SALAZAR E A I REPÚBLICA – 43 – por José Brandão

1920 – A República num colchão podre

 

Os primeiros dias dos anos 20 são uma amostra de um país a naufragar numa tempestade em que não há descanso.

Da falhada «Monarquia à moda do Porto», volta-se agora à vitoriosa «República à moda de Lisboa», com o Terreiro do Paço a fazer o País como pode, e de País quando pode.

Aos olhos de muitos e grandes nomes da luta histórica pelo ideal republicano, «isto já não é República não é nada»:

«É uma bacanal de percevejos num colchão podre» – Diz Guerra Junqueiro, gigante incomparável da propaganda revolucionária durante os anos da Monarquia. – «Afora meia dúzia, o resto devora. Os homens são cada vez pior, cada vez mais pequenos. Tirem-lhes a política e ninguém dá por eles» – acusa o poeta, cansado e desiludido com um rumo que tem já destino inevitável para uma esperança de tantos anos.

«A Monarquia, nesta altura [1920], seria de fugir… E a República? A República – diz Junqueiro – não se atura nem se pode aturar!» *

* Raul Brandão, Memórias, III, Perspectivas e Realidades, Lisboa, s.d., p. 38.

«A primeira condição dum regime» – proclamava Junqueiro – «é ser tolerante. Veja! Um regime que se alimenta de ódios sucumbe, mais tarde ou mais cedo, de inanição. A República podia e devia ter congraçado todos os portugueses. Não o fez. Teria sido uma das suas grandes forças morais. A própria Lei da Separação, necessária e excelente como princípio, foi, na sua aplicação prática, um abismo. Separou homens – e confundiu consciências. O padre Matos arvorou-se em Afonso Costa do clericalismo; o Afonso Costa converteu-se em Padre Matos do Registo Civil. A República não poderia ser entre nós, país pequeno, um palácio grandioso, mas podia ter sido uma lareira acolhedora. Disse-o ao António José, ao Afonso, ao Camacho, ao Sidónio. Apoiavam-me. Eu virava as costas: riam-se, chamavam-me poeta. Esqueciam-se de que ninguém, como os poetas, compreende as crianças, e a República era uma criança. O que aconteceu? O inevitável. Á força de rabujar, a República aos dez anos estava uma velha!» *

* Luís de Oliveira Guimarães, Junqueiro na Berlinda, Lisboa,1950.

O rumo que estavam a dar à República trazia profunda consternação e gerava grandes inquietações entre todos os que queriam sentir a necessidade de cumprir melhor a «promessa» de 5 de Outubro de 1910.

Não poucos eram os que erguiam a sua voz contra o que estava a acontecer ao regime que ajudaram a implantar e que acreditavam poder ser melhor.

Aproveitando todas as ocasiões, nomes dos mais respeitados faziam ouvir os seus protestos, como Leote do Rego, em entrevista ao semanário ABC de 26 de Agosto de 1920: «É preciso pôr termo ao turbilhão de ódios em que se vive neste País, maculando reputações ou iniciativas, abastardando a alma e os talentos. É preciso que isto acabe!

Referindo ao estado da política no País, o prestigiado oficial de Marinha e deputado republicano, expõe os seus veementes desejos para que termine de vez a «arena de feras em Portugal!»

Entretanto, o Governo de Domingos Pereira, iniciado a 21 de Janeiro, procura um maior equilíbrio social, político e financeiro, contrariado pelas continuadas convulsões que já caracterizavam o dia-a-dia: greves, bombas, mal-estar nas forças militares e a bancarrota. Abre-se nova crise em Março, e, novo governo, novo esforço para controlar a desordem a todos os níveis, mais greves, bombas e atentados, reforço das penas, aumento dos preços dos bens essenciais.

A resposta dos governos a todos os problemas é aumentar as medidas de carácter repressivo e criar as correspondentes estruturas.

Para julgar «criminosos de delitos sociais e bombistas» é criado, em 11 de Maio, o Tribunal de Defesa Social. E a 25 de Maio sai o decreto de reorganização do Exército que Prevê a existência de 8 divisões e 1 brigada de cavalaria, com um quadro permanente de 1.773 oficiais e 9.926 praças. O serviço militar devia ser geral e obrigatório. Os mancebos passavam por uma escola de recruta, de 15 a 30 semanas, sendo chamados quase todos os anos (7 em 10) para as escolas de repetição, que duravam 2 semanas. Criavam-se também escolas de quadros, que formariam os futuros oficiais milicianos.

O próprio general Gomes da Costa é condenado a 20 dias de prisão correccional por ter criticado o ministro da guerra João Estêvão Águas num artigo em A Capital.

Em 18 de Junho o Governo não tem outro remédio senão o de apresentar a demissão, depois de ser criticado por aumentar os vencimentos dos membros dos gabinetes ministeriais. Várias personalidades são convidadas sucessivamente para constituir governo, desistindo.

Ainda em Junho, novo governo é indigitado mas, pela fragilidade dos apoios, demite-se passados quinze dias.

Sucede-se outro governo a 19 de Julho, e por Novembro, outro governo, que cai passada uma semana na sequência de uma moção de confiança. A crise é geral.

Julho é mês de todas as ocorrências. Os dias são fartos em casos graves.

No dia 1entra em funcionamento o Tribunal de Defesa Social, criado em 11 de Maio próximo passado.

4. O juiz do Tribunal de Defesa Social Pedro de Matos, é assassinado, sendo o tribunal atacado à bomba de seguida.

8. Movimentos grevistas e tumultos em todo o país, sem controlo sindical. São chamadas revoltas da fome.

30. O movimento grevista e bombista continua por intermédio da Legião Vermelha, um grupo terrorista de ideologia mal definida. Conotada quer com o anarco-sindicalismo quer com o Partido Comunista Português recentemente criado.

Agosto prossegue na senda de Julho. Atentado contra outro juiz do Tribunal de Defesa Social, o Dr. Félix Horta.

E em Setembro, greve dos ferroviários. O governo utiliza os sapadores do Exército para conseguir manter as linhas em funcionamento. As linhas são dinamitadas, ao que o governo responde colocando à frente dos comboios os grevistas presos.

Segunda-feira, 29 de Novembro de 1920, toma posse o XXVIII Governo, chefiado por Liberato Pinto. Era o governo do homem forte da GNR, que fora, aliás, um dos cérebros da reorganização deste corpo especial de tropas. A GNR, depois de armada na sequência das sublevações monárquicas de 1919, tornara-se uma das mais importantes forças policiais.

Em Dezembro, o ministro das finanças Cunha Leal reconhece que Portugal se encontra sem recursos em Lisboa e a descoberto em Londres, afirmando que o país está «sem recursos necessários para comprar o pão-nosso de cada dia».

Da guerra de 1914-1918 resultavam consequências negativas de ordem ideológica e

ordem pública. A desorientação estava instalada.

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