
E, por outro lado, a febre do descanso e do gozo das economias alheias acumuladas, manifestada no mínimo de horas de trabalho e no máximo salário, contribuíra também poderosamente para agravar a diminuição do rendimento de produtos por habitante, e por isso para a carestia de vida.
[…]
A pequena produtividade provoca cada vez maior desarranjo nas percentagens de gente nas profissões: todos heróis do rancho, todos bacharéis em letras e tretas, ciências, artes e ofícios, todos burocratas, todos comerciantes de carreira ou milicianos, todos revolucionários, porque cada revolução é um sorvedouro aberto no Orçamento, todos ministros, porque o Poder é farta cornucópia para os amigos, ao menos…
É possível que isto não leve a uma vergonhosa falência financeira, prelúdio da falência nacional.
Não tenhamos ilusões: o mal profundo da vida portuguesa não se cura com paliativos: leis que só dão encargos; empréstimos que só avolumam deficits; impostos que só anemiam a riqueza; protecção pautal que só esteriliza o solo, enfraquece a indústria e afugenta a grei; emissões de estamparia que nos afundam as finanças; um exército que devora quase toda a receita pública, para nem fazer conquistas, nem assegurar a ordem, por ser em demasia; uma burocracia desorganizadora da Administração por excessiva e ronceira…
É necessário fazer já, já, uma revolução profunda no modo de vida nacional.
Em conclusão: urge diminuir até ao mínimo possível a parasitagem da grei; nacionalizar é intensificar o trabalho de aproveitamento dos nossos recursos naturais; fixar população, especialmente a valorizar a terra larga dos pousios; desviar para a produção útil os que tenderiam ao parasitismo; infundir, por uma educação prestável e continuada, previdência, persistência e economia à nossa raça açodada e sôfrega de alcançar num momento a riqueza pelo jogo de azar. – Há por aí uma dúzia de homens para isto?»
O problema das subsistências era de tal ordem que Sidónio Pais tinha nomeado para a pasta das Subsistências e Transportes o ministro Machado Santos que, em 20 de Abril, instituiu os celeiros municipais.
Por outro lado, o trabalho de Salazar era de tal vulto, que chegaria às bancadas da Câmara dos Deputados pela voz do deputado católico Almeida Correia que, na Sessão de 31 de Julho de 1918, aborda o problema das subsistências argumentado com a eloquência que aqui se transcreve conforme O Diário da Câmara:
«O Sr. Almeida Correia: – Sr. Presidente: é velha praxe que os Deputados que pela primeira vez usam da palavra nesta Câmara dirijam a V. Exa. uma saudação; eu, porém, sinto-me dispensado de cumprir essa praxe – aliás gratíssima para mim – porquanto o ilustre Deputado Sr. Pinheiro Torres, líder da minoria católica a que pertenço, já nesta casa do Parlamento saudou a Presidência, manifestando-lhe o seu respeito e consideração em termos que traduzem precisamente o que todos nós sentimos.
Sr. Presidente: pedi a palavra para expor a V. Exa. algumas considerações sobre um problema que, na situação que o pais atravessa, se mo afigura o mais grave de todos, em certos pontos de vista, mesmo mais grave que o problema da ordem pública: quero referir me ao problema das subsistências.
Sr. Presidente: apraz-me desde já dizer a V. Exa. e à Câmara as razões que me levaram a usar da palavra, antes da ordem do dia, sobre este assunto, porque pode talvez parecer estranho que seja um eclesiástico que venha ocupar-se dum problema desta natureza. A minha profissão indicaria talvez que eu me devesse ocupar antes de assuntos de ordem moral, deixando aos meus colegas leigos o cuidado de tratarem questões tão materiais como a das subsistências; mas eu estou convencido do que não saio dos bons princípios nem me afasto das tradições da igreja católica ocupando-me deste assunto.
A doutrina católica – tenho muito prazer em dizê-lo aqui – é uma doutrina integral, e por isso ela não pode deixar de atender todas as necessidades e interesses sociais.
V. Exa., Sr. Presidente, e a Câmara, devem certamente saber que os Evangelhos dizem que o homem não vive só de pão. E se há alguém que ligue a esta frase a ideia do desinteresse da Igreja pelas cousas económicas, eu devo fazer aqui a afirmação de que é todavia lícito concluir que sem o pão ninguém poderá viver.
De resto, Sr. Presidente, é o próprio interesse religioso e moral que exige que nós, os eclesiásticos, também cuidemos das questões económicas e nos preocupemos com o melhoramento das condições materiais da vida do povo, pois está reconhecido – e eu muitas vezes o tenho verificado – que se não pode pregar religião, nem moral, a estômagos famintos. (Apoiados).
Todo o homem que não possui o indispensável para viver é, no fundo, um revoltado e V. Exa. sabe que, para se ser habitualmente virtuoso e disciplinado, é necessário possuir-se um mínimo de bem-estar, não se podendo manter hábitos de ordem e de disciplina num povo a que falte o pão de cada dia. E, por isso, Sr. Presidente, é minha convicção profunda, adquirida há muito e cada vez mais radicada, que o Governo Português não poderá nem manter a ordem pública, nem. pacificar a família portuguesa, nem realizar a obra de reconstrução nacional, não poderá – numa palavra – governar, se não conseguir resolver ou, pelo menos, atenuar a crise das subsistências.
Mais do que propriamente às discussões políticas de carácter constitucional, mais do que aos debates sobre se deveremos ficar no parlamentarismo ou passar para um presidencialismo rígido ou moderado, questões estas teoricamente muito apreciáveis, mas praticamente secundárias, eu entendo que o Governo e o Parlamento devem dispensar a sua melhor atenção às questões económicas e, especificadamente, ao problema das subsistências, ao qual, como disse, está ligado o problema da ordem pública (Apoiados), sendo necessário darmos ao povo a garantia de que nos esforçamos por afastar a ameaça da fome que já o desorienta.
Não há muito tempo que um antigo Ministro de Estado, que é um ilustre homem público que se continua interessando pelo seu país, me contara que, viajando num carro eléctrico, ouviu dois empregados da respectiva companhia criticar a actual crise com palavras reveladoras da onda revolucionária que alastra no subsolo da sociedade portuguesa. Esses dois homens diziam assim: «Enquanto eles, os argentários, os açambarcadores, enchem as burras, nós vamos enchendo as covas dos cemitérios, mas a hora do ajuste de contas soará», É esta, Sr. Presidente, a mentalidade que se está formando no operariado português, por cuja situação é indispensável olhar com olhos de ver.
Foram estes os motivos que me levaram a fazer algumas considerações sobre o problema das subsistências.
Não mo proponho tratá-lo com proficiência, pois está isso longe da minha pretensão e seria materialmente impossível fazê-lo nos dez minutos que o Regimento me concede para usar da palavra; todavia, vou dizer – e desejo que as minhas palavras sejam ouvidas pelo Governo – algumas cousas que julgo esclarecerem a orientação que sobre este problema convêm seguir-se no futuro.
Para que a Câmara possa facilmente acompanhar a minha exposição, eu farei recair as minhas considerações muito rápidas sobre quatro pontos.
Como é que a crise das subsistências se manifesta?
Quais são as suas causas?
Quais as medidas com que os Governos se propuseram resolve-la?
Quais as medidas com que o Governo, presentemente e de futuro, deve tomar para resolvê-la ou pelo menos atenuá-la?
Abordo este assunto, Sr. Presidente e Srs. Deputados, porque me consta que a Câmara fechará em breve.
Temos diante de nós dois meses; são precisamente os meses das colheitas, e durante esses meses o Governo precisa de tomar medidas previdentes e acertadas (Apoiados), que assegurem para o ano próximo o abastecimento do país e de todas as subsistências mais necessárias à alimentação pública, e não medidas de expediente, não medidas de ocasião que nem resolvem a crise, nem a atenuam; e até por vezes concorrem para agravá-la.
Bom é pois que nesta Câmara se diga em que é que a crise das subsistências consiste, e como é que ela se manifesta, porque me parece que todos os Governos anteriormente ao actual, que cuidaram deste problema, não o souberam pôr, nem o souberam estudar, e por isso não o puderam resolver.
O Sr. Dr. Oliveira Salazar, lente de economia política da Universidade de Coimbra, num trabalho recente sobre este problema, depois de ter analisado a legislação tão numerosa, tão complexa e tão contraditória, com que os Governos procuraram resolver a crise, chega à seguinte observação:
Não será permitido pensar que o problema nem foi bem estudado, nem foi bem posto, e foi pessimamente resolvido?
Efectivamente quem se der ao trabalho de compulsar mais de 100 decretos, que tantos são os já publicados até hoje sobre esta questão, chega a concluir que de facto alguns anos atrás se legislava tão imperfeitamente e tanto ao acaso, e de tal maneira essa legislação é confusa e contraditória, que o inspector das Subsistências e nosso camarada nesta Câmara, o Sr. Botelho Moniz, teve a desagradável impressão de ver que nos jornais se reclamava contra o facto de S. Exa. insistir por que se pusessem em vigor decretos que haviam sido considerados caducos, tão numerosa, tão contraditória e tão complexa, é a legislação que tem sido publicada!
O Sr. Presidente (Eduardo Augusto de Almeida): – Tenho a dizer a V. Exa., que termine as suas considerações, pois que já passou da hora.
O Orador: – Eu peço a V. Exa. que consulte a Câmara; desejo apenas que me conceda falar mais 4 minutos.
Vozes: – Fale, fale.
O Sr. Presidente: – Visto que a Câmara o autoriza, pode V. Exa. continuar no uso da palavra.
O Orador: – A meu ver, a crise das subsistências no nosso país manifesta-se por duas formas: pela carência de algumas substâncias alimentícias, e sobretudo pelo encarecimento pavoroso de certos produtos.
[…]
Sr. Presidente: não posso dizer tudo o que tinha no meu propósito, mas quero, principalmente, chamar a atenção do Governo e da Câmara para a necessidade de estudarmos esta questão e não gastarmos tempo com pequeníssimos incidentes que para nada servem (Apoiados) e que fazem com que lá fora se diga que os trabalhos desta Câmara são inúteis.
Sr. Presidente: esta questão merece, de há muito, a minha atenção; e quando os trabalhos parlamentares continuarem a merecer o nosso estado e a nossa atenção, eu declaro a V. Exa. e à Câmara que terei a maior satisfação em voltar ao assunto, e o Centro Católico prestará todos os elementos que tenha ao seu dispor para a solução dela.
Declaro a V. Exa. que tenho muito prazer e satisfação em voltar a usar da palavra, não para acusar ninguém, mas para dar a parcela do meu esforço no que diz respeito à resolução das questões económicas que mais interessam a nação.
Tenho dito. (Apoiados).».
