INDIEDEPENDÊNCIA – Texto de Marcos Cruz. Ilustração de Manuel Cruz.

Um Café na Internet

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Manuel Cruz - I

Assim como, no princípio deste século, uma franja considerável de críticos de produtos artísticos e culturais renunciou à pele do intelectual esquisito e inacessível que lhe era vestida pelo senso comum e passou a revelar uma simpatia crescente por objectos e eventos mainstream, respondendo positivamente ao aceno de um mercado tão explosivo quanto indiferente a quem lhe oferecia resistência, hoje vemos consolidar-se um movimento de sentido inverso por parte do próprio mainstream, a reboque de um fervor expansionista com apetite voraz pela anexação de correntes de opinião livre.

É assim que rebenta este fenómeno do indie. Hoje, todos queremos ser indie. Os filmes que trocamos, os sites de música que procuramos, os livros que recomendamos, é tudo indie. A coisa evoluiu a tal ponto que já se torna difícil separar o indie do mainstream, e boa parte das vezes a fronteira é cosmética – nada mais nada menos que o mainstream a revelar a verdadeira natureza de um dos seus tentáculos mais trendy.

Ora, o indie preenche em nós, ilusoriamente, o vazio idiossincrático que resulta de uma vida entregue a outrem. A reflexão pede tempo e disponibilidade mental, verdadeiros luxos para quem martela os dias com a batida repetitiva das logísticas casa-trabalho-casa. Vai daí, preterimos a experiência criativa em favor de um produto cujo rótulo de cultural, e ainda por cima indie, serve de almofada à nossa consciência. Assim que o dia nasce trocamos um novo cromo.

Perversamente, opera-se no (in)consciente colectivo uma transferência de valor entre o produto cultural e o conhecimento da sua existência. Passa a ser mais importante falar do filme, da música, do livro, do que ter deles um usufruto pessoal. E é esse consumo supérfluo e exibicionista que adensa a dependência do indie, aquilo a que ironicamente poderíamos chamar de indiedependência. O mais paradoxal é que o indiedependente procura através do vício de fugir da sociedade inscrever-se nela.

Tomemos um exemplo: com a credibilidade dos media em queda livre, o cinema tem explorado avidamente o filão da realidade. Seja em documentários ou produtos ficcionais de base verídica, há hoje uma obsessão por capturar todo o tipo de experiências de vida. Se isso traduz uma tomada de consciência da sétima arte de que temos de combater o facto de nos estarmos a afastar uns dos outros ou configura apenas um aproveitamento estratégico da circunstância de que não falta quem queira observar cada uma dessas borboletas no respectivo frasco, é análise complexa que o curso do tempo tratará de esclarecer. Mas que a disponibilidade da maior parte do público indie para visionar as pessoas que habitam essas micro-realidades filmadas não encontra correspondência na sua vontade de se relacionar com elas em terreno vivo, disso não haja qualquer espécie de dúvida.

Talvez isto não baste para postular um “ver ou viver, eis a questão”, mesmo que o fosso entre o voyeurismo e a vida vivida não pare de aumentar e que a generalidade dos indievíduos possa ainda não ter visto o filme em que se meteu. Poucos rebaterão, no entanto, a ideia de que aquele tipo de produtos culturais oferece a quem o consome uma espécie de preservativo, para que a viagem seja segura. E, já agora, que serve uma realidade necessariamente manipulada, de acordo com a subjectividade do seu autor e, na esmagadora maioria dos casos, de modo a que a experiência humana proporcionada cumpra propósitos emotivos, catárticos e reflexivos intrínsecos à sua legitimação no mercado. É assim que pequenos mundos esquecidos (pessoas sem-abrigo, toxicodependentes, doentes terminais, profissionais do sexo, vítimas de violência doméstica, entre tantos outros), como que salvos pela indústria da arte, ganham de repente um glamour inesperado, provocando no indievíduo um misto de revolta (pelo facto de o mundo retirar o manto da humanidade a quem mais dele precisa) e conforto (por sentir revolta).

Na esmagadora maioria dos casos, nenhum destes sentimentos produz nada de consistente, tendendo mesmo a desaparecer cada vez mais eficientemente na voragem dos dias. A revolta esvai-se onde reaparece: na conversa de café da manhã seguinte – e já cumpriu o seu papel; o conforto, acordado pela realidade, é um efeito que também dura pouco. Daí o indievíduo precisar de mais, de mais revolta e mais conforto, de mais indievídeos sobre indivíduos para mostrar que é indivíduo a outros indievíduos, e tudo numa escalada cuja cadência é ditada pela indústria ao abrigo da lei do consumismo. Quer vejamos nisso perfídia de quem produz ou descontrolo de quem consome, ou as duas coisas, o circuito indie torna-se tão fechado que não só limita a experiência dos que o habitam como os aprisiona nessa experiência limitada.

De um modo que não deixa de ser sintomático, o conceito de indie descende do de alternativo. Embora sejam palavras de significado distinto, elas coincidem no facto de que é alternativo ser independente. Além disso, tanto uma como outra têm vindo a ser levianamente usadas e abusivamente distorcidas, o que faz com que o vazio lhes esteja cada vez mais próximo. Nesse cenário, quase todos vaticinarão que, tirando o suicídio e outras saídas perturbadoras, dificilmente restará alternativa à dependência. Mesmo hoje, em paralelo com espíritos que, tomados pelo optimismo da criatividade, procuram novos rumos capazes de desmentir a inelutabilidade da tirania financeira, há muita gente informada que parou de acreditar na reversibilidade do fracasso humano e, tendo hipotecado a reflexão, já se limita a preservar o conforto da existência física.

Mas há alternativas. Sempre. Pensemos num caso de vida comum: um homem levanta-se cedo e vai trabalhar. À noite, quando chega a casa, e já depois de ter feito as compras no supermercado, trata dos filhos (dá banho, veste pijamas, cuida) enquanto a mulher prepara o jantar. Assim que a cozinha está arrumada e os filhos deitados, ele e a mulher, cansados, deitam-se no sofá a ver um filme ou, se já não houver tempo, um episódio da série que estão a acompanhar. Ele ou ela adormecem a meio. Batem à porta: é o dia seguinte.

Agora imaginemos que, por uma vez, o homem chega a casa e a filha lhe pede que desenhe com ela. Ele fá-lo e, pouco a pouco, percebe que se reacende em si o gozo há muito perdido do desenho. A filha mostra-se mais próxima dele do que no resto dos dias. E a mulher, por empatia, também.

Certamente, muitos de nós se revêem nisto. O mesmo é dizer que muitos de nós são este homem ou esta mulher. Eis uma premissa importante para o êxito de um filme. Se um realizador trabalhasse esta ideia (injectando a devida tensão nos binómios consumir/criar, aceitar/decidir, continuar/romper), havia uma forte probabilidade de muitos de nós, ou seja, muitos destes homens ou destas mulheres, reagirem a este produto cultural como a tantos outros de que gostam: sentir-se-iam mais humanos, mais integrados, mais cultos. A questão é: sentirão o mesmo quando experienciam, na própria vida, a essência de que se alimenta o filme?

Uma resposta negativa legitimaria a admissão de que, para o senso comum, a cultura se autentica no produto. Se eu vou de carro com quatro amigos e tenho uma conversa filosófica em que abordo profundamente alguns dos temas mais importantes da contemporaneidade, isso não é cultura. Se alguém filma essa minha conversa, já é cultura.

O rótulo, claro, interessa sobretudo a quem quer vender cultura. E a quem, tendo-se resignado ao sonambulismo quotidiano, a quer comprar. O indievíduo pode até convencer-se de que não joga este jogo, mas é, paradoxalmente, uma das suas pedras fundamentais: a bolsa de credibilidade, a ONG de que o sistema precisa para que o espectáculo possa continuar.

Desenha-se, pois, uma alternativa: libertar a cultura. Retirar-lhe o espartilho dos formatos, dos rótulos, dos donos. Criar. Enquanto não percebermos que a vida é arte e que dinheiro nenhum pode comprar o que dá real sentido a telas, pincéis e tintas, seremos sempre dependentes. Indie ou não.

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