Eu, António de Oliveira Salazar, cada vez sonho mais com as mulheres da minha vida: Felismina, a potra de Viseu; Maria Laura, mulher do próximo e eu a cobiçá-la, pecador me confesso; Carmen Lara, a espanhola; Carolina, a viúva aristocrata, essa quase me leva ao matrimónio, os monárquicos queriam muito, travei a tempo; e Christine, a francesinha, vendaval de simpatia, sedução; e tantas outras…
Ainda hoje, muitas delas, vêm ao castigo em S. Bento, até viscondessas e marquesas. Ali mesmo no jardim, moita frondosa, fidalgas e um pobre, filho de pobres, a revidar…
Deus isentou-me da paternidade porque me reservou para missão maior. Ainda bem, antes o respeito, o amor talvez depois. Mas um homem tem as suas necessidades e fidalgas não há sempre ao meu dispor. O que é preciso é compostura.
Algumas vezes, a meio da noite, Manuel, o meu guarda-costas de confiança, leva-me a um certo clube só para cavalheiros da alta, fica ali no Largo do Andaluz. Sem outras testemunhas, num quarto há sempre uma mulher nova e bonita à minha espera, muito asseada, primeira apanha. Talvez enfermeira, ou telefonista, ou costureira, coitaditas… Nada pergunto, apenas me sirvo. Tudo muito discreto, tudo pela surda. Já dizia S. Tomás de Aquino: se não podes ser casto, sê cauto ao menos.