Ontem, na televisão, deram a notícia de que, em 1912 2012, faleceram 3760 idosos sozinhos em casa no nosso país. São dados recolhidos a partir dos contactos feitos pela PSP e pela GNR. Como se sabe, as duas forças policiais foram incumbidas no ano passado de sinalizar as situações existentes, até por que são obviamente situações de risco. A elas se devem os poucos dados existentes, que permitem ter uma ideia da extensão do problema.
Em 5 de Setembro do ano passado já tínhamos abordado este problema aqui em A Viagem dos Argonautas. Referimos na altura que haveria informações que em 2011 o número de idosos que faleceram sozinhos em casa teriam sido de quase 3000. Se estes números estão minimamente próximos da realidade temos um agravamento do problema. É verdade que só agora as entidades oficiais e a opinião pública estão mais despertas para o problema. E a intervenção das forças de segurança com certeza que contribuiu para haver mais conhecimento do que anteriormente. Entretanto, o Censo de 2011 informou-nos que em Portugal vivem cerca de 2,2 milhões de pessoas com mais de 65 anos, das quais 400 000 isoladamente, e 800 000 na companhia de outro idoso. Estamos assim perante um problema de grande dimensão. Que melhorias terá trazido o Ano Europeu para o Envelhecimento Activo e Solidariedade entre as Gerações? Provavelmente nenhumas, ou melhor, ter-se-á assistido ao agravar do problema.
É verdade que muitos idosos vivem sós por opção pessoal, e não desejam mudar de situação. Essa opção muitas vezes agrava as situações de risco. Outros vivem sozinhos nas suas casas, mas têm apoios de familiares ou amigos na área da residência. Simplesmente, nem todos, nem mesmo a maioria, dispõem desses apoios, cuja precariedade aliás é fácil de perceber.
São necessárias políticas que, ao menos, não agravem as situações. É o caso da chamada reforma administrativa, que veio pôr em causa a existência de muitas juntas de freguesia, sem sequer avaliar minimamente o papel que desempenham. Temos de ter governantes com sensibilidade para perceber as complexidades da vida na sociedade, a cujo serviço deveriam estar. Outro caso flagrante, com grande peso em problemáticas como a do isolamento de idosos, é o dos serviços sociais dos diferentes organismos públicos, votados a um desprezo incompreensível, com reflexos óbvios no trabalho e, aqui também, nas comunidades a cujo serviço são supostos estar. Nunca poderão ser substituídos por entidades supostamente privadas, com meios limitados e fins próprios, nem coincidentes com os da população.


Muito bom. Imagino que a primeira data está errada e quer dizer 2012, porque em 1912 com certeza as pessoas idosas morriam mais acompanhadas do que hoje. Pelo menos na Galiza viviam com os seus filhos e netos, em casas unitárias e familiares. Normalmente um dos filhos ficava na posse da casa e morava lá com os pais. Hoje os filhos devem ir embora procurar trabalho muitas vezes longe do lugar natal. Os “mercados”, como diz outro argonauta no seu artigo, desenham a vida atual e eles querem indivídu@s sozinh@s com todo o tempo para dedicar ao trabalho e poucas responsabilidades familiares. Os nossos velhos são de outro mundo, nós não respondemos às suas expetativas, mas também seremos velhos um dia e eu… penso que também quereria morrer sozinha, sem importunar nem ser cuidada por ninguém.
Isabel, muito obrigado pelo seu comentário e pela sua chamada de atenção. Efectivamente, deveria ter escrito 2012 e não 1912. Não sei explicar o meu lapso. É o segundo do género que tenho em pouco tempo. Espero não voltar a repeti-lo.
Não sei o que se passa na Galiza nesta matéria, mas infelizmente em Portugal estamos numa fase de acentuado retrocesso, e não só no que respeita à população idosa. Apesar da grande quebra da taxa de natalidade, pelo que se conhece, a pobreza infantil e o número de crianças e jovens em situação difícil estão também a aumentar.