GIRO DO HORIZONTE – EXPRESSO – por Pedro de Pezarat Correia

10550902_MvCyL[1]O semanário Expresso assinalou os seus 40 anos com uma edição comemorativa que se justifica pois, de facto, quando apareceu foi uma lufada de ar fresco numa imprensa escrita condicionada e adulterada pela existência de uma censura férrea, ainda que muitas vezes primária, então já requalificada de exame prévio, de acordo com as alterações semânticas com que o marcelismo procurou iludir o imobilismo com que prolongou a ditadura do Estado Novo. Sou leitor desde o seu primeiro número, apesar de já então o considerar na linha editorial de uma direita moderada, mas que me satisfazia porque reconhecia que não podia ir mais além e se situava à esquerda num espectro político dominado pela direita radical. Continuo hoje a considerá-lo na mesma linha editorial mas agora situado politicamente à direita, num espectro político que faculta posições mais ousadas. É um jornal do sistema dominante, do capitalismo, do liberalismo, da lógica do mercado. Continua tecnicamente a ser um jornal de qualidade mas que, ideologicamente, não me satisfaz. Em 1973 lia-o com gostoporque se perfilou como uma alternativa que preencheu um espaço em aberto. Hoje continuo a lê-lo mas com desencanto e apenas por ausência de alternativas, porque há um espaço por preencher.

Nesta edição comemorativa – e por isso o trago aqui, ao meu GDH – traz um artigo de opinião de José António Saraiva (JAS), como de todos os anteriores directores do jornal (com a única excepção, por já ter falecido,do saudoso Augusto de Carvalho que para mim foi o melhor de todos), que me deixou perplexo. Entre as suas propostas para o futuro (o destino) de Portugal, como o fim do Estado social, que ilustram o seu posicionamento ideológico e que não vou comentar, inclui uma passagem que, essa sim, não deixo passar, porque revela desajustamentos analíticos e conceptuais mais graves.

Escreve JAS que «[…] Portugal deve continuar a estreitar a relação com os países de língua portuguesa que a revolução de abril interrompeu […]» Leio… e pasmo!! Admitindo que, quando se se refere a países, entende povos politicamente estruturados e incluídos no sistema político internacional, que países de língua portuguesa existiam, antes da revolução de abril, para além de Portugal e do Brasil? Será que a revolução rompeu as relações Portugal-Brasil ou proporcionou-lhes um novo impulso? Ou será que AJS inclui nos países de língua portuguesa, antes de abril de 1974, as colónias portuguesas de África, da Índia, de Macau e de Timor? Havia entre estas entidades, então, alguma relação de país a país?

Os preconceitos ideológicos e as reservas mentais não permitem a JAS aceitar que foi com o 25 de Abril que se criaram as condições para que emergissem os novos países de língua portuguesa em África e na Oceania. Mas ainda que JAS considere que antes de abril de 1974 esses países já existiam, se bem que não independentes, o que é uma tese possível, será que a revolução de abril interrompeu as relações desses países com Portugal ou, pelo contrário, constituiu a oportunidade para que essas relações se iniciassem, desenvolvessem, prosperassem? Será que a Comunidade dos

Países de Língua Portuguesa (CPLP) existiria sem a revolução de abril ou será que ela é, genuinamente, fruto da revolução de abril?
É lamentável a afirmação de JAS. E é grave, porque é a palavra de um director de jornal, o Sol e porque traduz o pensamento de um professor universitário, de uma cadeira de Política Portuguesa numa universidade privada, onde se têm formado muitos dos que pontificam na política nacional da actualidade. Esperemos, ao menos, que os seus alunos tenham o espírito crítico suficiente para perceberem o que lhes impingem.

Diz AJS que, enquanto professor, inicia as suas aulas com a pergunta: «Por que razão Portugal é um país atrasado?» Afinal é ele próprio que acaba por dar a resposta.

7 janeiro 2013

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