INTEGRAÇÃO DOS IMIGRANTES BRASILEIROS EM PORTUGAL: Contextos e Estereótipos – por Joana Domingues

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O protagonismo que têm os imigrantes brasileiros em Portugal e a sua fácil visibilidade, permitem um maior conhecimento sobre este coletivo e a construção de uma imagem mais definida e sólida sobre a sua presença e importância.

Os contextos de integração da comunidade Brasileira em Portugal atravessam duas tendências diferentes na sua composição e perfil. A partir da década de 90, os imigrantes brasileiros mostravam um perfil qualificado, que sofreu uma mudança com os anos, manifestando-se na proletarização dos fluxos e consecutivamente na receção de imigrantes de classes médias e baixas, situação que se prolongou até à atualidade. O exemplo do emblemático caso dos dentistas que lutaram pela homologação dos seus títulos e o respetivo reconhecimento na carreira de odontologia.

A partir do ano de 1990, foi detetado uma profunda mudança no perfil do imigrante brasileiro a nível profissional. A conquista de “nichos” nos últimos anos foi dirigida à restauração, comércio e hotelaria. Estudos apontam que ao relacionarmos a variável educação com ocupação laboral verificamos que mais de metade dos imigrantes brasileiros têm formação escolar secundária. Em relação ao perfil dos imigrantes chegados recentemente, não significa que estes não tenham qualquer tipo de formação, ainda que estejam associados a trabalhos do setor terciário. Diversos estudos apontam para a segmentação étnica do mercado de trabalho dos brasileiros em Portugal, o qual valoriza a sua simpatia e alegria (Machado, 2003). No contato com o público a
personalidade brasileira é sobrevalorizada comparativamente à Portuguesa, estes são caracterizados de mais simpáticos e complacentes com os clientes que os próprios nacionais. O que muitas vezes se converte no que Machado (2003) chama de prisão simbólica (2003), em que ser Brasileiro significa ser “entertainer” já que se espera do brasileiro um modo alegre, simpático e extrovertido no trato com as pessoas. Acaba por constituir uma espécie de prisão simbólica, em que a sua atuação irá de acordo com o perfil do brasileiro traçado no imaginário português.

Em relação à mulher brasileira de modo específico, foram-se criando estereótipos baseados nas imagens exóticas e raciais das mulheres da Bahia e do Rio de Janeiro bem como as de Recife (Giliam y William, 1999; Padilla, 2001; Piscitelli, 2006 cit in Padilla, 2007). Criaram-se imagens da mulher brasileira, tanto no interior do Brasil como na América do Norte e Europa.

A imagem da mulher está associada ao sexo e a imagem do homem ao descompromisso e “malandragem”, existem preconceitos fortemente definidos no contato sociocultural entre portugueses e brasileiros. Podemos afirmar que o imigrante brasileiro no seu primeiro contato com a realidade portuguesa sofre estados de “choque cultural”. Este encontro de culturas, relacionado com a “hostilidade”, com que são recebidas sobretudo as brasileiras à sua chegada, vai de encontro à reflexão feita por Padilla (2007:26) em que o contexto de receção influencia a construção, formação e transformação de identidades dos imigrantes, influenciando desta maneira a confirmação de imagens e expetativas que predominam sobre elas. Esta situação prejudica a integração da mulher brasileira, em que a vergonha e o contato com a perceção da sua realidade em Portugal, a impede de estabelecer-se como mulher, como Brasileira, como amiga, sentindo-se mais limitada nas suas relações sociais. A conduta da mulher brasileira em Portugal passa pelo esforço de integrar-se e relacionar-se com a imagem que tem. Passa por uma alteração comportamental na relação com a sociedade portuguesa: “ as reações que sofrem são de vários tipos: algumas confessam que rejeitam e não suportam ouvir o acento português ou os próprios portugueses, manifestam incómodo e distúrbio, o que leva a que se isolem da sociedade de destino. (Padilla,2007:45-29)

Os portugueses no trato relacional com o imigrante brasileiro subentendem a nível de consciência coletiva, o estereótipo do brasileiro, não conseguindo isolar essa determinante, assim sendo não concebem o brasileiro de forma individual mas sim como pertencente a um coletivo em geral. O que tende a generalizar relações entre brasileiros e portugueses e impede beneficiar da riqueza que pode ter o contato entre duas pessoas.

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MACHADO, Igor (2003), Carcére Público: Processos de Exotização entre Imigrantes Brasileiros no Porto, Portugal”, apresentação no GT Migrações Internacionais, XXIII, Anpocs, Caxambu, Brasil, 19 a 23 de Outubro.
PADILLA, Beatriz (2007) ”Brasileras en Portugal: de la transformación de las diversas identidades a la exotización.”,14/2007: Femmes latino-américaines et migrations (2007).

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