O LIVRO DE PAPEL JÁ MORREU? – por GILBERTO DIMENSTEIN

Imagem1Transcrito com a devida vénia e os nossos agrdecimentos da Folha de S.Paulo,

Com a proliferação dos e-books, surgiu um mercado paralelo legal e clandestino de distribuição de arquivos.

USANDO AS NOVAS ferramentas de comunicação, um grupo de professores da África do Sul está inovando o jeito como se produzem livros didácticos e acabaram se transformando numa experiência acompanhada por diversos centros de tecnologia do mundo. Espalhados em diversas partes do país, eles escrevem colectivamente, numa página da internet, livros sobre todas as matérias ensinadas nas escolas. Mas cada professor adapta o conteúdo para sua realidade local, a começar do seu bairro. Um mesmo livro, portanto, pode ter centenas de diferentes versões.

Como nem todas as escolas têm acesso à internet (onde os conteúdos estão disponíveis gratuitamente), encontraram uma saída. Sem cobrar direitos autorais, eles organizam o material e entregam textos para editoras tradicionais. O livro chega às escolas com um preço mais barato. “Em pouco tempo, o papel será dispensável”, disse o físico Mark Horner, um dos coordenadores do projecto baptizado de Siyavula.

Essa foi uma das experiências que chamaram a atenção num encontro na semana passada que reuniu, nos EUA, alguns especialistas em inovações tecnológicas e educação. Serve como mais uma provocação sobre o futuro da produção e distribuição do conhecimento no geral e dos livros e dos escritores em particular.

O fim do livro de papel é tido como uma questão de tempo. Isso significa que as livrarias vão desaparecer? Para quem, como eu, tem prazer de andar por livrarias e sentir o papel, essa é uma pergunta incómoda.

Andando aqui no metrô, vemos quanta gente aderiu ao livro electrónico. Algumas escolas resolveram aposentar os livros didácticos de papel, usando até o argumento de que, assim, deixam as mochilas mais leves e preservam a saúde dos estudantes. Comemora-se até o fato de que, com os novos aparelhos, cresce a venda entre os mais jovens. Com o aumento do consumo dos e-books, surgiu um mercado paralelo legal e clandestino de distribuição de arquivos.

Está acontecendo com os escritores o que, no passado, ocorreu com os músicos, quando surgiu o Napster. Depois de muita briga por causa da troca clandestina de arquivos, começaram a reinventar um novo modelo de negócios. Mas cada vez se ganha menos dinheiro vendendo CDs aliás, quase ninguém mais vende CDs. Assim como os mais jovens já não usam mais relógios de pulso. Nem e-mail. A onda de aplicativos está tornando até obsoleta a internet do www. Os músicos podem compensar a queda da renda fazendo shows. O que os escritores deveriam fazer? Palestras remuneradas? Podemos não gostar quando uma mudança tecnológica nos afecta, mas adoramos poder falar pelo Skype sem pagar a ligação telefónica.

Não é tão diferente assim dos desafios do jornal que se estruturam para cobrar os conteúdos digitais. É um desafio que atinge as escolas. Os conteúdos das matérias já podem ser encontrados na internet, algumas vezes com recursos mais interessantes e provocativos do que os dados em sala de aula. O Media Lab, do MIT, desenvolveu uma plataforma (Scratch) em que as próprias crianças fazem seus jogos e trocam suas criações pelo mundo aliás, o MIT desenvolveu conteúdos gratuitos só para o ensino médio. Como a transmissão do conhecimento não para de crescer, os modelos de negócio, depois do baque, vão se reinventando, gerando perdedores e ganhadores. Alguém poderia imaginar que jornais pagariam parte dos salários dos jornalistas com base no número de clicks em suas páginas ou matérias na internet?

Estudos têm mostrado que, depois da onda provocada pelo Napster, não diminuiu a produção musical pelo mundo e a produção de aplicativos foi estimulada.

Os desafios da sustentabilidade são enormes, mas as oportunidades são maiores ainda. Um caso está correndo aqui em Harvard, onde ganha força um ambicioso projecto para criar a maior biblioteca digital do mundo, que é acessível a todos. A pretensão é nada menos do que seleccionar todo o conhecimento já produzido pela humanidade. Uma das inspirações é a Europeana, na qual se encontra 15 milhões de versões digitais de livros e obras de arte. Além de Harvard, estão aderindo ao projecto as maiores universidades americanas com seus monumentais acervos de livros, além da biblioteca do Congresso americano. Representantes da Apple, Microsoft e Google estão participando dos encontros. Os livros de papel, os CDs e até as escolas tradicionais podem morrer. Mas o conhecimento está cada vez acessível. PS- Coloquei na internet (www.catracalivre.com.br) mais detalhes dos projectos citados nesta coluna.

3 Comments

  1. Na minha opinião, o que for verdadeiramente importante acabará por ser publicado em papel, durante um período ainda duradouro. O espaço virtual não é seguro e talvez nunca o venha a ser. E também não é credível, à excepção dos sítios de instituições prestigiadas e que possam ser certificados, sem hipótese de fraude, o que não é fáci… De resto, a internet contém muito (muitíssimo!) mais disparates, irrelevâncias, erros de transcrição e falsificações de vário cariz do que informação credível e certificável, que por lá andará numa percentagem reduzidíssima (embora sem elementos, mas com a noção – empírica – da esmagadora quantidade de inutilidades que por lá proliferam, eu arriscaria, creio que sem grande margem de erro, que ela estará bem abaixo de 1%). E o pior é que um erro, mesmo não intencional nem provocado pela ignorância que atinge a esmagadora maioria dos seus “navegantes” (porque essa é a realidade, no que se refere ao conjunto da população mundial), se propaga à velocidade da luza e da leveza de pensamento e crítica de quem toma tudo por bom, de uma forma e a um nível de grandeza que nunca aconteceu no passado. Onde acabamos ainda (e, provavelmente, durante muitos anos) por ir buscar informação caucionada? No acesso a enciclopédias e outros elementos de consulta (mediante, em geral, o respectivo pagamento, mesmo que sejam disponibilizados na net) e nas edições em papel. Duvido que, se as sociedades não alterarem a sua composição e a sua atitude no acesso ao conhecimento “real” e à cultura, as elites intelectuais e científicas, pelo menos, dispensem a maior segurança dos registos não virtuais, entre eles… o papel.

  2. Totalmente de acordo, Paulo (alguma vez tinha de ser!). A internet não é um meio credível de o conhecimento circular – textos apócrifos, abundam. Quem quiser aceder a um determnado texto, exceptuando os tais sites institucionais, raramente tem a garantia de que encontrou o documento que procurava. É um meio com grande potencial, mas a sua maior força – a liberdade de circulação – é a sua maior debilidade. O livro em papel é onde acabamos por ter de recorrer para avaliar se o que colhemos na net é ou não fiável.

  3. Ainda hoje li no Diário de Notícias que um artigo da Wikipedia sobre um imaginário “Conflito de Bicholim”, entre portugueses e indianos, em Goa, no século XVII, “ilustrado” com um mapa e outras imagens, aí se manteve durante cinco anos anos, sendo mesmo classificado pelos editores da “enciclopédia” como um “bom artigo”… até que alguém, mais curioso, verificasse que a bibliografia (17 referências!), identificada pelo ISBN dos livros. era falsa, conduzindo a pesquisa dessas identificações a outros livros ou a coisa nenhuma! Em “caixa”, dão-se exemplos de outros três artigos inventados, que constaram da mesma “enciclopédia” durante vários anos, tendo um deles chegado aos oito, entre 2004 e 2012! E, no caso da Wikipedia, ainda existe alguma preocupação (pelos vistos, de parcos resultados) em verificar os artigos… Em compensação, também vi, há pouco tempo, uma notícia sobre a rejeição, pelos editores da Wikipedia, de artigos sérios! Imagine-se (com terrror!) o resto do “panorama virtual”…

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