LIBERALISMO E DECÊNCIA NORMAL – por Jean-Claude Michéa

Textos seleccionados por Júlio Marques Mota

Lançamos Ragemag, há alguns meses atrás, por considerarmos que não existe nos media franceses nenhuma linha editorial que inclua uma crítica do liberalismo como um todo (pelo menos que o saibamos).

O pensamento de Jean-Claude Michéa, bem como o dos seus autores favoritos, George Orwell e Christopher Lasch, constituem a base intelectual da nossa revista. Jean-Claude Michéa concordou que Ragemagpublicasse alguns trechos de um texto inédito em França, escrito em Janeiro de 2012 para apresentar o seu pensamento ao público espanhol, nas colunas do jornal l El Confidantial .

Se os fiéis leitores do filósofo de Montpellier, provavelmente, não irão aprender muito com este texto, porém, os numerosos leitores que se cruzam regularmente com o seu nome nos nossos artigos poderão descobrir esta forma de pensar muito rica o e iconoclasta, mas acima de todo, descobrir um pensador verdadeiramente socialista. Na nossa opinião a forma mais eficaz para quem quer combater eficazmente o liberalismo.

Arthur Scheuer, Fundador deRagemag.

1/ O liberalismo será ele imoral ?

“Greed is good » Gordon Gekko
O liberalismo oficial afirma que a moral – como a religião – é um caso estritamente privado (cada um é livre de viver como quiser , sob a condição de que “não irá prejudicar os outros). Nesta óptica, cada indivíduo pode perfeitamente, a título pessoal , preferir a lealdade e a generosidade ou, ao contrário, o cinismo e a traição. Isto não altera o facto de que as diferentes decisõespolíticas de um Estado liberal (ou instituições) nunca devem estar baseadas numa determinada “ideologia” (seja ela moral, filosófica ou religiosa). Eles são supostos para, em vez disso, contar com as análises unicamente objectivas elaboradas e desenvolvidas pelos “especialistas” supostos “neutros ” e “independentes” ( à frente dos quais se incluem, naturalmente, os economistas e “técnicos” do direito).

Uma política liberal de austeridade, por exemplo,nunca será imposta ao povo como um castigo de Deus, como a possibilidade de uma vida “virtuosa”, ou mesmo como a manifestação lógica da lei do mais forte. Esta política estarásempre presente e será sempre apresentada , em vez disso, como a única solução ‘realista’ e ‘científica’ (não há nenhuma outra alternativa) que invoca um problema económico específico – seja ele o problema da “dívida” ou a saída do euro. Claro, na medida em que, para os liberais, a linguagem do interesse é a única, em última instância, que é na verdade comum a todos os homens (é a doutrina do homo economicus) e é evidente que, na verdade, o egoísmo acaba sempre por ser encorajado como sendo a única atitude universalmente ganhadora e racional. Quando Milton Friedman – com uma famosa réplica do filme Wall Street –proclama por toda a parte que a ganância é boa (“greedisgood”), ele não fazia mais do que levar até às últimas consequências o paradigma metafísico fundado , desde a sua origem, sobre a privatização completa de todas as convicções morais e filosóficas.

2/ Porque é que as elites nos parecem elas tão indecentes ?

“O hábito de viver acima (e sobre as costas) dos seus semelhantes acaba quase sempre por alterar o significado dos outros e das realidades mais básicas.”

Em 1938, Orwell escreveu que era difícil escapar à ideia de que “os homens não são morais excepto quando eles estão sem poder “. Este juízo de valor não é tão pessimista como na verdade o parece. Este assume simplesmente consciência de que o poder (e isso inclui claro o que confere riqueza ou fama) tende naturalmente a encerrar aqueles que o detêm num universo separado da realidade comum e dos limites que a definem. É por esta razão que viver acima e sobre as costas dos seus semelhantes quase sempre acaba por alterar o significado do outro e o das realidades mais básicas. A partir daí, essa arrogância surrealista e essa terrível falta de bom senso que caracterizam geralmente as elites modernas –isto é o quesão aquelas que já não possuem sequer esta cultura moral partilhada (noblesseoblige) que permitia às antigas aristocracias comportarem-se, de tempos a tempos, de forma honrosa. Este é um ponto que o Evangelho já tinha sabido colocar em evidência quando com ele se ensinava que “é mais fácil a um camelo passar através do buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos céus”. Se se preferir uma formulação mais laica deste axioma populista (ou anarquista) pode-se então recordar a magnífica fórmula de Camus (para a posteridade do sol): “aqui vive um homem livre, ninguém o serve.”

3 / O que é a decência comum?

Marcel Mauss

Para Orwell, o sentimento de que há “coisas que não se fazem” era, na verdade, o princípio da decência comum , commondecency , isto é, a moral intuitiva das pessoas comuns. Não há aqui nada para que nos possamos espantar . As sociedades humanas, de facto, sempre elaboraram um catálogo preciso de acções que consideram contrárias à natureza, à vontade divina ou mesmo ao simples bom senso. É também certo que o conteúdo concreto e o fundamento metafísico destes sistemas de interditos têm sempre variado em função das características de cada civilização. No entanto, como Marcel Mauss o tinha estabelecido no seu Essaisurledon, há uma série de estruturas normativas que são comuns a todas as sociedades. Este é particularmente o caso da “lógica do dom”, cuja tripla obrigação constitutiva “dar, receber e transformar ” que se encontra , numa forma ou noutra, em todas as comunidades humanas. Isto significa que todas associedades (excepto, é claro, a estranha civilização capitalista) sempre concordarem e aceitaram – para lá das suas diferenças irredutíveis –em reconhecer a capacidade dos seres humanos em agir independentemente dos seus interesses exclusivamente egoístas como o fundamento de toda e qualquer atitude honrosa.

Se, na sequência de Durkheim (A Divisão do trabalho social), se tem em conta como moral “tudo o que é fonte de solidariedade, tudo o que leva e força o homem a ter em conta o outro, tudo o que leva a que o homem assente os seus comportamentos em uma outra coisa que não são os seus impulsos egoístas “, então podemos considerar este sistema tradicional do dom como a verdadeira matriz antropológica (psicológica) de todas as construções éticas posteriores – o que inclui, obviamente, a decência comum em que Orwell via a primeira fonte de indignação socialista . É claro, esta “decência comum” das classes populares modernas tem uma história (Orwell nunca deixou de destacar o papel vital que o cristianismo – como as revoluções francesa e inglesa –terão desempenhado no desenvolvimento da sua forma ocidental ). Para lhe conferir esta potencialidade quedela faria o ponto de partida moral do projecto socialista, certamente sido necessário que se desencadeasse todo um trabalho de universalização crítica destinada a gerar e a atingir progressivamente as formas tradicionais da moralidade comum dos seus principais limites históricos (como, por exemplo, os limites que consagravam o estatuto subordinado das mulheres ou da inferioridade das nações estrangeiras). Limites também que tinham muito menos a ver com o imperativo comunitário em si-mesmo (o homem será sempre um “animal político”) do que às múltiplas formas de princípio hierárquico (princípio da dominação, da exploração e da exclusão) que estruturavam em profundidade as comunidades mais antigas.

“A idéiaprogressista (…) segundo a qual a” moral do futuro “não teria nada em comum com as do passado (…) não é somente mortífera. Ela assenta principalmente num profundo desconhecimento dos dados da antropologia . ‘

Não deixa de restar , no entanto, que as obrigações de lealdade e generosidade ligadas a este sistema de dom (e, portanto, os hábitos de reciprocidade e de ajuda mútua que delas são a manifestação prática) se encontram necessariamente na base da commondecency moderna. A partir deste ponto de vista, a ideia progressiva – apoiada pelo mitode um ” homem novo ” –segundo o qual a “moral do futuro” já não teria mais nada em comum com as do passado ( era, por exemplo, a convicção de um Trotsky) não é apenas mortífera. Assenta basicamente num profundo desconhecimento dos dados da antropologia. E é por esta razão que MarcelMauss, de quem nós muitas vezes nos esquecemos de que o seu trabalho sociológico era inseparável do seu activismo político, tinha mil vezes razão para convidar o movimento socialista ” em voltar ao arcaico” (disponível , escrevia ele, “a passar até por velho e fora de moda como igualmente a passar também por ser expressão de lugares comuns “). Era, seguramente, a melhor maneira de preservar os fundamentos éticos de uma sociedade decente e assim evitar também as ratoeiras infernais do relativismo cultural e da realpolitik. A trágica história do século XX, infelizmente, tem-lhe dado razão.

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