GIRO DO HORIZONTE – NOTAS DE FIM DE ANO. Por Pedro de Pezarat Correia

Giro do Horizonte

Algumas breves notas para este GDH com que me despeço, na Viagem dos Argonautas, deste nefasto ano de 2002.

Mensagem de Natal de Pedro Passos Coelho

            Não vi nem ouvi em directo a mensagem de Natal de Passos Coelho. Desliguei o receptor assim que foi anunciada. Cumpri, com gosto, o APAGÃO que outros propuseram e com o qual me comprometera. Mas, inevitavelmente, chegaram-me os ecos dos seus lugares-comuns, li extractos e comentários na imprensa. Uníssonos nas suas críticas. Como era previsível, porque é uso e costume, o homem ter-se-á espalhado. Acrescentou nada a coisa nenhuma. Foi mau na forma e vazio no conteúdo.

               Não há volta a dar-lhe.

PECADO DE NÃO SER MINISTRO

               Li a entrevista de Artur Baptista da Silva ao “Expresso” de 15 de Dezembro e gostei. Não conhecia a personagem mas apreciei o que disse e fiquei curioso.

            Quando o vi no painel do “Expresso da meia-noite” na “SIC Notícias” de 21 de Dezembro, disponibilizei-me para o ouvir e também gostei. Disse coisas importantes, falou com segurança, apoiou-se em dados fiáveis e impôs-se aos parceiros de painel, nomeadamente num confronto directo com Pires de Lima. Não tive dúvidas em referi-lo a amigos próximos.

            Afinal parece não passar de um charlatão, um impostor, um vigarista, porque invoca qualificações que não possui, funções que não desempenha, mandatos inexistentes. Ainda por cima com passivo criminal. No fundo é um megalómano e confirmei-o junto de pessoas chegadas que o conhecem. Desculpei-me perante os amigos a quem o referira.

            Mas, interrogo-me, se não tivesse invocado as inexistentes qualificações e as falsas funções, independentemente da validade do que tinha para dizer, alguma vez teria tido acesso ao púlpito do Grémio Literário, às páginas do Expresso, às câmaras da SIC Notícias?

            E, vejamos, não tem assento no Conselho de Ministros alguém que, em termos de falsas qualificações invocadas, nada deve a Baptista da Silva? Que opina, discursa, negoceia, legisla. E até se mostra muito menos credível no que diz? Provavelmente Artur Baptista da Silva até estaria mais habilitado do que ele para uma qualquer licenciatura em equivalências.

            Afinal o seu maior pecado será o de não ser ministro.

NOTÁVEIS

            A imprensa pós-natalícia divulga uma lista de vinte e quatro “notáveis” que foram empossados pelo presidente da República como núcleo fundador de um Conselho da Diáspora Portuguesa. Será um grupo de pessoas, na maioria pouco conhecidas, com altos cargos (interesses?) no estrangeiro, que actuarão como embaixadores para divulgar Portugal. Nada a dizer se bem que me pareça uma manifestação de pouca confiança (para não dizer de desconfiança) em toda a estrutura do corpo diplomático, embaixadores, cônsules, conselheiros e adidos económicos e culturais (aliás o ministro dos Negócios Estrangeiros esteve presente na cerimónia).

            Apenas um pormenor feriu a minha sensibilidade. Entre as duas dúzias de notáveis não aparece um único nome feminino. Nem uma mulher, entre vinte e quatro notáveis, todos eles, segundo a notícia, personalidades que se movimentam com destaque nas cúpulas do mundo empresarial e dos negócios.

                Registo.

APELOS

            Surpreendo-me com a insistência com que grupos de cidadãos, das mais diversas proveniências ou actividades, cívicas, políticas, laborais, culturais, se dirigem ao presidente da República apelando à sua intervenção na área das suas competências institucionais. Considero uma absoluta inutilidade, porque o presidente está remetido à mais gritante passividade, ao mais ensurdecedor silêncio. Está refém da sua óbvia inaptidão para o cargo e de erros primários que cometeu. A não ser que a intenção dos apelos seja, exactamente, confrontá-lo com a sua inacção. Mas então o seu tom deveria ser completamente outro.

            Na verdade este presidente da República (que não a presidência da República, obviamente) tornou-se, pelo que não diz, pelo eu não faz, pelo que não é, uma figura institucional dispensável, exactamente numa altura em que o “disfuncionamento” da democracia mais necessitava de um chefe de Estado activo, influente, respeitado, determinante. Não votei nele mas, mesmo assim, é com mágoa e profunda preocupação que o constato. À sua mensagem de Ano Novo responderei com mais um indignado APAGÃO.

            Espero o mesmo dos apelantes.

2013

            Já que seria hipocrisia desejar às companheiras e aos companheiros da Viagem dos Argonautas um Próspero Ano Novo, desejo que 2013 seja melhor do que aquilo que se perspectiva. O que exigirá, inevitavelmente, a contribuição de todos para uma mudança democrática na política do nosso país. Que dificilmente se fará a partir da cúpula, mas poderá fazer-se a partir da base.

Esses são os meus votos.

31 dezembro 2012

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