EDITORIAL – O CAPITALISMO ESTÁ NAS ÚLTIMAS?

O incidente ocorrido anteontem no Parlamento quando Passos Coelho ali foi declarar que a retoma começaria «algures em 2013» e Heloísa Apolónia, a deputada de Os Verdes, lhe lembrouImagem2 que no ano passado fizera igual previsão para 2012, o primeiro-ministro, com uma agressividade que roçou a grosseria, acusou-a de estar a mentir – nunca dissera tal coisa. Logo apareceu a gravação – Apolónia não mentiu – o mentiroso é Passos Coelho.  Como sempre. Há dias atrás, neste espaço de convívio diário com os amigos visitantes, dizíamos que a qualidade intelectual dos políticos não parou de baixar desde 1974 – apesar de tudo (e o tudo é muito!) entre Mário Soares e Seguro, ou entre Sá-Carneiro e Coelho, há diferenças significativas. O mal não é só português – gente como Rajoy, Aznar, Sarkozy, Berlusconi… gente assim, teria dificuldade em chegar à primeira fila. Cavaco Silva é porventura o mais caricato e lamentável presidente da República desde Américo Tomás.

José Luis Sampedro, o grande escritor e humanista catalão, afirma que a cultura capitalista, ao cabo de cinco séculos esgotou as suas possibilidades. E refere uma longa lista de insucessos, de impotência do sistema para resolver os problemas que gerou e que decorrem da sua natureza. O capitalismo perdeu o controlo sobre os monstros que criou. E neste quadro de degenerescência, os mais aptos fogem dos cargos políticos e procuram aceder directamente aos centros de poder, sediados nos grandes grupos económicos. Passos Coelho não tem capacidade para ser primeiro-ministro. Passos Coelho é um incompetente nato. Numa multinacional, dificilmente ultrapassaria o nível intermédio. A maioria dos membros da sua equipa, são também gente sem capacidade técnica. Da capacidade moral, nem falamos. Na oposição, no PS, a julgar pelo secretário-geral, a pobreza é semelhante. A ascensão a cargos de poder político por parte de gente tão incapaz, constitui uma certidão de óbito para o modelo de democracia representativa e um dobre de finados para o capitalismo tal como o conhecemos. Como sabemos, o processo histórico não segue uma linha evolutiva em que as condições sociais vão sempre melhorando. O que vem a seguir a este modelo de sociedade de que os Descobrimentos terão sido, há cinco séculos, o ponto de partida, é algo que também depende da capacidade que os progressistas, os humanistas, terão para evitar que o paradigma passe a ser o de uma sociedade robotizada (dominada pelas novas tecnologias) e em que os padrões éticos deixem de existir. O poder político substituido pelas mafias. A corrupção promovida à condição de valor moral e a ética remetida para a Torre do Tombo e substituída pelo «pragmatismo» e pela «assertividade». É uma previsão tremendista? Talvez. Oxalá.

Leave a Reply