Selecção, tradução e nota introdutória de Júlio Marques Mota
Um bom texto como seria de esperar vindo da revista de onde vem, Alternatives Internationales, e onde se fala de Portugal, pelas más razões, as razões que a União Europeia vai oferecendo ao capital internacional por um lado e retirando aos povos europeus, por outro, forçando-os agora a uma migração em massa. E nessa inversão de fluxos migratórios Portugal é um caso bem representativo. E não menos representativo desta política de entrega da Europa ao capital internacional está o facto de que o segundo maior empregador na Inglaterra é já a empresa indiana TATA!
Júlio Marques Mota
A vingança ” dos países emergentes “
Christophe Jaffrelot, Directeur de recherche CERI-Sciences Po/CNRS et président de l’Association des amis d’Alternatives Internationales
Alternatives Internationales, Dezembro de 2012
A crise do euro – e a da União Europeia em geral – primeiramente provocou comentários condescendentes da parte dos países emergentes, particularmente na Ásia, que finalmente tiveram a sua vingança sobre o velho continente e em particular sobre as antigas potências coloniais. O ex-diplomata de Singapura, Kishore Mahbhubani, disse no ano passado, no Fórum Económico da Ásia Oriental: “a grande preocupação de muitos asiáticos está ligada à incompetência do Ocidente”.
Um ano mais tarde, o tom mudou. É que os países emergentes estão conscientes da sua dependência relativamente aos mercados ocidentais – e em particular europeus. A UE absorvia 17% das exportações chinesas em 2010 (contra 13,6% do lado americano), o que permitia a Pequim atingir um excedente de 169 mil milhões de dólares. Menos exposta, a Índia tornou-se ainda assim o oitavo parceiro comercial da UE, à frente do Brasil , Canadá e da Coreia do Sul.
No entanto, todos os países emergentes registaram uma redução muito significativa na sua taxa de crescimento desde o ano passado: 8-9 para 5-6% na Índia e de 4,5% para 2% no Brasil. Quanto à China, onde a taxa caiu de 10% para cerca de 8%, pretende-se travar uma tendência que pode levar a desencadear fortes tensões sociais. De imediato, os países emergentes vêem-se forçados a virem em auxílio da UE, não sem segundas intenções. Algumas das suas empresas compram empresas europeias em dificuldade e em que as suas tecnologias é sempre bom adquirir. A Indiana Tata tornou-se o maior empregador industrial no Reino Unido atrás da British Aerospace, felicita-se por ter comprado Jaguar e Rover, que, pela primeira vez desde há muito tempo, irá distribuir dividendos aos seus accionistas, este ano. As empresas chinesas estão naturalmente mais activas: começaram de muito baixo, os seus investimentos na Europa triplicaram entre 2009 e 2010! Eles são particularmente massivos em infra-estruturas, quer se trate do porto de Pireu, em Atenas ou da distribuição de electricidade em Portugal.
Os países emergentes também estão empenhados em que a União Europeia fique à tona de água, em vez de se estarem a afogar. Eles proclamam que a hora da Europa burguesa é já coisa do passado, que agora o que é necessário é fazer diminuir e bem a protecção social e pôr-se a trabalhar. Se a UE faz as suas reformas, os mercados emergentes abundarão o FMI — como eles começaram a fazê-lo na Cimeira de Los Cabos (México) em Junho passado. Mas em troca, deve-se-lhes atribuir um lugar bem mais importante dentro das instituições de Bretton Woods.
Em 2010, a quota-parte dos Brics foi reavaliada em detrimento da dos Europeus – a China figura agora em terceiro lugar- mas os grandes países emergentes agora já pedem mais. A Europa fará ela as suas reformas e as suas empresas será que permanecem atraentes aos olhos dos mercados emergentes? Possivelmente. A alternativa é ou a de desintegração ou a de se fecharem sobre-si mesmas. Agora, os países emergentes começam a preocupar-se com um aumento do proteccionismo que pode precipitar o declínio das suas exportações. Mas a UE também poderia mostrar-se mais resistente do que os países emergentes agora com dúvidas: o seu crescimento desacelera antes de que eles estejam equipados com infraestruturas de base – excepto no caso da China – e de um sistema de protecção social que em breve lhes fará tanto mais falta ao Império do Meio quanto a sua população está em declínio demográfico que, de resto, se aproxima e a grandes passos. Aconteça o que acontecer, a crise actual terá marcado um ponto de viragem, que traduz a inversão dos fluxos migratórios: a partir de agora em diante, são os europeus que irão procurar trabalho no Sul – como o testemunha o êxodo dos jovens portugueses para o Brasil e Angola…
…
