1924 – A República e as bombas
1924 começa com uma greve dos funcionários das finanças e com aumento da actividade bombista, alegadamente fomentada pela Legião Vermelha.
Uma resenha, forçosamente omissa, de atentados cometidos em Lisboa no primeiro mês de 1924 aponta as seguintes acções:
7 de Janeiro – Às 12 horas, na Charneca, um menor encontrou uma bomba de dinamite abandonada; brincando com ela, fê-la rebentar, ficando gravemente ferido.
10 de Janeiro – Às 20 horas, na Calçada da Boa Hora, à Ajuda, rebenta uma bomba contra a residência do proprietário duma oficina.
13 de Janeiro – Às 20 horas explodiu uma bomba de dinamite na escada do prédio n.º 21 da Rua Duque de Palmela, causando estragos materiais.
– Às 21 horas explodiu uma bomba de dinamite no Cais do Açúcar, ao Beato.
14 de Janeiro – Às 20 horas, explodiu uma bomba de dinamite junto dumas oficinas de caldeireiro, na Cova da Moura.
– Às 8 horas foi encontrada uma bomba de dinamite junto da Repartição das Contribuições da Câmara Municipal.
22 de Janeiro – Às 23 e um quarto rebentou uma bomba na Rua José Domingues Barreiros, ao Poço do Bispo.
A par das bombas, iam sucedendo as manifestações e as greves. Uma manifestação contra a carestia de vida, em 22 de Fevereiro, reúne cerca de cem mil pessoas em Lisboa. Realizam-se, entre dia 17 e 22, «comícios unitários» em Lisboa e Porto organizados por sindicatos e forças de esquerda. E a 18 de Abril é dia de greve dos funcionários públicos.
Em Maio, confrontos nos Olivais causam a morte de três operários, alegadamente membros da Legião Vermelha, e de um polícia, o cabo Manuel Neves que comandava a força policial envolvida. A operação resulta de uma cilada montada pela polícia aos terroristas, mas não surte o efeito desejado.
A 2 de Maio as associações patronais contestam a política económica do governo Álvaro de Castro. A Associação Comercial de Lisboa defendia que as pastas económicas deviam estar nas mãos de «técnicos» independentes.
No XI Congresso do Partido Socialista, realizado no Porto, em Junho de 1924, o partido passa a ser dominado por Ramada Curto e Amâncio Alpoim.
Em plena Câmara dos Deputados, o deputado monárquico Cancela de Abreu, chega a declarar, que o país está entregue a uma quadrilha de ladrões. Tudo se agrava quando o governo não consegue apoio da oposição para a operação do empréstimo externo e o escândalo rebenta quando se anuncia que 49 toneladas de moeda de prata estão quase a partir para Londres, a fim de se garantir o empréstimo externo. Há uma tumultuosa sessão parlamentar sobre a questão no dia 27 de Junho e, no dia seguinte, é aprovada uma moção de desconfiança, apresentada pelo democrático Vitorino Guimarães. No dia 30 já é suspenso o embarque das coroas.
Sarmento Pimentel, num artigo publicado na Seara Nova, dizia:
«Não há Exército Nacional. Há a guarda pretoriana da República burguesa carregando o orçamento com cifras monumentais, roubando ao País os homens bons que trazem da aldeia para na cidade se indisciplinarem, para se desmoralizarem, para se sifilizarem. Um ministro quer pôr o Exército dentro da sua verdadeira missão e logo o Parlamento exige que esse ministro deixe o poder. À política actual só convém o que está. Bulir-lhe é bulir com os interesses da maior parte dos que por uma série de contos do vigário chegaram ao Poder.»
O governo de Rodrigues Gaspar não consegue encontrar forma de garantir a ordem pública, havendo várias tentativas de revolta. São forças do exército e da GNR que entram em refrega, com cerca de uma dezena de mortos, havendo, então, uma sucessão de atentados bombistas.
Forças marginais do regime também vivem em turbulência. Os católicos continuam agitados pelas polémicas travadas entre os defensores do Centro Católico e os críticos do jornal A Época e, entre os sindicalistas, agrava-se a ruptura dos anarco-sindicalistas com os comunistas, seguidores da Internacional Sindical Vermelha.
O jornal A Época anuncia o falhanço de uma tentativa golpista de assalto ao forte da Ameixoeira que teria sido preparada por Martins Júnior, que deseja como chefe Gomes da Costa.
Nova revolta radical (12 de Setembro). Combinada numa leitaria, em frente ao Teatro Apolo, tendo como objectivo assaltar o ministério da guerra e a central dos telégrafos. Mas apenas chega a ser ocupado o edifício da Alfândega, pelo major Pires Falcão. Paradoxalmente, enquanto decorrem estes golpes radicais, a imprensa democrática e anarco-sindicalista continua a alertar para o perigo de um golpe fascista.
Em 28 de Setembro é criada a União dos Interesses Económicos, financiada pela CUF e pelos latifundiários, com o apoio expresso da Associação Comercial de Lisboa, Associação Comercial do Porto, Associação Industrial Portuguesa e Associação Central da Agricultura Portuguesa.
Sexta-feira, 7 de Novembro. A polícia impede a realização das comemorações do 7.º aniversário da Revolução Russa.
27 de Novembro. Apresentação, na Câmara dos Deputados, do ministério José Domingues dos Santos, executivo este «saído do bloco das esquerdas parlamentares». Segundo a declaração ministerial: «Depois de todas as perturbações que se acumularam, pela guerra, sobre males antigos, o grave problema português é principalmente de ordem social e moral. Todo ele se resume em ser preciso estabelecer o equilíbrio: o das classes, melhorando as condições de vida às medianas e pobres; o das profissões, devendo crescer as produtivas e diminuir as onerosas ou especuladoras; o das terras aráveis, corrigindo-se os extremos da propriedade excessiva e insuficiente: o das próprias ideias, devendo triunfar as de que são, de solidariedade e de moral superior, decorrentes da perfeita compreensão duma finalidade comum.»
Governo de José Domingues dos Santos vai durar 85 dias (não chega aos três meses). Na agricultura, está o então seareiro Ezequiel de Campos.
1 de Dezembro de 1924. Realizam-se comícios em Lisboa, protestando contra o desemprego e os baixos salários, sendo a CGT (Confederação Geral do Trabalho) reconhecida pelo Governo.
Ainda em 1924: criação da União Católica de Estudantes Portugueses (UCEP), contando-se, entre os seus membros fundadores, Marcelo Caetano e Pedro Teotónio Pereira.
