OS DIAS SEGUINTES – DINAMIZAÇÃO CULTURAL (2) – por Franco Charais

 Este texto é, com a devida vénia e com os nossos agradecimentos, transcrito do REFERENCIAL nº 107, com autorização expressa do presidente da Associação 25 de Abril e do director do REFERENCIAL. Agradecemos também ao autor, o general Franco Charais.

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(Cartoon de João Abel Manta)

Numa outra sessão de trabalho reunimos representantes das estruturas de cultura e desportos das Câmaras Municipais de Lisboa e Oeiras. Dificuldades no pagamento da factura de energia, discutiam-se, a nível do governo, restrições na circulação de automóveis nos fins-de-semana. Para reduzir os longos trajectos e engarrafamentos dos fins-de-semana, estudava-se um projecto de utilização do complexo desportivo do Estádio Nacional para plena utilização, durante um dia inteiro, pelos munícipes dos concelhos limítrofes que seriam atraídos por grandes espectáculos ao ar livre de concertos de música, óperas e bailados, etc. Os próprios artistas passariam também o dia na área do Estádio Nacional e, de acordo com o programa e horário previamente determinados, deslocar-se-iam para das estruturas municipais ou não acreditaram no projecto ou foram incapazes de o implementar.

Perderam a oportunidade de serem precursores dos grandes espectáculos que hoje em dia tem lugar ao ar livre, muitos deles em estádios de futebol.

A Dinamização Cultural vai criar problemas dentro do Governo Provisório e ameaças de demissões de ministros. O ministro da Educação e Cultura dizia que a educação e dinamização cultural era com o seu ministério e que o MFA estava a interferir nas suas competências. Mas o problema era que o seu ministério, sobre dinamização cultural, pouco ou nada fazia e, como em outros ministérios, perdia tempo em discutir sobre quais seriam as competências de um Governo Provisório. Mas o país respirava revolução por todos os poros e as populações tinham necessidades que se não compadeciam com tantas hesitações.

Mas os problemas não se ficavam por aqui. Com a Dinamização Cultural o MFA vai aumentar o número de inimigos. A juntar ao nosso inimigo principal que sabe que muito irá perder com estas campanhas vai somar-se a incompreensão dos partidos que lutavam pela posse do novo poder político e, incompreensivelmente, de alguns sectores da Igreja Católica. Para alguns dos seus dirigentes políticos pouco importava a cultura do povo, interessava-lhes mais, para as tarefas que se aproximavam, as eleições, arrebanharem o maior número possível de votos no mais curto prazo de tempo.

Mas para os elementos da Comissão Coordenadora a maior preocupação eram as divisões que o nosso principal inimigo e os partidos políticos tentavam provocar entre os militares do MFA. E sabendo haver militares identificados com as últimas e amargas palavras públicas do general Spínola, proferidas no seu acto de renúncia, começámos a prestar atenção às pressões que os partidos faziam para recrutar, para os seus interesses particulares, militares que, em seu entender, teriam mais força – ou mais visibilidade dentro do principal núcleo do MFA.

Daqui a necessidade de organização das estruturas do MFA e, em 15 de Novembro de 1974, o Conselho dos 20 decide-se pela criação de uma Assembleia de Delegados em cada ramo das FA´s e uma Assembleia das Forças Armadas que vai ser conhecida pela Assembleia dos 200, integrando militares do Exército, da Marinha e da Força Aérea. Com os Conselhos das Armas e Serviços surgidos de eleições a trabalhar tornava-se mais fácil a escolha dos delegados para aquelas Assembleias.

Eu próprio, promovido a coronel em 16 de Setembro de 1974, fui eleito para o Conselho da Arma de Artilharia e pude acompanhar de muito perto a forma como o Conselho cumpria a sua missão. Presidido por um general e tendo na sua composição representantes de todos os postos até ao posto de tenente, o Conselho foi rigoroso na apreciação de todos os militares de Artilharia. E verifiquei que os representantes dos postos mais baixos eram muito mais exigentes nas suas apreciações do que os representantes dos postos mais elevados. O general conhecia perfeitamente a maioria dos oficiais superiores mas os capitães e subalternos só concordavam com o seu saneamento quando estavam perfeitamente esclarecidos das razões que aconselhavam a tomada de qualquer decisão. Paralelamente à decisão do Conselho dos 20 era aprovada e publicada a Lei Eleitoral e em 9 de Dezembro e tem início o recenseamento eleitoral.

O MFA dava – e como aliás sempre deu ao longo de todo o processo – claros sinais de que o Programa do MFA iria ser cumprido.

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